O tempo

Jean-Marie Guyau
(Jean-Marie Guyau)

Jean-Marie Guyau era poeta e filósofo. Alguns o consideram o Nietzsche francês. Nietzsche e Bergson o tinham em alta conta. Ficou conhecido como “filósofo da vida”, pois nutria uma paixão profunda pela existência. Refletia sobre o “tempo”, mas esse lhe foi ingrato: morreu em 1888, aos 33 anos, da doença dos poetas. Abraçou o estoicismo para esperar a morte, sem perder o ânimo pela vida.

O TEMPO (Jean-Marie Guyau)

I. O passado

Não podemos pensar o tempo sem sofrer com isso.

Sentindo-se durar, o homem sente-se morrer:

Esse mal é ignorado por toda a natureza.

Com os olhos fixos no chão, em uma onda de poeira,

Vejo passar lá adiante, em rebanho, grandes bois;

Sem jamais voltarem suas cabeças para trás,

Eles se vão com passos pesados, dolentes mas não infelizes;

Eles não percebem a longa linha branca

Da estrada fugindo diante deles, atrás deles,

Sem fim, e em sua fronte, que se inclina sob a chibata

Nenhum reflexo do passado ilumina o futuro. Tudo se mistura para eles. Às vezes eu os invejo:

Eles não conhecem a ansiosa lembrança,

E vivem surdamente, ignorando a vida.

Noutro dia sonhei com a casinha

Onde outrora eu morava, no alto da colina,

Tendo, ao longe, o imenso mar como horizonte.

Para lá subi alegremente: sempre se imagina

Que se terá prazer em perturbar o passado,

Em fazê-lo sair, espantado, da bruma.

Depois pensei: meu coração, aqui, nada deixou;

Eu vivi – eis tudo – eu sofri, eu pensei,

Enquanto, diante de mim, a eterna amargura

Do mar fremente ondeava sob os céus.

Eu não trazia, oculto no meu ser, outro drama

Que o da vida: saudando esses lugares;

Por que, então, se desfez subitamente toda a minha alma?..

Era eu mesmo, infelizmente, que estava perdido.

Oh, como eu estava longe! E que sombra ascendente

Já me envolvia no meio da descida

Sob o pesado horizonte da vida opressiva?

Profundidades em mim abriam-se ao meu olhar,

Viver! Haverá, no fundo, algo de mais implacável?

Esvair-se sem saber para que fim, ao acaso,

Sentir-se dominado pelo momento inapreensível!

Seguimos em frente, como exilados,

Não podendo pisar duas vezes no mesmo lugar,

Ou sentir a mesma alegria – e, sem descanso, somos chamados

Para o novo horizonte que nos abre o espaço.

Oh, quando descemos ao fundo do nosso coração,

Quantos doces caminhos através dos nossos pensamentos,

Recantos perfumados, onde gorjeiam em coro

As vivas lembranças, as vozes das coisas passadas!

Como desejaríamos, mesmo que por um momento,

Voltar para trás e, trêmulos de embriaguez,

Percorrer novamente o encantador meandro

Que escava, escoando-se em nossos corações, a juventude!

Mas não, nosso passado fechou-se para sempre,

Sinto que me torno um estranho à minha própria vida,

Quando ainda digo: – Meus prazeres, meus amores,

Minhas dores, – posso assim falar sem ironia?

Quanta impotência manifesta-se nessa palavra bem humana!

Lembrar-se! – Ver-se lentamente desaparecer,

Sentir vibrar sempre como que o eco longínquo

De uma vida na qual não se pode mais renascer!

Todo esse mundo já perdido que eu povoei

Com minha própria alma ao acaso dispersa,

Com a esperança alegre de meu coração em voo,

Em vão, quero ainda fixar nele meu pensamento:

Tudo se altera, por graus, nesse quadro movediço,

Escapo de mim mesmo! Com esforço, tento

Reatar os fios dessa doce meada

Que foi a minha vida. Ai de mim! Sinto minha mão trêmula

Perder-se nesse passado que eu queria rebuscar.

Quando, após um longo tempo, revejo os rostos

Dos amigos que vinham sentar-se junto à lareira,

Eu me espanto: minha alma hesita e se divide

Entre suas lembranças e a realidade.

Eu bem os reconheço, mas no entanto me sinto

Inquieto junto a eles, quase desencantado;

Talvez, eles também sintam o que eu sinto:

Todos, nos reencontrando, ainda nos procuramos.

Entre nós veio colocar-se todo um mundo;

Chamamos em vão esse caro passado que dorme,

Esperamos, ingênuos, que ele desperte e responda;

Mas ele, para sempre submerso sob o tempo que se eleva,

Permanece pálido e morto; tudo é ainda o mesmo,

Creio, ao nosso redor; em nós, tudo está mudado:

Nossa reunião se parece com um supremo adeus.

II. O futuro

Numa manhã, parti sozinho para escalar um monte,

A noite ainda velava a montanha serena,

Mas sentia-se chegar o dia; para tomar fôlego,

Voltei a cabeça; um abismo tão profundo

Abriu-se diante dos meus pés, na sombra mais límpida,

Que uma angústia me tomou e, dominado pelo terror,

Sentindo meu coração bater na vertigem do vazio,

Fiquei a sondar o abismo aberto diante de mim.

Enfim, com esforço, levantei a cabeça.

Por toda parte, o rochedo íngreme estendia-se como uma parede negra;

Mas lá no alto, bem no alto, longínquo como a esperança,

Vi, no céu puro, erguer-se o livre cume.

Ele parecia vibrar ao sol matutino;

Trazendo a seu lado sua geleira de cristal,

Ele erguia-se enrubescido por uma aurora sublime.

Então, esqueci de tudo, do áspero rochedo a escalar,

Da fadiga, da noite, da vertigem e do abismo

No fundo do qual, dormindo como a lembrança,

Um lago verde estendia-se, rodeado de gelo:

Num impulso, sem tirar os olhos da montanha,

Sentindo reviver em mim a vontade tenaz,

Escalei o rochedo e acreditei, feliz,

Ver minha força aumentar aproximando-me dos céus.

Vazio surdo e profundo que em nossos corações o tempo deixa,

Abismo do passado, tu, cuja visão oprime

E dá vertigens a quem te ousa sondar,

Eu quero, para reencontrar minha força e minha juventude,

Longe de ti, com a cabeça erguida, caminhar e observar!

Dias sombrios ou alegres, jovens horas fanadas,

Desvanecei-vos na sombra dos anos;

Não mais chorarei vos vendo murchar,

E, deixando o passado fugir sob mim como um sonho,

Irei para o desconhecido sedutor que se levanta,

Para esse vago ideal que no futuro desponta,

Cume virgem e que nada de humano pôde ofuscar.

Seguirei meu caminho, indo para onde me convidar

Minha visão longínqua, errada ou verdadeira:

Tudo aquilo que a alvorada ainda ilumina, tem beleza;

O futuro significa para mim todo o valor da vida.

Será que ele me parece tão doce porque está muito longe?

E quando eu acreditar, luminosa esperança,

Tocar-te com a mão, não te verei Cair e subitamente te transformar em sofrimento?

Não sei… É ainda de alguma lembrança

Que me vem esse temor em meu coração renascente;

Alguma decepção de outrora me assombra,

E, de acordo com meu passado, eu julgo o futuro.

Esqueçamos e sigamos em frente. O homem, nesta terra,

Se nunca se esquecesse, poderia esperar?

Gosto de sentir sobre mim este eterno mistério,

O futuro – e, sem medo, nele penetrar:

A felicidade mais doce é aquela que se espera.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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