Ideólogos do ódio

Tratado de Versalhes (1919): o que foi, resumo e consequências - Toda  Matéria

“A única pessoa que tem uma vida privada na Alemanha é aquela que dorme.” (Robert Ley, Chefe de Organização do Partido Nazista)

Li recentemente um livro de Christian Ingrao, “Crer & Destruir” (que não recomendo; embora interessante, é mal escrito), que objetiva apresentar as “razões” que levaram intelectuais a se engajarem na máquina de guerra da SS nazista.

O autor investiga a trajetória de alguns jovens brilhantes que poderiam ter atuado como economistas, advogados, historiadores ou outras profissões, mas optaram por participar dos órgãos de repressão do Nazismo e, como eles foram atraídos pela ideia do extermínio em massa.

Sempre me questionei sobre o porquê do encanto, do fervor, que abduziu parte expressiva da população alemã numa das mais horrendas aventuras do ser humano. Por que essa preponderância do que há de pior na nossa espécie? Sem entendermos isso, não há como evitar sua reprodução, porque não saberemos o que combater.

Estamos vendo, até por aqui, o florescimento de ideias totalitárias, fascistas, atraindo principalmente jovens despreparados politicamente, que aderem a discursos e atos extremos para tentar contradizer o curso da história que se dá pela aceleração das mudanças sociais (consequência das demais mudanças – demográficas, econômicas, tecnológicas).

O contágio pelas ideias totalitárias de esquerda também existe, claro; porém de forma mais sutil, estruturadamente – gramsciano, como apressadamente o intitula a direita. Não vou falar dessa corrente agora.

Desde já, peço desculpas por eventuais simplificações e generalizações; uso-as apenas como ferramentas argumentativas. Nada é simples, nem o Nada.

A pergunta que fica é: os alemães eram maus, diferentes de nós?

Ingrao procura explicar esse envolvimento com o nazismo a partir da contextualização da realidade política, social e econômica da Alemanha, principalmente no pós-Primeira Guerra. Ele analisa o nazismo como um sistema de crenças “desangustiantes”.

A Alemanha só foi unificada como Estado-nação em 1871, com a criação do Império Alemão, que agregava numa federação todas as partes alemães, exceto a Áustria.

A derrota alemã na Primeira Guerra foi traumatizante. O Império Alemão perdeu 2 milhões de soldados; ou seja, cerca de 18 milhões de pessoas diretamente afetadas pelo luto (considerando-se, demograficamente, dois círculos de sociabilidade concêntricos). Isso era mais que 1/4 da população.

Vieram, depois, as privações alimentares, as decisões do Tratado de Versalhes (no qual a Alemanha não pôde participar),a crise econômica dele decorrente (com hiperinflação), as revoluções comunistas e os Putschs (golpes) separatistas.

Pelo Tratado de Versalhes, a culpa total do conflito foi atribuída à Alemanha. A penalização foi dura: perda de 13% do seu território e das colônias na África, pesadas indenizações, além de limitações militares.

Porém – e o povo alemão acreditava nisso – a Alemanha entrou na guerra alegando sua defesa. Teria sido uma guerra defensiva. Atacar para se defender. Tática conhecida e repetida – inclusive aqui: vitimismo como argumento de mobilização. Algo parecido pode acontecer na atual disputa Rússia-Ucrânia.

Na época, os alemães consideravam que a luta travada na Bélgica e na França era de natureza unicamente defensiva: a intenção seria impedir a Inglaterra de invadir o território alemão. Tanto no Leste como no Ocidente, invasora ou invadida, a Alemanha lutava para defender sua Kultur, seu território, cercado e ameaçado por um “mundo de inimigos”.

Então, tínhamos a fome, o luto, a humilhação e a sensação de lutar pela sobrevivência cotidiana constituindo os principais elementos que formaram a “consciência” da juventude entre-guerras, o ovo da serpente.

As crianças foram doutrinadas: eram objeto de um discurso que lhes explicava a guerra, seu sentido e os inimigos – conforme convinha ao governo.

Eis um trecho de uma carta de um jovem professor à sua mãe, em 1915:

“A guerra nos mostrou com toda força que a nossa vida tinha um sentido completamente diferente do que o que acontece nos caminhos normais de uma vida familiar e burguesa.

Ela pertence ao âmbito de um objetivo grandioso e sagrado. Esse objetivo não o conhecemos. Ele foi implantado em nós desde a eternidade e nos conduz para alguma coisa grandiosa e eterna. (…)”

Entre os inimigos estavam todos os que não se afinavam com essa “coisa grandiosa e eterna”, principalmente os comunistas e separatistas. Depois resgataram o inimigo de sempre, os judeus – como principal bode expiatório, além de minorias e “deformações”.

Indicar inimigos é a principal arma de canalização do ódio, da insatisfação, do ressentimento, que mobiliza as bestas, inadaptadas a um processo de convívio.

Os despreparados para um ambiente rico em diversificação, complexo, mutável e inarredavelmente diferente a cada momento, apegam-se à imutabilidade, que chamam de tradição.

Ao invés de se capacitarem para esse movimento da vida, lutam pela manutenção de um status quo que nem sempre os favorece.

“(…) existem duas cláusulas problemáticas acerca de nossa condição de sujeito: o sonho e a loucura.

Nos dois casos poderíamos dizer que a razão está suspensa, a identidade também, assim como a reflexividade, mas o mais difícil é admitir que tais condições fazem parte do real.” (Christian Dunker)

O que importa é que precisamos sair desse torpor da indiferença: a serpente não está morta. Edmund Burke, um conservador sensato, avisava: “Os perigos crescem se os desprezamos.”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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