Submissão consentida

Entre os animais não-humanos vê-se regras de dominância, mas não de dominação.

A dominação, típica dos humanos, é o poder de controlar os outros, como “autoridade”, normalmente com justificativas morais.

A dominância é uma capacidade inata ou adquirida por um membro de grupo de sobressair. Isso não lhe dá o “direito” à coerção da vontade dos outros.

Tivemos, de início, o mito da Grande Deusa, a criadora da natureza e dos homens. Depois, um deus masculino destrona a deusa criadora e lhe toma o poder. Um terceiro mito é o que um deus e uma deusa criam o mundo juntos.

Mas, o que prevalece na civilização ocidental é o mito judaico-cristão, descrito no Gênesis. O mundo é criado por um deus único e todo-poderoso, onipotente e onipresente, que controla a todos nós em todos os momentos de nossas vidas.

O Verbo prevaleceu e se estabeleceu o Patriarcado. A dominação masculina tornou-se “natural” e biológica!

Esse conceito está tão arraigado que “é a própria relação das mulheres com a história que explica a natureza da subordinação feminina, as causas para a colaboração das mulheres no processo da própria subordinação”, assinala Gerda Lerner.

Sobre o funcionamento desse processo, que alimenta o machismo, recomendo a leitura de “Kim Jiyoung, Nascida em 1982“, da sul-coreana Cho Nam-Joo.

Jiyoung se dá conta rapidamente de como é desfavorecida frente ao irmão mimado. Sua mãe a repreende por chorar e reclamar de um colega que lhe assediava: “ele só estava provocando porque queria brincar”.

As pessoas acreditavam que era responsabilidade dos filhos homens levar honra e prosperidade para a família e que a felicidade dependia do sucesso deles. Às filhas cabia sustentar os irmãos homens com prazer!

Era bem estabelecido que o arroz fresco deveria ser servido na ordem pai, irmão e avó e, pedaços perfeitos de tofu e bolinhos eram do irmão, enquanto as garotas deveriam comer os que se despedaçavam.

Sua avó cultivava os campos de outras pessoas, vendia mercadorias de outras pessoas, fazia o trabalho doméstico, para criar quatro meninos. O marido, um homem de mãos macias, nunca trabalhou. Ela, entretanto, acreditava piamente que ele era um marido decente por não se deitar com outras mulheres e não bater nela.

Os casais torciam para nascessem filhos; quando nascia uma menina, a tristeza era geral. Verificar o sexo e abortar as meninas era prática comum. No início dos anos 1990, a proporção para o terceiro filho passou a ser de mais de dois para uma.

Paulo Freire, em “Educação como Prática da Liberdade”, constrói a noção de liberdade enquanto processo: a libertação. Liberdade é algo nunca garantido, é uma conquista diária.

“Os oprimidos, que introjetam a ‘sombra’ dos opressores e seguem suas pautas, temem a liberdade, na medida em que esta, implicando a expulsão desta sombra, exigiria deles que ‘preenchessem’ o ‘vazio’ deixado pela expulsão com outro ‘conteúdo’ –o de sua autonomia. O de sua responsabilidade, sem o que não seriam livres.

A liberdade, que é uma conquista, e não uma doação, exige uma permanente busca, que só existe no ato responsável de quem a faz.

Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem. (…) É condição indispensável ao movimento de busca em que estão inscritos os homens como seres inconclusos.”(Paulo Freire)

As famílias – e as escolas – tendem a perpetuar relações de poder. A escola, segundo Hannah Arendt, é uma instituição que se interpõe entre o mundo e o domínio privado do lar.

As relações de poder não se manifestam apenas na política; estão presentes na vida social, na vida amorosa, familiar e profissional, ressalta Rosa Montero.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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