
“O que eu quero é proteger-me, a mim, aos meus e à minha família. E os outros que se tramem (se lixem). (…) É preciso suplantar uma biologia muito forte”, diz António Damásio. A solução é educar maciçamente as pessoas para que aceitem os outros, complementa.
O cardápio do mal é servido a partir dos preconceitos habituais, como fanatismo, xenofobia, machismo e racismo, acrescido de novidades que a modernidade nos apresenta, principalmente aquelas preparadas por sentimentos antidemocráticos.
Mesmo os santos carregam uma porção necessária de ódio, para sua sobrevivência. Freud apontava (em “Totem e tabu”) para a coexistência do amor e do ódio na relação com o mesmo objeto de afeto.
Observou, também (em “O mal-estar na cultura”), que existem pessoas para as quais “a realidade é demasiado forte” e que, então, recriam uma nova realidade pela via do delírio.
“(…) cada um de nós se comporta em algum ponto como o paranoico, corrige algum aspecto insuportável do mundo por uma formação de desejo e introduz este delírio no objetivo (a realidade)”. (Freud)
Há casos recentes de violência, estupidez e ódio, no noticiário. Mas, olhemos pro passado: Caim mata Abel, Rômulo mata Remo, Sócrates é morto pelos democratas, Jesus é morto pelos teocratas, Cícero tem as mãos e a cabeça decepadas por ordem de Antônio …
Depois, os cristãos matam os que deles discordam ou diferem.
Há os que defendem, como Vito Mancuso, que o ódio não é “congênito”, natural; seria uma patologia, aliás, estúpida.
Para Empédocles (século V a.C.), o mundo físico e humano é regido por duas forças contrastantes: concórdia e discórdia, entendimento e desentendimento, amizade e rancor.
Heráclito resumia: “o conflito é o pai de todas as coisas e de todos é rei”. O sujeito foi o pai da dialética.
O que move o ódio é a certeza. Não se pode odiar quando se está em dúvida. Da mesma forma, “o odiado torna-se impreciso; o que é bem definido não pode ser bem odiado”, diz Carolin Emcke.
Por trás do ódio está a questão da alteridade. É sempre a categoria do “outro” que oprime ou ameaça o “próprio”. Este “outro” é imaginado como perigoso ou inferior. Os maus-tratos que lhe são infligidos seriam não apenas “desculpáveis”, mas “necessários”.
Essa é a ideia do “homo sacer” (homem sagrado), a sacralização excludente da vida humana, vigente desde o nascimento da política (poder), tal como do direito – segundo Giorgio Agamben.
A angústia é o sentimento total do mal. A esperança estaria na criação de um itinerário em direção a Deus. Não esse Deus personificado que mais exclui que agrega. Na dança entre otimismo e pessimismo deve surgir a aceitação do nosso destino como uma experiência humana integral.
O impulso vital, diria Henri Bergson, é a necessidade dinâmica através da qual o mundo se totaliza.
Para ele, uma das formas mais agudas do mal seria a que faz do bem um valor com falhas. Isso torna o pessimismo a verdade do otimismo e introduz uma crise na certeza do absoluto e do sentido.