Colocar-se no lugar do outro?

Gabeira: “Lava Jato é transformadora e talvez não acabe tão cedo” – Os  Guedes
(Fernando Gabeira, 80 anos)

Num de seus livros, Gabeira fala de um fato ocorrido quando estava exilado na Suécia, nos anos 1970.

Diante de seu quarto, morava uma assistente social, Ana Marie.

Voltava todos os dias desolada do trabalho. Seu trabalho consistia em assistência a alcoólatras e famílias em crise. Não é tarefa para qualquer um.

Esses problemas só faziam aumentar a depressão de Ana Marie. Esse não é um tratamento homeopático. A dor de um não cura outro doente.

É como – vemos tantos – psicólogos que entram na profissão pensando em curar seus problemas, psicológicos. Pode não dar certo: há o risco de serem engolidos pelos problemas alheios.

Foi o que aconteceu com Ana Marie: suicidou-se.

Ela dizia: “O mundo é dos fortes. O problema não é o fato das pessoas caírem. Elas acham que a culpa é delas. Nossa sociedade é tão bonitinha, tão bem acabada, tão cheia de si, que o indivíduo se acha culpado, quando não dá certo.”

Ela estava, certamente, falando dela.

Pergunta-se Gabeira: a razão seria social, não pessoal?

“Como explicar o fato de que uns se deixam baquear, outros não?”

“E quem garante que os que se deixam baquear são mais fracos?”

O combate não é questão de força pessoal, afirma. “O combate é coisa de muita gente junta. Os fracos são mais sensíveis, logo são mais fortes: é tudo questão de se juntarem.”

“Ana Marie morrera há bastante tempo, em algum momento de sua infância, como tantas pessoas que conhecemos depois.

Não sei precisar quando morreu, de que morreu.

Talvez sua morte tenha sido construída de pequenas concessões que nem aparecem isoladamente mas, ao longo de alguns anos, acabam pesando sobre nossos ombros, esvaziando nosso olhar.”

É uma possibilidade. Há quem se esvazie para dar lugar a problemas, aspirações, desejos – dos outros. O outro nos aniquila, de forma consentida.

O “não”, é defensivo; às vezes, construtivo – mas, essencial.

A empatia não deve implicar na nossa transposição para os dilemas existenciais de outros. É só o compartilhamento e compreensão emotiva desses problemas. Só ajudamos quando nos mantemos ilesos, embora atentos.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

Um comentário em “Colocar-se no lugar do outro?

  1. Muito boa reflexão, creio eu na minha fragilidade de interpretação tão bem descrita por Gabeira que admiro tanto que.:
    Ane Marie não teria extrutura para não absorver os problemas alheios. Certas profissoes nos sugam o corpo a alma e a mente. Determinados fardos são por demais pesados para pessoas frágeis e não as depreciando as “chamadas esponjas”. É de bom alvitre que encerrado o trabalho fecha-se a pasta ou notebook, retorme a incorporar apenas a Ane Marie, deixando para o proximo episódio a Ane Marie assistente social.. Somos aconselhadis desde o mais simples empregado ao mais alto executivo não levar serviços para casa. Quer na pasta ou notebook , nem mesmo na mente. Infelizmente certas profissões com o advento dos celulares e home officer somos compelidos a essa péssima prática. Ou Ane Marie escolheu mal a profissão ou como , ja disse sofreu do efeito “esponja”.
    Vamos a prática. Quantos de nós não somos esponjas todo dia absorvendo sem perceber os problemas alheios.
    Pobre Ane Marie todo dia em nós.

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