O mundo das ideias

“Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos”: este é um lema positivista, dito por Augusto Comte.

Podemos não perceber, mas “a quase totalidade de nossos pensamentos, de nossas convicções, e também de nossos valores, se inscreve nas grandes visões do mundo já elaboradas e estruturadas ao longo da história das ideias”, reforça Luc Ferry.

Essas ideias não são apenas “inspirações” divinas, registradas em livros assumidos como “sagrados”. Elas são originárias, na sua maioria, do pensar filosófico. Não somente; há também pensamentos oriundos do estudo da política e o de cientistas.

Somos, na prática, teleguiados por ideias alheias, normalmente urdidas por pensadores que não estão mais presentes. A nós, cabe refletir e selecionar aquelas que fazem sentido à nossa realidade pessoal e social.

O que pode nos anular como potencialidade é aceitarmos sem questionamentos as convicções que sempre tentam nos impor, inclusive as religiosas. Isso é abrir mão de nossa individualidade e criatividade.

Algumas pessoas parecem viver na virtualidade, no “mundo da lua”, despreocupadas, desligadas da realidade. Outra parte, vive antecipando a infelicidade, com medo de perder o emprego, a família, a saúde … com medo de viver.

“O dom de despertar no passado as centelhas de esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer”. (Walter Benjamin)

A filosofia existe porque somos finitos, limitados no espaço e no tempo e, chato, sabemos disso. Embora todos os seres vivos morram, nós temos a “graça” de saber que a morte é certa.

Logo, o primeiro recurso ao qual o humano se apoia é a religião, com sua promessa de “salvação”, vida eterna, ressurreição ou metempsicose. Não conheço nenhuma religião que pregue que a “vida” acaba quando chega a morte; não agradaria. Só os corajosos ateus procuram não alimentar essa … possibilidade.

Embora, curiosamente, já li que pesquisadores apresentaram um estudo que mostra que partes de um tipo específico de células – em tecidos cerebrais – começam a trabalhar mais após a morte do corpo! O curioso, nesse caso, é que há genes que despertam com o fim das atividades gerais do corpo. (https://www.nature.com/articles/s41598-021-85801-6)

Bom, as unhas e cabelos continuam crescendo após a morte e isso nunca levou a ciência a pensar em vida pós-morte. Entretanto, há um interesse crescente nas Experiências de Quase Morte (EQM). Os médicos, por ora, dizem que isso é devido à falta de oxigenação no cérebro, que cria alucinações visuais e sensoriais.

Há vários posicionamentos que podemos assumir diante da precariedade e efemeridade da vida.

Interessante a analogia que Amyr Klink faz com a navegação: “Uma das características mais importantes de um barco é que ele afunda. Afunda! Quando você tem a noção da finitude, da provisoriedade, você pensa de um jeito diferente. Tenho vários barcos … mas para mim vale apenas as minhas experiências …”

Então, o tempo é o que temos enquanto vivos. É nosso mais importante recurso, porque escasso, limitado e fora de nosso controle. Que saibamos usá-lo. Sugiro ler os estoicos.

Se pudesse resumi-los, importa reduzir as expectativas e fruir melhor o momento. A esperança nem sempre é a melhor conselheira; às vezes, é melhor manter os pés no chão do que sonhar com algo que pode se mostrar desimportante, como normalmente ocorre. Viver a vida enquanto ela é viva!

Viver a vida intensamente significa reconhecer a riqueza da diversidade e admirar-se com esse esplendor.

A ciência nem sempre é isenta de sectarismo, infelizmente. Uma faca corta mas também mata. Ela está inserida num caldo cultural; ou seja, é manipulável.

Tudo começa nas escolas, achava Paul Feyerabend:

“A imposição de escolas, alfabetização e informação ‘objetiva’, separada das preferências e dos problemas locais, tirou da existência seus ingredientes epistêmicos e tornou-se árida e sem sentido”. (Feyerabend)

Para ele, não importa tanto que o mundo seja “caótico e fragmentado”. O que temos é um mundo complexo, cuja multiplicidade não cabe em um conjunto imutável de regras. Culturais ou científicas.

Essa é nossa riqueza atual, repito: a diversidade. Não podemos nos esquivar de participar nesse processo espiral, exponencial, de crescimento social. Não precisamos ficar bitolados por conceitos, ideias ou preceitos antigos. Temos todos com o que contribuir, a partir de nossa curiosidade e ousadia.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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