Natureza e desenvolvimento sem antagonismo

A concentração de CO2 na atmosfera superou 420 ppm (partes por milhão) em maio do ano passado, segundo a NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica dos EUA, em inglês).

Este é o maior índice desde o começo das mensurações. Ao longo da história pré-industrial as concentrações se mantiveram consistentemente em torno das 280 ppm, por quase seis mil anos.

A concentração atual de CO2 é comparável à estimada durante o Plioceno, entre 5 e 2 milhões de anos, quando estava próxima ou acima de 400 ppm. Naquela época, o nível do mar era entre 5 e 25 metros mais alto do que hoje.

A mudança climática já se faz sentir, com a maior incidência de eventos extremos (desastres naturais), tais como inundações, deslizamentos, processos erosivos, raios, ciclones tropicais e extratropicais, tornados, vendavais, estiagem, seca, queimadas, incêndios florestais, chuvas de granizo, geadas, ondas de frio e de calor etc.

A biodiversidade também é afetada – não só pela ação climática, mas pela do homem: um estudo alemão de 2017 constatou que a biomassa de insetos voadores foi reduzida em 76% em 27 anos, apesar das medidas de proteção e da criação de áreas naturais.

Temos, então, degradação dos solos, da água, das funções de polinização e de manutenção dos ecossistemas, entre outros “benefícios” que deixaremos para as gerações que nos sucederão.

Mas, o entendimento de que esse contexto é prenúncio de algo cataclísmico não é pacífico; há muitos interesses econômicos em jogo e a desinformação não cessa. E, os riscos não são igualmente distribuídos, os mais pobres sempre são mais afetados.

Se tivermos vontade política (e planejamento estratégico) poderemos transformar o Brasil no principal protagonista na reversão desse processo.

No mapa que ilustra este texto, temos um Brasil gigante (por sua própria natureza) que evidencia nossa riqueza na forma de luz, água e biodiversidade.

O nosso país é imenso por ser o território no qual mais se produz vida em todo o planeta.

A natureza – sua conservação – não pode mais ser vista como diletantismo, ingenuidade ou entrave ao desenvolvimento; ao contrário, é um potencial econômico.

O Brasil pode liderar na produção de energia e alimentos.

A área ocupada por florestas é de 498 milhões de hectares, 58% do nosso território. Temos áreas degradadas estimadas entre 69 e 140 milhões de hectares.

Essas florestas podem ter exploração econômica, sem destruição, aproveitando-se todo o potencial genético existente.

Projetos como o “Amazônia 4.0“, liderado por cientistas como Carlos Nobre, com a criação da Rainforest Business School e outras propostas, poderão promover “novas oportunidades de pesquisa, tecnologia e aprendizado para valorizar e proteger os ecossistemas amazônicos e para servir igualmente aos interesses das populações locais, povos indígenas e tradicionais, que são seus mantenedores”. A ideia é aproveitar-se do valor da natureza por meio das oportunidades de mercado para produtos e serviços sustentáveis.

A recuperação das áreas degradadas poderá gerar milhares de empregos e, até, oportunidades de divisão fundiária.

Sobre energia, temos um potencial de geração eólica estimado superior a 300 gigawatts (GW), o “equivalente” a 20 usinas Itaipu; quanto ao parque gerador de fonte solar fotovoltaica, neste ano, atingirá 34 GW (fonte Absolar).

Com relação a biocombustíveis, com cana e agave, temos o trabalho destacado de Gonçalo Pereira, engenheiro agrônomo, referência internacional em bioquímica, genética e melhoramento de plantas, com seus brilhantes colegas da Unicamp.

Com relação a mobilidade, tem convencido as montadoras a se utilizarem de células combustíveis a etanol.

O hidrogênio, uma aposta crescente na transição energética para uma economia de baixo carbono, que pode ser utilizado diretamente como fonte de energia de baixo ou nulo carbono (a depender de seu processo de produção, com captura ou oriundo de fontes renováveis), é outra gigantesca oportunidade para o Brasil.

Nosso hidrogênio seria o Verde, a partir de fontes renováveis, ao invés do Cinza (a partir de combustíveis fósseis) ou do Azul (a partir de gás natural, com captura e armazenamento de carbono).

Muitas oportunidades! Saberemos ser gratos à natureza?

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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