Os poderosos e os bodes expiatórios

123. THE ANIMALS AND THE PLAGUE (Aesop for Children, 1919)
(Os animais doentes da peste – ilustração de Milo Winter 1886-1956)

Jean de La Fontaine (1621-1695) escreveu a fábula “Os animais doentes da peste”.

Esopo (620-564 a.C.) teria sido o primeiro a contá-la, sendo seguido por muitos outros, inclusive os nossos Justiniano José da Rocha (1812-1863) e Monteiro Lobato (1882-1948).

La Fontaine procurou traçar um retrato da aristocracia francesa do antigo regime, ressaltando a crueldade dos poderosos. Está em causa o princípio de que a justiça seria igual para todos, já que ela sempre está do lado dos mais fortes, isto é, dos ricos. 

OS ANIMAIS DOENTES DA PESTE

“Um mal que espalha o terror;              

Mal que o Céu, em todo o furor,

Inventou pra punir os crimes da terra,

A Peste (que o seu nome a todos eu conte),

Capaz de encher num dia o rio Aqueronte,              

Entrou com os animais em guerra.

Nem todos morreram, mas nenhum foi poupado:              

Já ninguém andava ocupado

Em buscar alimentar-se contra a doença;              

De nenhum roncava a pança;              

Nem Lobos nem Raposas iam              

Espiar a presa inocente.              

Até mesmo os Pombos fugiam:              

Ninguém ali estava contente.  

O Leão, na Assembleia, disse:

‘Meu Povo              

Parece que o Senhor de novo              

Nos envia um infortúnio;              

Mas entre nós, anda um culpado;

Sacrificando-o, lavamos nosso pecado,

E o Céu nos salva a vida e o pecúlio.

Eu digo, a história vai  nos julgar lá na frente,               Ainda que morra muita gente.

Não adianta apelar agora: sem clemência,              

Cada qual exponha a consciência.              

Quanto a mim, sempre fui glutão;              

Ovelhas, comi de montão.              

O que elas me fizeram? Nada.

E já cheguei até a comer um Pastor.

Eu até faria o sacrifício. Mas cada

Um deve se acusar e declarar sua culpa:              

Devemos ter fé na justiça,              

O culpado vira linguiça.’

‘Presidente, disse a Raposa, desculpa,

Mas acho que o Senhor está pegando leve;

Comer as ovelhas, gente canalha, se deve.

Pecado? Não vejo. É tudo parasita.              

Sorte delas, virar marmita.

E quanto ao Pastor, é melhor ter em mente              

Que ele merece o guisado,

Pois anda levando toda essa gente              

Na ponta do seu cajado.’

Falou a Raposa, e o povo aplaudiu.              

Ninguém ousou dar nem um pio

Sobre o Tigre, o Urso, e outras autoridades              

E as suas barbaridades.

Em meio a essa gente briguenta, até o pitt bull               Era um santo, e gente boa.

Veio então um Burrico, e disse: ‘eu me lembro

Que eu estava andando um dia lá pela horta,               Tinha fome, e era dezembro,

Deve ter sido o diabo que me abriu a porta,              

E limpei a horta com os dentes’.              

Isso deu raiva aos presentes.

Então um Lobo, disfarçado de Juiz              

Sentenciou o Burro infeliz:

‘Que desse pobre e ignorante animal              

Viria afinal todo o mal.              

O Burro merecia a morte.

Comer da horta alheia!

Era corrupção! Para aquele não bastava a prisão.

Só a morte poderia absolver tal sorte              

De crimes: ele que aceitasse.

Se você for rico é uma coisa, se for pobre,

A Justiça te condena pela classe.'”   (tradução de Adalberto Müller)

A moral da história é óbvia: Aos poderosos tudo se desculpa, aos miseráveis nada se perdoa.

Mas, o poder dos poderosos vem, antes de tudo, pelo consentimento dos não-poderosos e pelo suporte de “raposas”, puxa-sacos profissionais; os outros se comportam como “manada”, burra como o burro e fracas como as raposas.

A cegueira voluntária é o escudo dos fracos.

“A pior cegueira é a mental, que faz que com que não reconheçamos o que temos a frente.” (José Saramago)

Ao citar “quanto ao Pastor, é melhor ter em mente/ Que ele merece o guisado, / Pois anda levando toda essa gente/ Na ponta do seu cajado“, já se vê uma crítica aos pastores eclesiásticos.

O verso “A Peste (que o seu nome a todos eu conte)” é corajoso, visto que ainda era viva a memória da peste negra que varreu o norte da França, em 1349 e 1350.

Era proibido citar o nome “peste”; resgataram um nome grego (epydimia) para a ela se referirem. Achavam que ao falar o nome peste, a situação poderia ser agravada ou retomada.

Os versos “entre nós, anda um culpado; Sacrificando-o, lavamos nosso pecado” era a mentalidade. Teria que haver um culpado; naturalmente, alguém que teria provocado a ira divina. Os judeus foram as vítimas – os bodes expiatórios.

Guillaume de Machaut (1300-1377), contemporâneo da peste, escreveu o poema “Julgamento do Rei de Navarra”, que aborda o massacre dos judeus, escolhidos para expiar a “culpa” dos “bons”, numa espécie de sacrifício.

Ele dizia: “Há sinais no céu. As pedras choram e matam os vivos. Cidades inteiras são destruídas pelos raios. Os homens morrem em grande número. Algumas das mortes são devidas à perversidade dos judeus e de seus cúmplices entre os cristãos.”

Segundo o entendimento geral, os judeus envenenavam os rios, as fontes de água potável.

A justiça celeste (os padres) interveio em meio a esses malefícios, revelando seus autores à população, que massacrou todos eles.

Todavia, após o massacre dos judeus, as pessoas não pararam de morrer, e, cada vez em maior número.

O “povo” não pensa; é guiado. A solução de problemas parece – sempre – requerer culpados. Verdadeiros ou não.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

2 comentários em “Os poderosos e os bodes expiatórios

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