A pós-modernidade ainda representa nosso tempo?

(Pintura de Constantin Guys)

A partir dos anos 1840, Charles Baudelaire identificava o que viria a ser reconhecido como Modernismo, ao destacar a atividade de Constantin Guys, como jornalista e ilustrador.

Nascia a ideia de que a modernidade seria a reunião do eterno e do transitório, revelando um interesse especial na moda e sua relação com a beleza, com o imprevisível e o passageiro. Contextualize com os padrões da época.

Vejam: os tempos modernos surgiam cerca de dois séculos atrás, a partir da observação dos pequenos lampejos do cotidiano.

Quem foi o “inventor” da modernidade, Guys ou Baudelaire?

“Por sorte, surge de tempos em tempos quem coloque as coisas no devido lugar: críticos, amantes da arte, espíritos inquisitivos, que afirmam que nem tudo está em Rafael, que nem tudo está em Racine, que os poetae minores têm alguma coisa de bom, de sólido e de agradável; e, enfim, que por mais que se ame a beleza geral, que se exprime pelos poetas e artistas clássicos, não se está menos equivocado em se negligenciar a beleza particular, a beleza de circunstância e os costumes de época”. (Baudelaire)

No livro O Pintor da Vida Moderna, Baudelaire parte das obras de Guys para refletir sobre a relação entre o espírito artístico e o tempo em que habita. Compara a figura do artista e a do flâneur, o observador apaixonado que passeia pelas ruas da cidade e deixa seu olhar deter-se sobre os detalhes dos trajes, dos penteados das damas, do ruflar das sedas, dos cabelos anelados que saltitam ao deslizar das saias flutuantes, comenta Laura Ferrazza.

Remorso póstumo

“Quando dormires, minha bela tenebrosa,
No fundo da tumba feita em mármore negro,
E não tiveres por alcova e por mansão
Mais que uma cova pluviosa e uma fossa oca;

Quando a pedra, oprimindo o teu peito medroso
E teus flancos que abrandam um charmoso descaso,
Impedir teu coração de arfar e querer,
E teus pés de correr seu curso aventuroso,

O túmulo, guardião do meu sonho infinito
(Pois o túmulo sempre entenderá o poeta),
Nessas longas noites de que o sono é banido,

Dir-te-á: “Que te valeu, cortesã imperfeita,
Não teres conhecido o que choram os mortos?”
— E o verme roerá tua pele como um remorso.”

(Baudelaire)

Por coerência, a transitoriedade, uma das característica do modernismo (pelo menos com relação à moda), imperou e ele foi sucedido pelo pós-modernismo.

Quando nasceu, então, a pós-modernidade?

Na opinião de David Harvey, ela foi detectada por Jonathan Raban, com o registro no seu livro Soft City, de 1974.

Raban rejeitava a concepção de uma cidade rigidamente estratificada por ocupação e classe, descrevendo em vez disso, um individualismo e um empreendedorismo disseminados em que as marcas da distinção social eram conferidas em larga medida pelas posses e pela aparência.

A cidade parecia mais um teatro, uma série de palcos em que os indivíduos podiam operar sua própria magia distintiva enquanto representavam uma multiplicidade de papéis. A cidade como objeto de anseios.

Para ele, a cidade deixara de ser devorada pelo totalitarismo dos planejadores, dos burocratas e das elites corporativas. Insistia que a cidade é um lugar demasiadamente complexo para ser disciplinado.

A contrapartida, entretanto, seria a tenebrosa ameaça da violência inexplicável e a companhia inevitável e onipresente da tendência à dissolução da vida social.

Isso tudo, muito antes das redes sociais.

Este seria o pós-modernismo.

Terry Eagleton fez uma ácida avaliação sobre as artes pós-modernas: “talvez haja consenso quanto a dizer que o artefato pós-moderno típico é travesso, autoironizador e até esquizoide; e que ele reage à austera autonomia do modernismo ao abraçar impudentemente a linguagem do comércio e da mercadoria. Sua relação com a tradição cultural é de pastiche irreverente, e sua falta de profundidade intencional solapa todas as solenidades metafísicas, por vezes através de uma brutal estética da sordidez e do choque”.

O modernismo era geralmente percebido como positivista, tecnocêntrico e racionalista. De certa forma, essa visão contraria a de Baudelaire.

O fato é que o modernismo trazia a crença no progresso linear, nas verdades absolutas, no planejamento racional de ordens sociais ideais e, na padronização do conhecimento e da produção.

O pós-moderno, em contraste, privilegia a heterogeneidade e a diferença como forças libertadoras no novo discurso cultural. Seria uma reação à monotonia da visão de mundo do modernismo.

A fragmentação, a indeterminação e a intensa desconfiança de todos os discursos universais, totalizantes, são o marco do pensamento pós-moderno.

Nas palavras de Jean François Lyotard, a pós-modernidade representaria a total falência das ideias tidas como certas e verdadeiras.

Esses aspectos foram reforçados com a ênfase de Michel Foucault na descontinuidade, na diferença na história e a primazia a “correlações polimorfas em vez da casualidade simples ou complexa”.

Mas, também, pela “redescoberta” do pragmatismo na filosofia (conforme Richard Rorty, por exemplo); a mudança de ideias sobre a filosofia da ciência promovida por Thomas Kuhn e Paul Feyerabend; e, os avanços com os estudos da Complexidade, da Teoria do Caos, Teoria da catástrofe, geometria dos fractais etc.

Surgiu, ainda, a preocupação, na ética, na política e na antropologia, com a validade e a dignidade do “outro”, embora alguns políticos ainda promovam sua hostilidade.

Com a disseminação dos avanços tecnológicos e dos meios de comunicação, com o aprisionamento pelas teias das redes sociais, somos ainda pós-modernos ou carecemos de um novo termo para nossa época?

A modernidade líquida, divulgada por Zygmunt Bauman seria apropriada?

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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