Homeschooling: esse debate interessa a todos

Homeschooling - Wikipedia

Nada é mais presente do que a ausência sentida. Algo, também, pode estar ausente mesmo presente. Da mesma forma, ter não significa usufruir e, não ter não significa necessariamente falta.

Esse devaneio é para chegar no tema Educação Domiciliar, ou homeschooling, conforme o referencial americano.

Sempre defendi aqui o direito de pais poderem optar pela educação de seus filhos em escolas tradicionais ou em suas casas.

A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) destaca em seu artigo 26, 3,
que os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de educação a ser ministrada aos filhos. O STF já declarou que a prática de ensino domiciliar é constitucional.

Falta a aprovação da lei – o Executivo torce por isso; é uma promessa de campanha.

Aí é que está o problema: a desvirtuação do direito.

A preocupação é agradar bancadas evangélicas e ideólogos. Há comunidades religiosas e negacionistas que lutam para impedir que suas filhas e filhos aprendam sobre ciência e descubram que a Terra não é plana ou lhes ensinem sobre essa ‘invenção’ da evolução, por exemplo.

“No Brasil, este movimento ganhou força nos setores mais conservadores da sociedade que protestam contra atividades que buscam falar sobre a questão de gênero e assuntos como sexualidade nas escolas.

O discurso seria o de que a escola estaria ensinando perversões para as crianças dentre elas a ‘ideologia de gênero’.

A aprovação deste projeto irá privar milhares de crianças do acesso aos bens culturais, que têm direito de acessar, e impedir que elas escolham no que acreditar, de maneira crítica. Além de enfraquecer o próprio direito à educação, pois tira da responsabilidade do Estado prover o ensino” (Luiz Araújo)

Os que se apoiam na DUDH citam o tópico 3 do artigo 26 e ignoram os tópicos 1 e 2:

  1. Todos os seres humanos têm direito à educação. A educação será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A educação elementar será obrigatória. A educação técnico‑profissional será acessível a todos, bem como a educação superior, esta baseada no mérito.
  2. A educação será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A educação promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos (…)

A ideia por trás do PL, que tramita com prioridade no Congresso, é só dar passos atrás na educação, assim como outras ações coerentes com a aparente desorientação do governo:

  • a liberação da venda de armas visa “desobrigar” o Estado da segurança pública, deixando essa responsabilidade nas mãos da população – além de interesses outros;
  • deixar a proteção dos povos originais por sua conta e risco;
  • deixar a floresta se defender como possível;
  • deixar os desempregados virarem empreendedores;
  • permitir que a população adquira “imunidade de rebanho” sem os inconvenientes da vacinação;
  • permitir que os negros possam optar entre Zumbi, Ganga Zumba e Henrique Dias; etc.

“Se a transmissão geracional se deteriorar ainda mais, seremos sucedidos por uma geração para quem racismo, misoginia e outras formas de opressão serão naturalizadas de forma programática e não haverá contraponto ao discurso hegemônico.

Isso equivale a dizer que as crianças criadas no Estado fundamentalista não encontrarão nem nos livros de história —devidamente censurados — a versão do Estado laico e democrático que o precedeu.

Encampado pela ministra Damares Alves — que tem se mantido fora dos holofotes para melhor passar sua boiada—, o ensino domiciliar aponta para um caminho natural e inequívoco na direção do uso de recursos da educação (Fundeb) para financiar grupos religiosos e filantrópicos que assumam a tutoria pedagógica de um grupo considerável de crianças que se verão afastadas da escola presencial.

Lembrando que o “bispo” Edir Macedo declarou publicamente que desaconselha sua filha a estudar, pois o estudo da mulher atrapalha o casamento — fica claro o rumo dessa conversa.” (Vera Iaconelli)

Minha argumentação contra o ensino tradicional diz respeito ao padrão curricular, que prepara seguidores e mão de obra técnica.

O problema da escola tradicional é que ela, propositadamente, confunde processo com substância. As pessoas acreditam que quanto mais longa a escolaridade melhores serão os resultados – a graduação, agora a pós-graduação, levaria ao sucesso.

“O aluno é ‘escolarizado’ a confundir ensino com aprendizagem, obtenção de graus com educação, diploma com competência, fluência no falar com capacidade de dizer algo novo.

O aluno aprende a aceitar serviço em vez de valor, identifica erroneamente cuidar da saúde com tratamento médico, melhoria de vida comunitária com assistência social, segurança com proteção policial, segurança nacional com aparato militar, trabalho produtivo com concorrência desleal.” (Ivan Illich)

Os ideólogos da educação da muralha, ao invés de olhar o horizonte, fecham-se em suas crenças. Eles nunca leram o maldito Paulo Freire e suas pedagogias (da Pergunta, da Liberdade, do Oprimido, da Indignação, da Esperança ou da Autonomia).

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: