O estado de ilusória vigília no qual vivemos

(Rabindranath Tagore, 1861-1941)

Rabindranath Tagore, nascido num 7 de maio, foi poeta, educador, escreveu cantos, óperas-balés, romances, peças de teatro, novelas, ensaios e, depois dos 60 anos se pôs a pintar. Foi o primeiro não-europeu a ganhar o Nobel de Literatura.

Chegou a fundar uma escola, que chamou de a “morada da paz”. Seu sistema educacional não era convencional; baseava-se no que observara quando era aluno e se descobriu rebelde a qualquer forma de ensino oficial.

Para ele, a criança devia ser reconhecida como um indivíduo com plenos direitos. A meta seria ajudá-la a se desenvolver segundo seus desejos e seus gostos, além de aprender a respeitar, equilibrando-se liberdade e disciplina e suas necessidades de independência e de segurança. As crianças eram estimuladas a desenvolverem suas sensibilidade e imaginação. O objetivo resultante seria abrir sua alma para uma espiritualidade viva e não dogmática.

No fim da vida, ficou decepcionado com a incapacidade dos povos de manterem o entendimento e a harmonia.

Permaneceu, entretanto, com a fé viva no homem espiritualizado, o homem do amanhã, com experiência direta do divino. O divino, percebido ao mesmo tempo como a força cósmica da qual emanam os mundos e como a pessoa suprema que coloca uma parcela individualizada de si mesma no coração de cada um.

Desperta!

“A cada manhã, a luz do dia – luz de fonte divina – vem nos tirar do sono, pondo fim, em um instante, ao torpor de uma noite inteira.

Quando desce a noite, porém, como romper o estado de ilusória vigília no qual vivemos? Uma longa jornada de trabalhos e preocupações envolveu nosso ser nas redes de sua enganadora aparência: como dela o libertar, a fim de imergi-lo em uma Paz imaculada e sem limites?

Semelhante a uma imensa teia de aranha, tecida de hora em hora, um véu se estendeu ao redor de nossa alma, envolvendo-a de todos os lados e levantando uma tela opaca entre ela e o Eterno. Como perfurar essa tela e abrir-se ao conhecimento do Infinito?

‘Oh! Desperta! Sê consciente!’

Quando, sem cessar, permanecemos mergulhados em múltiplas atividades e confusões inumeráveis, enquanto o véu, fio por fio, se fecha, e a tela, pouco a pouco, se torna espessa, se não mantivermos em nós certa vigilância, graças a esse apelo interior cem vezes repetido.

‘Oh! Desperta! Sê consciente!’

Se esse encantamento, no próprio seio da ação, não brotar, mais uma e ainda outra vez, das profundidades de nosso ser, então, quando nossa consciência se encontrar mais opacamente cercada, ela mergulhará em uma letargia sem fundo.

Nosso desejo de a isso escapar gradualmente se extingue; nossa vida não tem mais outra realidade além da rede em que nos sentimos pegos na armadilha; toda fé em uma verdade diferente, pura e eterna, é assim aniquilada, e perdemos até a capacidade de nos interrogar sobre nosso aprisionamento.

No zunzum de nossos trabalhos sem fim, não deixe de ressoar no fundo de nós mesmos, como que emitido por um instrumento de corda única, esse constante chamado:

‘Oh! Desperta! Sê consciente!'”

“(…) O homem aproveitou-se de sua liberdade relativa em relação a toda trava física e emotiva, e avança sem obstáculos para as últimas fronteiras da vida.

Para isso, ele teve de percorrer caminhos perigosos, entre revoluções e ruínas. Vez ou outra, o que ele havia acumulado teve de ser eliminado, e a corrente do progresso foi apagada em suas origens.

Embora o ganho seja considerável, o que foi desperdiçado é, em comparação, ainda maior, principalmente se considerarmos que muito dessa riqueza, ao desaparecer, levou consigo toda a lembrança dela.

Como efeito dessa repetida experiência de desastres, o homem descobriu uma verdade, que nem sempre utilizou plenamente: a de que em todas as suas criações ele deve conservar o ritmo moral, caso queira salvá-las da destruição; que um simples aumento de poder não leva a um progresso real, e que é preciso manter um equilíbrio proporcional, uma harmonia entre a estrutura e seus alicerces, a fim de obter um desenvolvimento efetivo. (…)” (Trecho de Meditações, de Tagore)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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