Temos que achar caminhos

(Erik S. Reinert)

Dinheiro atrai dinheiro. O caminho árduo para a transformação de uma ideia em um negócio ascendente passa pela capacidade de atração de recursos. Sem dinheiro, a melhor ideia pode morrer. A chance de um “empreendedor” sair de seu bem sucedido carrinho de lanches – imaginativos e saborosos – e escalar é rara. Por outro lado, uma empresa bem estabelecida pode copiar seu modelo e lançar centenas de franquias.

O mesmo dinamismo se aplica às nações, onde os fatores cumulativos e a trajetória histórica – após se atingir determinado patamar – ajudam os ventos do mercado a soprarem na direção do progresso. Não há uma receita que se replique apenas por estar dando certo num determinado país. É preciso que se observe seus estágios econômico, tecnológico, institucional, educacional etc.

É necessário contextualizar qualquer receituário econômico, diz Erik Reinert.

Monetarismo, fiscalismo, desenvolvimentismo, intervencionismo, laissez-faire, liberalismo, socialismo de mercado, confusionismo (como temos aqui) ou o próximo invencionismo … não têm resultados certos. Porque a economia não é padronizada; ela é uma manifestação social da complexidade. Ortodoxo ou heterodoxo? Estímulos à oferta ou à demanda? Esqueçam.

Uma lição já poderia ter sido assimilada: “quanto mais pobre o país, tanto menos os ventos do laissez-faire sopram na direção certa”, resmunga Erik Reinert.

Além do que, não há inocência na prática econômica; ela está sempre falando por algum segmento social ou econômico. Essa prosa de “mercados eficientes” não põe mais o boi para dormir.

Jean Tirole, que ganhou o Nobel de Economia em 2014, defende uma “Economia do Bem Comum”, que atue como força positiva trabalhando para melhorar o quinhão comum das sociedades e da humanidade.

Perguntado se o capitalismo teria ou não sido útil para melhorar a expectativa de vida e os padrões de vida, e para reduzir as desigualdades, Thomas Piketty respondeu:
“O que permitiu a prosperidade foi moderar o capitalismo do século XIX com uma economia do tipo social-democrata, uma economia mista em que uma parte da riqueza está socializada. E é preciso continuar com este movimento. O socialismo participativo, democrático e federal que eu desejo se insere na continuidade das já muito importantes transformações ocorridas.”

Essas transformações nem sempre ocorreram com revoluções ou conflitos violentos. Ele cita o caso da Suécia:

“A Suécia, até o início do século XX foi um dos países com maior desigualdade na Europa e uma codificação institucional da desigualdade mais extrema do que no Antigo Regime francês ou nas monarquias censitárias da França ou da Espanha do século XIX.

Apenas os 20% dos homens mais ricos tinham direito a voto, e dentro desses 20% poderia haver entre 1 ou 100 direitos de voto, dependendo se a pessoa era o mais rico dos ricos ou se era o menos. Mesmo as empresas tinham direito de voto com base no capital investido no município.

O que aconteceu a seguir é que houve uma grande mobilização dos sindicatos e do partido social-democrata em um país com elevado nível educacional, e a classe trabalhadora tomou o poder. Impôs-se, então, de forma relativamente pacífica.”

Os economistas estão sempre adaptando conceitos das ciências físicas para lhes dar autoridade: resiliência, histerese, aquecimento, equilíbrio, potencial etc.

Histerese, por exemplo, justificaria o entendimento de que “o produto potencial se adequa à demanda efetiva a longo prazo” (quando todos nós estaremos mortos, segundo Keynes). Isso explicaria, “cientificamente”, porque há tanta dificuldade para que o desemprego ceda após um “trauma”: quanto mais tempo a pessoa fica desempregada, maior a perda de capital humano e, mais difícil é conseguir um novo posto de trabalho.

É como se a culpa pelo desemprego se devesse ao próprio desempregado.

Não há um piso para a pobreza nem teto para a concentração de renda.

Curiosamente, foi um físico, Frederick Soddy (1877-1956), quem melhor adaptou as ideias da Termodinâmica para a Economia, ao criar o que hoje se chama Economia Ecológica. Ele trabalhou com Ernest Rutherford em radioatividade.

Entre 1921 e 1934, ele fez uma “campanha para uma reestruturação radical das relações monetárias globais”,  e foi, naturalmente, rejeitado.

A maioria de suas propostas – “abandonar o padrão ouro, deixar as taxas de câmbio internacionais flutuarem, usar superávits e déficits federais como ferramentas de política macroeconômica que poderiam contrariar tendências cíclicas e levantar estatísticas econômicas (incluindo um índice de preços ao consumidor) para facilitar esse esforço” – agora são, entretanto, práticas convencionais. 

Soddy escreveu que as dívidas financeiras cresciam exponencialmente com juros compostos, mas a economia real se baseava em estoques exauríveis de combustíveis fósseis . A energia obtida a partir dos combustíveis fósseis não poderia ser usada novamente. Essa crítica ao crescimento econômico é ecoada por seus herdeiros intelectuais no campo agora emergente de economia ecológica.

O economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994) continuou trabalhando nessa tradição.

Soddy colocava o dinheiro como uma espécie de inimigo da humanidade. 

Apresentava um novo tipo de economia: além da economia neoclássica, baseada na metáfora do equilíbrio entre oferta e demanda, e da economia evolucionária (schumpeteriana) baseada em uma metáfora da biologia (inovações como mutações), ele nos ofereceu um terceiro ângulo: a economia enraizada na física, nas leis da termodinâmica.

Os humanos sobrevivem, escreveu ele, com base no uso de recursos naturais. Se esses recursos se esgotarem, estaremos em apuros.

Soddy apontava para a diferença fundamental entre os recursos biofísicos e os consumíveis – o que ele chama de “riqueza real” – que estão sujeitos às leis da termodinâmica. Essa riqueza apodrecerá, enferrujará, se desgastará ou será consumida. 

Dinheiro e dívida – que ele chamava de “riqueza virtual” – estão sujeitos apenas às leis da matemática. O dinheiro pode crescer sem limites, enquanto a economia real não pode. Nesse descompasso – o descasamento entre a economia real e a monetária – estariam as raízes da maioria dos nossos problemas econômicos.

Se o dinheiro já era “virtual”, imaginem agora com as criptomoedas!

Na Mesopotâmia, Hamurabi (1810-1760 a.C.), aconselhado por seus matemáticos, resolvia o problema cancelando dívidas com intervalos imprevisíveis, prática que na Bíblia era chamada de ‘Anos de Jubileu’. Era o Refis da época.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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