Paixão e razão

Sempre há quem confunda amor com paixão, embora sejam motivações e sensações muito diferentes.

O amor é um sentimento puro e desprendido de desejo, de resultado e de interesses pessoais.

O amor é altruísta, nada quer em troca; a paixão é egoísta, tudo precisa retornar para o desfrute do “amante”.

A paixão é uma “exigência” do corpo. Corpo, que no sentido original hindu, é “kama manas” (sânscrito), que significa desejo e mente. O sujeito torna-se escravo de seus desejos, para seu prazer.

Segundo Kant, a paixão é uma “inclinação emocional violenta, capaz de dominar completamente a conduta humana e afastá-la da desejável capacidade de autonomia e escolha racional”. A pessoa apaixonada perde a cabeça e age de modo irracional.

Ela nos leva a extremos, como temos visto: feminicídio, patriotismo, nacionalismo, torcidas por times, ideologias … até religiões. A paixão é mortal.

A contrapartida da paixão é a razão, que também não é “inocente”. O racionalismo é autoritário, à sua maneira. A imposição do “progresso” é uma de suas manifestações, à qual temos que nos render, independentemente de suas consequências (devastação ambiental, alienação, concentração de riquezas, capacidade de extermínio …).

Interessante é que os que têm paixão por algo, que é irracional, julga-se sempre com razão!

Não somos deuses. Não somos feitos com características divinas (talvez, com sua “energia”). Não dividamos nossas falhas com Deus. Somos espelhos de nós mesmos, de nossa fraca ou sublime personalidade. Apaixonados ou racionais, somos nossos próprios projetos. Embora, na maioria dos casos não tenhamos consciência disso. É confortável acusar outros por nossas frustrações.

Aliás, Xenófanes, no século V a.C. já criticava a alegação de que os deuses se pareciam com os humanos:

“Tudo que os humanos desprezam, condenam e tentam evitar, o roubo e o adultério e o engano mentiroso dos outros, Homero e Hesíodo respeitosamente levaram até os deuses …

Mas os mortais pensam que os deuses foram criados pelo nascimento, que usavam roupas, tinham vozes e também uma forma.

Mas se o gado, ou os leões, ou os cavalos tivessem mãos, assim como os humanos; se pudessem pintar com suas mãos e desenhar e assim criar quadros – então os cavalos ao desenharem seus deuses desenhariam cavalos; e o gado nos daria quadros e estátuas de gado; e portanto cada um deles representaria os deuses à semelhança de sua própria constituição.” (Xenófanes)

Admitamos: somos nada, porém vaidosos.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

Um comentário em “Paixão e razão

  1. Paixão e razão são 2 substantivos abstratos fadados cada um a seus interesses:

    1) A paixão analisada vastamente por psiquiatras e psicólogos é um sentimento voraz,não duradouro, já que parte do comando dos nossos olhos ou corpo que é enviado ao nosso cérebro e produz hormônios não duradouros, porém avassaladores raiz de várias tragédias.

    2) A razão por sua vez não tão subjetiva como a paixão, mas as vezes também irracional, tendo que parar nas barras de um julgador para determinar qual dos dois lados detém a razão. Isso não é novo até o Rei Salomão se deparou com situação tão complicada para decidir a maternidade de 2 mulheres que disputavam o mesmo filho. A razão é soberana. Mas a disputa cega os olhos dos litigantes e aí entra a terceira pessoa capaz de dirimir o conflito.

    3) por fim o Amor, o mais sublime de todos sentimentos, descrito com clareza o livro do Eclesiastes 13 sobre o Amor: cujas caracteristas é claramente visível e sentida entre elas direi algumas “O Amor é bondoso , pacífico, não é arrogante,não se trata co leviandade é benigno…”e vai discorrendo sobre o amor. É o mais nobre de todos os sentimentos. O amor não espera nada em troca. Quem já foi ou é amado sabe do que estou falando. Já dizia alguém “toda forma de amor vale a pena”. E vale sim. Desde que seja de fato amor genuíno, sem exigir nada em troca. É difícil encontrar o amor, mas caso o encontre você acaba de atingir a superioridade do corpo , dá alma e do espírito. Existe entre humanos amor puro. Não quero aqui tecer comentários sobre a pureza do amor dos animais. Voltando a síntese do texto: “Não somos deuses. Não somos feitos com características divinas” exatamente acertiva a afirmação do autor. Somos imagem e semelhança de Deus. Porém , é como olhar no espelho e te ver. É você refletido em um objeto. O seu reflexo no espelho não pode nada se não tiver seu comando. Pense nisso. Você como espelho do Criador. Que belo texto. Porém não temos tempo para dissecar um assunto tão profundo. Parabéns Dorgival Soares pelo texto exaustivamente tão bem escrito e complexo.

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