Não há mistério maior que a miséria (Oscar Wilde)

Há uma ânsia por “felicidade”, esse maná moderno. E, achamos que esta felicidade está nos outros, na sua atenção, no reconhecimento, nos afetos e cuidados demonstrados, naquilo que fortaleça nosso ego.

A felicidade – curtos momentos de paz interior – está em nós mesmos. Daí, quebramos a cara, pois procuramos onde não se está.

Esquecemos de ouvir nossa voz interior que apenas deseja que estejamos bem conosco. Os outros só importam pelo que podemos fazer por eles. Nossa felicidade só está nos outros, na medida em que queiramos fazer algo por eles, sem recompensas.

Há valores que nos escravizam; ironicamente são aqueles que falam que nos liberam de nossa interdependência. O outro – nos é ensinado – é alguém a ser batido, superado.

O outro, entretanto, é quem nos eleva a partir de nossos atos benignos. A superação que importa é a nossa – que sejamos melhores que antes.

A sociedade normalmente ridiculariza valores que edificam nossa vida e a humanidade: Altruísmo, Abnegação, Sonho, Bondade, Misericórdia, Beleza

Há um conto/fábula de Oscar Wilde que ilustra esse argumento: “O príncipe feliz”.

Sei que poucos “têm” tempo para uma leitura, mas vou arriscar.

O Príncipe Feliz (Oscar Wilde)

Na parte mais alta da cidade, numa alta coluna, ficava a estátua do Príncipe Feliz. Era toda coberta de folhas finas de ouro, no lugar dos olhos havia duas safiras brilhantes, e um enorme rubi enfeitava o cabo da sua espada.
O Príncipe era de fato muito admirado por todos.

– É bonito como um galo dos ventos – observou um dos Conselheiros da Cidade, querendo ganhar a fama de alguém com bom gosto artístico – Só não é muito útil – acrescentou, com receio de que o tomassem por um homem pouco prático, o que realmente ele não era.


– Por que você não é como o Príncipe Feliz? – perguntou uma mãe perspicaz ao seu filhinho que teimava em chorar – O Príncipe Feliz nunca chora por nada.
– Ainda bem que existe alguém feliz neste mundo – murmurou um homem desiludido, admirando a estátua maravilhosa.


– Parece um anjo – disseram as crianças do orfanato ao saírem da catedral com seus mantos vermelhos brilhantes e seus aventais brancos e limpos.
– Como vocês sabem? – perguntou o Professor de Matemática – Vocês nunca viram um anjo.
– Ah, vimos sim, em nossos sonhos – responderam as crianças. E o professor, com ar severo, franziu a testa, pois não aprovava que as crianças fossem sonhadoras.

Certa noite, uma Andorinha macho sobrevoou a cidade. Seu bando havia partido para o Egito há seis semanas, mas ela ficara para trás, pois se apaixonara pela mais bela planta de Junco.

A Andorinha a conhecera no começo da primavera, quando descia o rio atrás de uma enorme mariposa amarela. Ficara tão encantada com a cintura esbelta da planta que resolveu parar para conversar com ela.

– Quer ser minha namorada? – perguntou a Andorinha de um modo bem direto, e a planta fez uma reverência profunda. Então o pássaro voou várias vezes ao redor dela, tocando a água com as asas, formando ondas prateadas.

Assim ela fazia a corte, que durou todo o verão.
– É um relacionamento ridículo – chilreavam as outras Andorinhas – Ela não tem dinheiro e tem uma família grande – e, de fato, o rio estava cheio de Juncos.

E então, quando chegou o outono, todos partiram. Depois que foram embora, a Andorinha se sentiu só e começou a se aborrecer com a sua amada.
– Ela não tem assunto, e suponho que seja leviana, já que está sempre flertando com o vento – E, realmente, sempre que o vento soprava, o Junco fazia os movimentos mais graciosos – Além disso, ela é muito doméstica – continuou – mas eu gosto de viajar, e a minha esposa também tem que gostar de fazer o mesmo.


– Quer vir comigo? – por fim, sugeriu a Andorinha. Mas a planta balançou a cabeça negativamente, por ser muito apegada ao lar.
– Você se divertiu às minhas custas – gritou a Andorinha – Vou-me embora para as pirâmides. Adeus! – e foi embora para longe.


A Andorinha voou o dia inteiro, e chegou à cidade de noite.

– Onde será que posso descansar? – disse – Espero que a
cidade tenha feito preparativos.
Então ela avistou a estátua sobre a alta coluna.
– Vou descansar ali – disse – Está numa localização boa, com muito ar fresco – Assim, ela pousou bem entre os pés do Príncipe Feliz.
– Tenho uma cama de ouro – disse baixinho para si mesmo, olhando ao redor e se preparou para dormir. Mas, quando estava ajeitando a cabeça sob as asas, uma gota-d’água caiu sobre a Andorinha.
– Que estranho! – gritou – Não tem uma nuvem no céu, as estrelas estão brilhando, mas ainda assim está chovendo.

O clima no norte da Europa é realmente horrível. O Junco
gostava de chuva, mas era por puro egoísmo.

E caiu outra gota. – Para que serve uma estátua se
não consegue me proteger da chuva?– disse – Preciso procurar uma boa chaminé – e decidiu voar.
Mas antes de abrir as asas, uma terceira gota caiu, e ela
olhou para cima, e viu – Ah! O que ela viu?
Os olhos do Príncipe Feliz estavam cheios de lágrimas, que escorriam pela face dourada. Seu rosto era tão bonito à luz da lua que a Andorinha foi tomada de pena.

– Quem é você? – perguntou. – Eu sou o Príncipe Feliz. – Então por que você está chorando? – perguntou a
Andorinha – Você me molhou.

– Então por que você está chorando? – perguntou a Andorinha – Você me molhou.
– Quando eu era vivo e tinha um coração humano – respondeu a estátua – eu não sabia o que eram lágrimas, pois morava no palácio de Sans-Souci (“Sem Preocupação”), onde a entrada da dor não era permitida. Durante o dia, eu brincava com meus companheiros no jardim, e à noite conduzia a dança no Grande Salão.

Havia um muro elevado ao redor do jardim, mas nunca me importei em perguntar o que havia além do muro, pois tudo ao meu redor era muito bonito. Meus cortesãos me chamavam de Príncipe Feliz, e eu era mesmo feliz, se felicidade consiste em prazer.


Assim vivi, e assim morri. E agora que estou morto, me puseram neste lugar tão alto que consigo ver toda a feiura e a miséria da minha cidade e, apesar de o meu coração ser feito de chumbo, não consigo conter as lágrimas.


– O quê? Quer dizer que ele não é feito de ouro maciço? – a Andorinha apenas pensou, pois ela era muito educada para fazer observações pessoais em voz alta.

– Longe daqui – continuou a estátua em uma voz baixa e musical – longe daqui, numa ruela, existe uma choupana. Uma das janelas está aberta, e através dela consigo ver uma mulher sentada à mesa.
Seu rosto é magro e abatido, e ela tem mãos ásperas e vermelhas, toda furada de agulha, por ser costureira.
Ela está bordando passifloras (flores do maracujá) no
vestido de cetim para a mais bela dama de honra da Rainha vestir no próximo Baile da Corte. No canto do quarto, seu filhinho está doente na cama. Ele tem febre, e está pedindo laranjas. Sua mãe não tem nada para dar além da água do rio, por isso ele está chorando.

– Andorinha, Andorinha, minha Andorinha, você pode arrancar o rubi do punho da minha espada e levar para a mulher? Meus pés estão presos neste pedestal e não consigo me mover.

– Meus amigos estão me esperando no Egito – disse a
Andorinha – Eles estão sobrevoando o rio Nilo, e conversando com as grandes flores de lótus. Logo, eles dormirão no túmulo do grande Rei.
O Rei está repousando no seu caixão pintado, envolto em linho amarelo, e embalsamado com incenso. Seu pescoço está ornado de corrente de jade verde, e suas mãos parecem folhas murchas.

– Andorinha, Andorinha, minha Andorinha – disse o Príncipe – não ficará uma noite comigo e ser meu mensageiro? O menino está com tanta sede, e a mãe está tão triste.
– Acho que não gosto de meninos – respondeu a Andorinha – No verão passado, quando ia ao rio, dois meninos rudes, filhos de moleiro, sempre atiravam pedras em mim. Claro que eles nunca me acertavam, pois nós, andorinhas, voamos muito rápido e, além disso, provenho de uma família famosa pela agilidade; mas, ainda assim, era falta de educação.


Mas o Príncipe Feliz parecia tão triste que a pequena Andorinha ficou com pena.
– Faz muito frio aqui – disse – mas vou ficar
com você por uma noite, e serei seu mensageiro.
– Obrigado, minha Andorinha – agradeceu o Príncipe.
Então, a Andorinha arrancou o enorme rubi da espada do Príncipe e voou com a joia no bico sobre os telhados da cidade.

Ela passou pela catedral, cuja torre tinha anjos brancos esculpidos em mármore. Passou pelo palácio e ouviu o som da dança. Uma linda moça apareceu na sacada com seu namorado.
– Como as estrelas estão lindas – o jovem se dirigiu à amada – e como o poder do amor é maravilhoso!
– Espero que o meu vestido esteja pronto até
o Baile Municipal – respondeu a jovem – Pedi que bordassem passifloras nele, mas as costureiras são tão preguiçosas!
A Andorinha passou pelo rio, e avistou as lanternas penduradas nos mastros dos navios.
Passou pelo gueto, e viu os velhos judeus comercializando entre si, e pesando dinheiro nas balanças de cobre.

Finalmente chegou à choupana e deu uma olhada dentro. O menino se debatia febrilmente na cama, e a mãe havia adormecido, de tanto cansaço. A Andorinha entrou, e deixou o enorme rubi na mesa ao lado do dedal da costureira. Depois disso, voou gentilmente até a cama e, com as asas, abanou a testa do menino.
– Estou me sentindo mais fresco – disse o menino – Devo estar melhorando – e mergulhou num sono gostoso.

Depois disso, a Andorinha voltou ao Príncipe Feliz e contou-lhe o que havia feito.
– Que estranho – observou a Andorinha – mas agora estou me sentindo mais aquecida, apesar de estar fazendo muito frio.
– É porque você praticou uma boa ação – explicou o Príncipe. E a pequena Andorinha começou a pensar e adormeceu. Pensar sempre a deixava com sono.
Quando amanheceu, a Andorinha voou rio abaixo e tomou um banho.

– Que fenômeno curioso! – disse o Professor de Ornitologia enquanto atravessava a ponte – Uma andorinha no inverno! – E escreveu uma longa carta sobre o assunto ao jornal local. Todos comentaram a carta, pois estava cheia de palavras que ninguém entendia.


– Esta noite vou para o Egito – disse a Andorinha, feliz com a possibilidade. Ela visitou todos os monumentos públicos, e permaneceu por um longo tempo na torre da igreja.

Em todos os lugares em que passava, os outros Pardais chilrearam, comentando entre si: – Que estrangeira diferente!

E a Andorinha se orgulhava muito com isso, sentindo-se muito feliz.
Quando a lua surgiu, ela voltou ao Príncipe Feliz.
– Tem algum recado para o Egito? – perguntou – Já estou partindo.
– Andorinha, Andorinha, minha Andorinha – disse o Príncipe – não ficará mais uma noite comigo?

– Meus amigos estão me esperando no Egito – respondeu a Andorinha – Amanhã eles voarão à Segunda Catarata. Os hipopótamos descansam nos juncos, e sobre um trono de granito senta o Deus Memnon. Durante toda a noite ele admira as estrelas, e quando a estrela da manhã brilha, ele dá um grito de alegria, e volta ao silêncio.
À tarde, os leões amarelos chegam à beira do rio para beber água. Eles têm olhos como berilos verdes, e seu rugido é mais alto que o rugido da catarata.

– Andorinha, Andorinha, minha Andorinha – disse o Príncipe – longe daqui, no outro lado da cidade, vejo um jovem em um sótão. Ele está debruçado sobre uma mesa coberta de papéis, e no vaso ao seu lado há um ramo de violetas murchas. Seu cabelo é crespo e castanho, seus lábios são vermelhos como uma romã, e tem olhos grandes e sonhadores. Está tentando terminar uma peça para o Diretor do Teatro, mas está com tanto frio que não consegue escrever mais. Não há fogo na lareira, e ele desmaiou de fome.
– Ficarei com você mais uma noite – disse a Andorinha, que realmente tinha um bom coração – Quer que eu leve outro rubi para ele?
– Ah! Não tenho mais rubis – disse o Príncipe – mas sobraram os meus olhos. São feitos de safiras raras, trazidas da Índia há centenas de anos. Arranque um e leve até ele, assim venderá ao joalheiro, comprará comida e lenha e terminará a peça.


– Meu Príncipe – disse a Andorinha – Não posso fazer isso – e começou a chorar.
– Andorinha, Andorinha, minha Andorinha – disse o Príncipe – faça o que estou pedindo.
Então, a Andorinha arrancou o olho do Príncipe e voou até o sótão do estudante. Foi fácil entrar no quarto, pois havia um buraco no telhado e entrou através dele. O jovem tinha a cabeça enterrada nas mãos, por isso não ouviu o bater das asas do pássaro, e quando ele levantou a cabeça, encontrou uma linda safira entre as violetas murchas.

– Estou começando a ser reconhecido – gritou o homem – isto deve ser de algum grande admirador. Agora posso acabar a minha peça – e parecia muito feliz.


No dia seguinte, a Andorinha voou até o porto. Ela pousou no mastro de um enorme navio e observou os marinheiros transportando grandes caixas amarradas às cordas. Os marinheiros gritavam enquanto jogavam as caixas.

– Estou indo para Egito! – gritou a Andorinha, mas ninguém lhe deu atenção. Quando a lua surgiu, ela voltou ao Príncipe Feliz.

– Vim lhe dizer adeus – disse a Andorinha.
– Andorinha, Andorinha, minha Andorinha – disse o Príncipe – não ficará mais uma noite comigo?
– É inverno – respondeu a Andorinha – e logo chegará a neve gelada. No Egito, o sol aquece as palmeiras verdes, e os crocodilos deitam-se na lama e olham ao redor preguiçosamente. Minhas companheiras estão construindo ninhos no Templo de Baalbec, e as pombas rosas e brancas conversam entre elas, enquanto as observam.

Meu Príncipe, devo deixá-lo, mas nunca vou esquecê-lo, e na próxima primavera trarei duas joias no lugar daquelas que você perdeu. O rubi será mais rubro que uma rosa vermelha e a safira será azul como um belo mar.


– Na praça abaixo – disse o Príncipe Feliz – uma vendedora de fósforos está de pé. Ela deixou cair os fósforos numa sarjeta, e todos se estragaram. Seu pai baterá nela se não levar algum dinheiro para casa, e ela está chorando. Ela não tem sapatos nem meias, e sua cabeça está descoberta. Arranque meu outro olho, e leve até a menina, e seu pai não baterá nela.


– Ficarei com você mais uma noite – disse a Andorinha – mas não posso arrancar seu olho. Se eu fizer isso, você ficará completamente cego.
– Andorinha, Andorinha, minha Andorinha – disse o Príncipe – faça o que estou pedindo.
Então, a Andorinha arrancou outro olho do Príncipe, e voou com ele. Ela sobrevoou a vendedora de fósforos, e deixou cair a joia na palma da mão da menina.
– Que pedaço de vidro bonito! – gritou a menina, e correu para casa rindo.
A Andorinha voltou ao Príncipe.

– Você está cego agora – disse – então ficarei com você para sempre.
– Não, minha Andorinha – disse o Príncipe – Você precisa partir ao Egito.
– Ficarei com você para sempre – disse a Andorinha, e dormiu nos pés do Príncipe.


Durante todo o dia seguinte, a Andorinha pousou no ombro do Príncipe e contou-lhe sobre o que havia visto em terras estranhas. Contou sobre as íbis vermelhas, que formavam fileiras na beira do Rio Nilo, e pegavam peixes dourados com bicos; sobre a Esfinge, que é tão antiga quanto o próprio mundo e mora no deserto, e sabe de tudo; sobre os mercadores, que andam vagarosamente ao lado de seus camelos, e carregam contas de âmbar nas mãos; sobre o Rei das Montanhas da Lua, que é negro como ébano, e venera um enorme cristal; sobre a grande serpente verde que dorme em uma palmeira, e possui vinte sacerdotes para alimentá-la com bolos de mel; e sobre os pigmeus que navegam um enorme lago sobre enorme folhas chatas, e que estão sempre em guerra com as borboletas.


– Minha Andorinha – disse o Príncipe – você me conta coisas surpreendentes, mas a coisa mais surpreendente de todas é o sofrimento dos homens e das mulheres. Não há Mistério maior que a Miséria. Voe sobre a minha cidade, minha Andorinha, e me conte o que você vê nela.

Então a Andorinha voou pela grande cidade e viu os ricos se divertindo em suas casas suntuosas, enquanto os mendigos sentavam na frente dos portões. Ela voou pelas ruelas escuras e encontrou rostos lívidos de crianças famintas olhando apaticamente as ruas escuras. Debaixo da arcada de uma ponte, dois menininhos estavam deitados e abraçados para se manterem aquecidos.
– Estamos com tanta fome! – diziam.
– Vocês não podem dormir aqui! – gritou o guarda, e os expulsou para a chuva.


A Andorinha voltou e contou ao Príncipe o que
havia visto.
– Estou coberto de folhas de ouro fino – disse o Príncipe – você deve tirá-las, uma por uma, e levar aos pobres. Os vivos sempre acham que o ouro pode fazê-los felizes.


A Andorinha então começou a tirar o ouro, folha por folha, até que o Príncipe Feliz ficou cinza e feio. A Andorinha levava o ouro aos pobres, folha por folha, e as crianças se tornavam mais alegres, rindo e brincando nas ruas.
– Agora temos pão! – exclamavam.

A neve chegou, seguida de geada. As ruas ficaram brilhantes e cintilantes, como se fossem feitas de prata. Pingentes de gelo longo como adagas de cristal pendiam dos telhados das casas. Todos saíam com casacos de pele e os meninos vestiam gorros escarlates e patinavam no gelo.


A pobre Andorinha sentia cada vez mais frio, mas não queria deixar o Príncipe que tanto amava.
Ela pegava migalhas de pão na entrada da padaria quando o padeiro não estava vendo e tentava se manter aquecida batendo as asas.


Mas finalmente pressentiu que ia morrer. Mal teve forças para voar até o ombro do Príncipe pela última vez.
– Adeus, meu Príncipe! – disse baixinho – posso beijar a sua mão?
– Estou feliz por saber que você está finalmente partindo para Egito – disse o Príncipe – Você ficou muito tempo aqui. Mas você deve me beijar nos lábios, porque eu amo você.
– Não estou indo para Egito – disse a Andorinha – Estou indo para Casa da Morte. A Morte é a irmã do Sono, não é?


A Andorinha beijou os lábios do Príncipe Feliz, e em seguida caiu morta aos pés dele.
Nesse momento, ouviu-se um som estranho dentro da estátua, como se alguma coisa tivesse quebrado. O coração de chumbo havia se partido em dois. De fato, a geada era mesmo intensa.

Na manhã seguinte, o Prefeito estava andando na praça com os Conselheiros da Cidade. Ao passarem ao lado da coluna, olharam para a estátua.
– Meu Deus! Como o Príncipe Feliz está deplorável! – disse o Prefeito.
– Como está deplorável mesmo! – gritaram os Conselheiros da Cidade, que sempre concordavam com o Prefeito, e subiram para observar a estátua de perto.
– O rubi caiu da espada, os olhos se foram, e já não é mais dourado – disse o Prefeito – Na verdade, está um pouco melhor que um mendigo! – Um pouco melhor que um mendigo! – disseram os Conselheiros da Cidade. – E ainda por cima tem um pássaro morto a seus pés! – continuou o Prefeito – Precisamos publicar um decreto proibindo aos pássaros morrerem aqui.
E o Escrivão da Cidade tomou nota da sugestão.
Assim, resolveram derrubar a estátua do Príncipe Feliz.


Já que deixou de ser belo, deixou de ser útil – disse o Professor de Arte da Universidade.


Derreteram a estátua em uma fornalha, e o Prefeito convocou uma assembleia da Corporação para decidir o que poderia ser feito com o metal. – Precisamos criar uma outra estátua, claro – disse o Prefeito – e será a minha estátua. – A minha estátua – cada um dos Conselheiros
da Cidade disse, e brigaram. Na última vez que ouvi sobre eles, ainda estavam brigando.


– Que estranho! – disse o supervisor da fornalha– Este coração de chumbo quebrado não derrete na fornalha. Temos que jogá-lo fora.

– Traga-me as duas coisas mais preciosas da cidade – disse Deus a um dos Seus Anjos. O Anjo levou o coração de chumbo e o pássaro morto.
– Fez a escolha certa – disse Deus – este passarinho cantará no jardim do meu Paraíso eternamente, e o Príncipe Feliz me louvará na minha cidade de ouro.

(Ilustração acima de Pedro Fanti)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: