A cor da palavra

Urian Agria de Souza nasceu em Belém do Pará, em 1939. Foi professor do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio. Mora em Recife há 24 anos. Ébano Ébano porque é a cor dos que resistem aos cortes incisivos da história na carne e nos espíritos humanos. Ébano porque é o som das canções queContinuar lendo “A cor da palavra”

A Solidão e Sua Porta

(Carlos Pena Filho – dedicado a Francisco Brennand) “Quando mais nada resistir que valhaa pena de viver e a dor de amarE quando nada mais interessar(nem o torpor do sono que se espalha)Quando pelo desuso da navalhaA barba livremente caminhare até Deus em silêncio se afastardeixando-te sozinho na batalha Arquitetar na sombra a despedidaDeste mundoContinuar lendo “A Solidão e Sua Porta”

VISLUMBRES DA IMORTALIDADE VINDOS DE RECORDAÇÕES DA PRIMEIRA INFÂNCIA (William Wordsworth, 1807)

Houve um tempo em que prado, bosque, e córrego,A terra, e cada visão corriqueira,Para mim pareciamRevestidas de luz celestial,Como a glória e o frescor de um sonho.Nada agora é o que foi outrora; –Onde quer que eu vá,De noite ou de dia,As coisas que eu vi eu agora não posso mais ver. O arco-íris vemContinuar lendo “VISLUMBRES DA IMORTALIDADE VINDOS DE RECORDAÇÕES DA PRIMEIRA INFÂNCIA (William Wordsworth, 1807)”

Não há razão para ter razão em nada

(Paulo Henriques Britto) Não há razão pra ter razão em nada. Que precisão tem o amor de linhas retas se paralelas afinal são nada mais que a garantia do infinito desencontro? Olhai à vossa volta, ó assinantes de jornais, Ó vós que devorais com bom proveito as bulas abissais dos antiácidos, quantas volutas de paixãoContinuar lendo “Não há razão para ter razão em nada”

JANDIRA (Murilo Mendes)

O mundo começava nos seios de Jandira. Depois surgiram outras peças da criação:Surgiram os cabelos para cobrir o corpo,(Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos).E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.E surgiram sereias da garganta de Jandira:O ar inteirinho ficou rodeado de sonsMais palpáveis do que pássaros.E as antenas das mãosContinuar lendo “JANDIRA (Murilo Mendes)”

Guardar

(Antonio Cícero) Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.Em cofre não se guarda coisa alguma.Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la poradmirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília porela, isto é, velar por ela, isto é, estarContinuar lendo “Guardar”

De vulgari eloquentia

A realidade é coisa delicada, de se pegar com as pontas dos dedos. Um gesto mais brutal, e pronto: o nada. A qualquer hora pode advir o fim. O mais terrível de todos os medos. Mas, felizmente, não é bem assim. Há uma saída – falar, falar muito. São as palavras que suportam o mundo,Continuar lendo “De vulgari eloquentia”