Escolhas que nos definem

Paul Cézanne, nascido num 19 de janeiro, há 184 anos, tinha uma obsessão pela Montanha de Santa Vitória, na sua cidade, Aix-en-Provence. Pintou-a mais de sessenta vezes, com crescente liberdade.

A tela que ilustra o texto, foi a derradeira da série e de sua vida (morreu em 1906)

Nela, “a sucessão de camadas de tinta fluída utilizadas para sugerir as figuras da paisagem torna-se um quase abstrato mosaico de cores. Cada parte tem uma função na composição, por exemplo, a profundidade é sugerida pelas variações tonais e de cor. O mesmo ocorre com as formas. A montanha distingue-se e descola-se do céu graças às diferenças entre os azuis.” (Simone Martins)

Cézanne é considerado por muitos como “o pai dos pintores modernistas”. Pelo menos, Henri Matisse e Pablo Picasso assim o consideravam.

Porém, embora tivesse uma fé inabalável no seu gênio artístico, não tinha uma força de vontade equivalente. Como seu pai não queria que ele se tornasse artista, obrigou-o a se preparar para sucedê-lo no seu pequeno banco.

Foi necessário que Émile Zola, amigo de infância, lhe puxasse as orelhas:

“Não será a pintura apenas um capricho que se apoderou de ti num belo dia em que estavas aborrecido? Não será um passatempo, um tema de conversa, um pretexto para não estudares Direito? Se assim é, então, percebo a tua conduta: fazes bem em não levares as coisas ao extremo e em não arranjares mais aborrecimentos com a família. Mas se a pintura é a tua vocação – e é assim que sempre a encarei – se te sentes capaz de realizar bem depois de muito trabalho, então passas a ser um enigma para mim, uma esfinge, um não sei quê de impossível e de tenebroso …

Queres que te diga? – mas não te vás zangar – tens falta de caráter, tens horror à fadiga, qualquer que seja, em pensamento tal como em ação; o teu grande princípio é de deixares correr a água e entregares-te ao tempo e ao acaso …

Se eu estivesse no teu lugar, teria de saber o que quero, arriscar tudo por tudo, não andar a vogar vagamente entre dois futuros tão diferentes, o estúdio e a advocacia.

Tenho pena de ti, porque deves sofrer com essa incerteza, e seria para mim mais um motivo para rasgar o véu; uma coisa ou outra, sê advogado de verdade ou então sê verdadeiramente artista; mas não fiques um ser sem nome, a envergar uma toga suja de tinta.”

Bom, em abril de 1861, Cézanne parte para Paris onde Zola o espera já com impaciência.

Sua trajetória não foi fácil, claro, pois não pensava conforme se “devia” pensar. Naturalmente, foi recusado na Escola de Belas-Artes e volta para Aix. Suas telas são consideradas “desajeitadas e rebeldes”, muito longe do que entendia comumente por obra de arte.

O que esperar de uma instituição que proclama o sucesso? Cézanne sequer contestou a decisão, porque ele nada esperava, sabia de suas estruturas encrostadas e sua impermeabilidade a qualquer inovação.

Ao voltar à empresa do pai, este apercebe-se que nunca poderia fazer do filho o seu sucessor e prepara um estúdio para ele.

Amigo não é para simplesmente elogiar; a verdadeira amizade se preocupa com o outro e parece partilhar destinos.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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