Nossa natureza é competitiva ou cooperativa?

Somos maus por natureza (ou pela quebra da confiança divina, a partir do pecado original) ou, nada disso, somos bons e podemos nos corromper em decorrência das agruras do mundo?

Para John Locke, “O homem nasce como uma folha em branco, destituído de caracteres ou ideias.”

Ele discordava de que Deus decida o destino dos homens. A sociedade, por sua vez, corrompe os desígnios divinos ou a vitória do bem.

Rousseau, via os homens “tais como são”, incondicionalmente interdependentes.

Esta “interdependência” envolve a necessidade de uma forma de “colaboração mutualista”, ou seja, uma colaboração entre indivíduos em que ambos obtêm vantagens.

Georges Eugène Sorel (1847-1922), um pensador polêmico (influenciou Mussolini mas também Gramsci e os anarcossindicalistas), acreditava que era a violência que unia os seres humanos. Assim também pensava Gustave Le Bon (1841-1931).

Curiosamente, Sorel criou a ideia de “mito político“. Corresponderia a “conjuntos de imagens capazes de evocar em bloco e somente pela intuição, antes de qualquer análise refletida, a massa dos sentimentos”.

A economia neoliberal enfatiza a autonomia; define que colaboração e cooperação são coisas que só os fracos praticam”, observa Richard Sennett. Esse sistema inviabiliza a convivência entre cooperação e concorrência.

Sennett afirma que a cooperação deve ser vista como um processo – uma forma dialógica – e não um meio de se atingir um fim; nem um dom moral, mas um elo social. Ou seja, as pessoas cooperam umas com as outras porque isso é uma vivência e uma aptidão que se constrói.

Para que a cooperação funcione seriam necessárias três habilidades:

  • Saber ouvir: para entender o significado que está por trás das palavras;
  • Usar a voz subjuntiva: uma linguagem que deixe espaço para a ambiguidade, para que possa existir um relacionamento mesmo com ideias diferentes e falta de consenso;
  • Estabelecer distâncias sociais: permitindo que todos colaborem e estejam juntos, mas que possam manter suas próprias opiniões e posicionamentos.

A interação entre humanos (e em muitos outros seres) é percebida como uma “troca”, que pode ter vários resultados, conforme os propósitos: pode ser altruísta, ganha-ganha, tudo-para-um, soma zero etc.

A cooperação seria uma troca em que as partes se beneficiam.

O ambiente e a cultura são essenciais para o entendimento da predominância do espírito cooperativo ou do concorrencial, bélico.

“Pois não é somente o lucro que faz com que os homens se matem. É também o dogmatismo.

Nada é mais perigoso que a certeza de ter razão. Nada causa tanta destruição quanto a obsessão de uma verdade considerada absoluta.

Todos os crimes da história são consequência de algum fanatismo. Todos os massacres foram realizados por virtude, em nome da religião verdadeira, do nacionalismo legítimo, da política idônea, da ideologia correta; em suma, em nome do combate a Satã. (…)

Não são as ideias da ciência que engendram as paixões. São as paixões que utilizam a ciência para sustentar sua causa.” (François Jacob)

Richard Dawkins, no seu “O gene egoísta”, declara que “a bondade e o perdão compensam”, embora tenhamos dificuldades em reconhecer esse benefício antecipadamente.

Nem toda cooperação é benéfica para a sociedade, claro. É só lembramos dos cartéis, acordos políticos visando acobertamentos de práticas ilícitas … Tudo depende das intenções.

O etologista Robert Axelrod, a partir de suas pesquisas, conclui que a cooperação está inscrita nos nossos genes, ocorrendo “sem amizade nem previsão”. Ela também não é estável porque o ambiente natural nunca é fixo.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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