Só se desilude quem se ilude¹, revisitada (por Ivan Marinho de Barros Filho)

(Ivan Marinho de Barros Filho)

DESMUNDE*

Como é tolo acreditar nas palavras!
Como é tolo acreditar!
A vida é jogo, é esquiva.
Depois do almoço, o jantar.

Quem reza o terço da vida
Não conta à mesma conta
E, se o faz é cativa,
Do mundo, sequência pronta.

Trinca de ás, sonho besta
Quando o garçom traz a nota
Da conta.

O poema diz do meu espírito melhor do que poderia dizer uma crônica, mas o espaço é de crônica e o estado parece ser crônico. É duro transitar bambo sobre o paradoxo de duvidar da palavra e, ao mesmo tempo, fazer uso dela.


Há algumas décadas ouvíamos o Ivan Lins cantar “desesperar jamais, cutucou por baixo, o de cima cai … cutucou com jeito, não levanta mais…” e agora, depois de cutucar, o que vemos é a nossa cultura, a dos prazeres imediatos e não compartilhados, afirmar-se mais forte que todos os desejos revolucionários contraculturais.

Depois de toda constatação histórica de que o homem ontológico, espiritual, sem a humanidade material, econômica, não passa de uma abstração pequeno-burguesa e que a humanidade material, econômica, sem a espiritualidade, sua perspectiva ontológica, não passa de uma realidade animal consumista, ainda nos polarizamos sob os mesmos pressupostos.

É preciso ter coragem para confrontar a aparente ingenuidade da Utopia de Thomas Morus à aparente cientificidade do Príncipe de Nicolau Maquiavel, como o fez no Elogio à Loucura outro contemporâneo dos dois primeiros escritores aqui citados, Erasmo de Roterdã.

A Rita Lee diria que “quanto mais tem, mais quer” e Zé Geraldo, “tudo isto acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos”.

É preciso aliar o acesso à escola à boa qualidade do ensino, o acesso a espetáculos a boa qualidade artística, o acesso à saúde ao bom serviço médico-hospitalar, o acesso ao voto à responsabilidade com as organizações de base, o acesso à justiça com a publicidade das leis e uma procuradoria pública ao alcance de todos, o acesso ao alimento com a qualidade do que se produz, enfim, o direito à vida no sentido amplo, onde caiba, principalmente, o direito de sonhar para além das mesquinharias individuais, com o bem comum.

Quem sabe assim, todos com possibilidade de acesso à trinca de ás e sem sequências forjadamente prontas, a conta possa ser dividida dignamente, com direito à gorjeta para o garçom.

¹Esta parte do título é do poeta Ericson Luna, amigo-irmão elevado à eternidade em 2007.

*Poema de minha autoria presente no livro Anti-horário, edição independente, 2000.

(Ivan Marinho de Barros Filho é professor, especialista em Economia da Cultura)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

Um comentário em “Só se desilude quem se ilude¹, revisitada (por Ivan Marinho de Barros Filho)

  1. Veja que prisão miserável estamos vivendo…sem saber-se entendendo;compartilhando?…
    Mas…isso não me compele para esquerda e jamais para a direita; na esquerda a gente aprende;na direita a gente é preso!

    Curtir

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