“Se houver líderes de verdade, e a grande qualidade de um líder autêntico é nem querer dominar, nem querer perpetuar-se, o povo se une para defender os próprios direitos.” (Dom Hélder)

Assisti atentamente à leitura da “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito!” realizada na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Lembrei-me dos idos dos anos 1970, quando, estudantes, corríamos dos cachorros (cães pastores-alemães!) do governador nomeado por suas qualidades de subalternidade – não merece ter o nome citado – ao irmos ouvir os discursos de Dom Hélder Câmara, nalguns colégios no Recife.

O governador se divertia atacando estudantes e cidadãos que se negavam a aceitar o status quo da falta de liberdades democráticas.

Dom Hélder, um ex-integralista, convertera-se há muito na corajosa voz dos pobres, dos indefesos e dos defensores do Estado Democrático de Direito.

Para nós, os jovens, democracia era uma ideia não vivenciada, quase uma utopia. Mas, sonhos se realizam. Depois vieram as lutas pelas Diretas-já, para a consumação do processo democrático. E, finalmente, a Constituinte.

O povo, embriagado, não escolheu o que poderia ser o melhor para nos representar. No entanto, a aprendizagem requer erros.

Dom Hélder era ameaçado constantemente (sua casa chegou a ser metralhada), mas o governo militar não tinha coragem de atingi-lo diretamente; atacava pessoas próximas, para intimidá-lo e calá-lo, como a tortura e o assassinato do Padre Antonio Henrique Pereira Neto, seu assessor.

(Pelo menos 8 mil pessoas acompanhavam o caixão do Padre Antonio Henrique Pereira Neto, morto aos 28 anos pelo Regime Militar. Após ter sido sequestrado na noite de 26 de maio de 1969, seu corpo foi encontrado no dia 27, em uma avenida da Cidade Universitária, no Recife, com sinais de tortura.)

Ele esteve à frente da Arquidiocese de Olinda e Recife durante todo o período da ditadura militar.

Defendendo os Direitos Humanos, condenou as perseguições políticas, as prisões, as torturas, o desaparecimento de pessoas e os assassinatos ocorridos na época. Sem nunca perder a esperança.

Talvez, por participações como a dele, não puderam contabilizar 30 mil mortos, como na Argentina, para tristeza de alguns.

Eis um de seus discursos:

CONSCIENTIZAÇÃO POLÍTICA (abril de 1978)

Meus queridos amigos,

Quem ama, de fato, a democracia, não pode temer a conscientização.

Conscientização não é despertar de consciência crítica? Como é possível chamar de comunista a quem se entrega ao trabalho de conscientizar, se o comunismo, ditadura de esquerda, teme tanto a conscientização quanto as ditaduras de direita?

Nosso povo está cantando:

“Eu quero, quero, quero ouvir a voz do povo

Eu quero ver todo mundo acordar

E descobrir dentro da realidade

Que a semente da verdade

Está querendo germinar.

Eu quero, quero, quero ouvir a voz do povo

Eu quero ver todo povo como irmão

Eu quero ver todo povo caminhando

Se libertando do medo que tem de tubarão

Eu quero, quero, quero ouvir a voz do povo

Todo povo tem boca pra falar

Ainda tem gente que se faz de muda

Fica num canto calada e sem se mexer do lugar

Eu quero, quero, quero ouvir a voz do povo

Ouvi um grito, mas não sei de quem foi

Grita sem medo, grita, grita minha gente

Quem morre calado é sapo debaixo do pé do boi

Eu quero, quero, quero ouvir a voz do povo

Quero ver todo o povo em união

A consciência não se ganha sem esforço

Vamos abrir nossos olhos para enxergar a situação

Eu quero, quero, quero ouvir a voz do povo

O povo não é mais caranguejo

Eu quero ver todo povo consciente

Descobrindo que é gente e caminhando pra frente.”

Só pode haver desenvolvimento autêntico com a participação do povo. E o povo só participa de olhos abertos e consciência desperta.

“Quem morre calado é sapo, debaixo do pé do boi”.

E não se trata apenas de morrer gritando. Trata-se de evitar que haja pés de bois esmagando criaturas humanas como se fossem sapos.

“O povo não é mais caranguejo”.

Caranguejo anda pra trás.

“Eu quero ver todo povo consciente, descobrindo que é gente e caminhando pra frente.”

Que venha o quanto antes o dia em que, de fato, o povo todo acredite que não é lixo, não é coisa, não é objeto, não é bicho, é criatura humana, é filho de Deus!

A gente ensina que o povo tem boca pra falar. A gente ensina “Trabalho e Justiça para Todos”.

É preciso que o povo fale e seja escutado. Que o povo clame por seus direitos e seja ouvido.

Justiça não pode ser, não deve ser somente para quem pode pagar advogado.

Quando veremos, de verdade, o povo caminhar pra frente? Que há progresso há … Mas não para todos. Não para o povo.

O querido povo ainda é muito caranguejo, ainda anda é pra trás.

Vamos nos unir para apressar a hora em que, como gente, o povo caminhe para frente!

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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