“O poema tem que resistir à inteligência, até quase conseguir”

“Não há mudança de morte no paraíso?A fruta madura nunca cai? Ou faça os ramosPendure sempre pesado naquele céu perfeito,Imutável, mas tão parecido com nossa terra perecendo,Com rios como o nosso que procuram maresEles nunca encontram, as mesmas margens recuandoQue nunca toque com angústia inarticulada?Por que colocar a pera nas margens do rioOu temperar asContinuar lendo ““O poema tem que resistir à inteligência, até quase conseguir””

“Haverá canto” (poesia de Juliana Spahr)

Durante esses dias,Eu acordava e minha cabeça doíae então eu percebia que no meu sonhoEu dizia a mim mesma que deveria escrever um pouco de poesia.Mas meus sonhos nunca me explicavam por quê.Ou como.Como cantar nestes tempos sombrios?É verdade que estou há muito tempo com a poesia.Desde adolescente.Esses amores de muitos anos e nossos corposContinuar lendo ““Haverá canto” (poesia de Juliana Spahr)”

“Certa vez olhamos para o mundo, na infância. O resto é memória.”

Louise Glück foi a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura deste ano. Não conhecia. “… ela se inspira em mitos e motifs clássicos, presentes na maior parte do seu trabalho. As vozes de Dido, Perséfone e Eurídice — a abandonada, a punida, a traída — são máscaras para um eu lírico em transformação, tão pessoalContinuar lendo ““Certa vez olhamos para o mundo, na infância. O resto é memória.””

Isso posto (Luci Collin)

impecável como uma aurora instala um dia como o botão abriga a rosa aberta implícito como a lua define a decisão da vazante e como o sol define a indulgência da lua infinito como o entusiasmo dessa tempestade e como o pardal abrange o telheiro algo como o primeiro olhar da mãe pro filho eContinuar lendo “Isso posto (Luci Collin)”

Levaram os caminhos

“Há muitos anos que os caminhos se arrastavamSubindo para as montanhas.Percorriam as florestas perseguindo a distância,Lentos e longos deslizavam nas planícies. Passaram chuvas, passaram ventos,Passaram sombras aladas… Um dia os aviões surgiram e libertaram a distância,Os aviões desceram e levaram os caminhos”. “No tempo dos profetasEram eles que prediziamo que hoje predizem os poetas.” JoaquimContinuar lendo “Levaram os caminhos”

IMPROVISO (Castro Alves)

À MOCIDADE ACADÊMICA “Moços! A inépcia nos chamou de estúpidos!Moços! O crime nos cobriu de sangue!Vós os luzeiros do país, erguei-vos!Perante a infâmia ninguém fica exangue Protesto santo se levanta agora,De mim, de vós, da multidão, do povo;Somos da classe da justiça e brio,Não há mais classe ante esse crime novo! Sim! mesmo em face,Continuar lendo “IMPROVISO (Castro Alves)”

Autorretrato (Nicanor Parra)

“Considerem, rapazes, Esta língua roída pelo câncer; Sou professor de um colégio obscuro E perdi a voz de tanto dar aulas. (Depois de tudo ou nada Faço quarenta horas semanais.) Que tal minha cara esbofeteada? Verdade que dá pena só de olhar! O que acham deste nariz apodrecido Pela cal de um giz tão degradante?Continuar lendo “Autorretrato (Nicanor Parra)”

Nas montanhas de Jerusalém (poesia de Yehuda Amichai)

“Aqui, no lugar onde a ruína quer ser outra vez uma nova casa, sua vontade junta-se à nossa. Até os espinhos se cansaram de ferir e querem confortar, uma lápide, arrancada de um túmulo violado, colocado numa nova parede com o seu nome, suas datas. Ela está contente porque não a esquecerão. Os meninos, queContinuar lendo “Nas montanhas de Jerusalém (poesia de Yehuda Amichai)”

A voz da Rússia

Anna Akhmátova (1889-1966): sua obra é a mais importante manifestação literária de uma mulher russa no século XX, sobrevivente do stalinismo. Nasceu Anna Goriênko, mas adotou o nome da bisavó materna, de origem tártara, Akhmátova. Busco no livro maravilhoso do fantástico Lauro Machado Coelho – ainda o reconhecerão! – alguns poemas de Anna. “De manhã,Continuar lendo “A voz da Rússia”

Numa estação de Metro (poesia de Manuel António Pina)

A minha juventude passou e eu não estava lá. Pensava em outra coisa, olhava noutra direção. Os melhores anos da minha vida perdidos por distração! Rosalinda, a das róseas coxas, onde está? Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão? Provavelmente professoras de Alemão em colégios fora do tempo e do espa- ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-ia amadoContinuar lendo “Numa estação de Metro (poesia de Manuel António Pina)”