O que nos limita

Steven Pressfield — How to Overcome Self-Sabotage and Resistance, Routines  for Little Successes, and The Hero's Journey vs. The Artist's Journey  (#501) – The Blog of Author Tim Ferriss
(Steven Pressfield, 78 anos)

Já havia lido dois livros de Steven Pressfield, os “Portões de Fogo”, sobre a batalha de Termópilas e, “Tempos de Guerra”, que conta a Guerra do Peloponeso.

Imaginava-o, então, como historiador. Mas, o sujeito também é roteirista e, antes de se ver como escritor, foi redator publicitário, professor, motorista de trator, barman, trabalhador braçal em campos de petróleo e, atendente em um hospital psiquiátrico.

Experiência variada. Sua teimosia em se tornar escritor exigiu dezessete anos de insistência.

Surpreso, descobri seu livro autobiográfico, que é quase um manual de sobrevivência.

Não me refiro à sobrevivência física, mas à do seu ideal: superar as resistências que a vida nos apresenta, muitas delas criadas por nós.

“Não se prepare. Comece. Nosso inimigo não é falta de preparação. O inimigo é a Resistência; nosso cérebro tagarela produzindo desculpas. Comece antes de estar pronto.”

Esta frase não quer dizer que estar despreparado é bom; só não podemos imaginar que nunca estamos preparados, porque nunca estamos completamente preparados. É o dilema do bom e do excelente.

Por sua história de vida, considera que a vida de qualquer um é um épico, travado todos os dias. Um grande problema é que muitos vão à luta de olhos vendados e, depois, queixam-se permanentemente de seus reveses, como se esses se devessem a algum fator externo.

Todos somos artistas, temos uma obra de arte para deixarmos para a humanidade: a tarefa de nos criarmos como seres humanos realizados e plenos. Temos uma nota para tocarmos na sinfonia da vida. E esta nota só pode ser tocada por nós. Viver em vão não parece um propósito da vida.

Mas, a maioria fica no caminho, desiste, capitula, se deixa vencer – e começa a praguejar sua “infeliz sina”.

“Eu me rendo”, gritam alguns, para si mesmos. Entregam-se a uma insignificância resignada; são aquelas flores que caem sem ainda desabrocharem.

Já escrevi que “tua limitação pode não ser o teu limite”. Estou consciente de que há dificuldades, embaraços, até impossibilidades. Não estou dizendo que tudo depende de nossa vontade, exclusivamente. Mas, sem ela, esqueça. Nem também quero uniformizar tudo como uma questão de mérito; não, o “sucesso” é algo muito diferente para cada um de nós, pois somos diferentes. O que não vale é desistir de si.

Segundo ele, nosso maior inimigo nessa batalha é interno e, esse inimigo é um profundo conhecedor de psicologia, um mestre em máscaras e em recrutar aliados: é a “Resistência“.

A resistência, que nos puxa para baixo, é uma espécie de Tânatos, a pulsão em direção à morte e à autodestruição, falada por Freud. Ela se oporia a Eros, a tendência à sobrevivência, propagação, sexo e outras pulsões criativas e produtoras de vida. 

A resistência é nossa criatura mimada, que a todo tempo nos oferece justificativas para a nossa inércia, procrastinação e abandono do campo de guerra.

O que a alimenta é principalmente o “medo de crescer”, tal como, nos anos 1980, foi apontado como a Síndrome de Peter Pan (“homem que nunca cresce”). Crescer dói: temos que mudar nossas carapaças existenciais, atualizando-as ou as substituindo continuamente, numa metamorfose diária.

Nessa batalha pelo nosso crescimento o importante não é a vitória, mas a determinação em continuar na luta.

Como sabemos que a resistência nos domina? Simples, sentimo-nos vazios, insatisfeitos, ou, como se diz, infelizes. Não nos sentimos bem, ou muito comumente, péssimos. O mundo parece-nos intratável, cruel, “um vale de lágrimas”.

O chato é que achamos que estamos nos esforçando. E até pode ser verdade. Mas, possivelmente na coisa errada. Peter Drucker alertava: “Não há nada tão inútil quanto fazer com grande eficiência algo que não deveria ser feito.”

Pois é: quanto do que fazemos é o que nos interessa, de fato? E, pior, quando fazemos algo de que não gostamos mais desgastante ele fica.

Já ouviu sobre casos em que uma pessoa é diagnosticada com uma doença terminal e resolve largar tudo o que faz e dedicar o resto da vida ao que realmente sonhava fazer? E, que muitas vezes a doença entra em remissão ou a morte é amplamente adiada?

Pode ser o longamente adiado encontro consigo mesmo.

“A maioria de nós tem duas vidas. A que vivemos e a que permanece dentro de nós, não vivida. Entre as duas, interpõe-se a Resistência.” (Pressfield)

Muitos procuram os médicos sem necessariamente terem problemas de saúde; elas não estão doentes, estão autodramatizando, procuram uma condição que dê significado às suas existências.

Talvez por isso, um estudo recente revelou que quase 60% dos pacientes tratados com um placebo apresentaram mais melhorias que a média dos pacientes do controle.

As pessoas querem ter alguma relevância, aceitação e reconhecimento. Algumas procuram atalhos, como a vitimização, a inserção em grupos homogêneos ou agridem como defesa.

A resposta não está no outro; mas enfrentar-se é mais difícil.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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