“O que não foi/ tocado é o que/ deixou sua marca/ mais nítida na mão.”

(Ruy Espinheira, 1942)

Volto com Ruy Espinheira Filho, o poeta baiano (quase um pleonasmo) que traz toda a complexidade da vida num lirismo nunca abandonado.

À sua memória, aflora o eterno fluir, com nossa pegada – visível, indelével ou fugaz, efêmera – no tempo.

Talvez por isso tenha recebido a alcunha de “poeta da memória”.

“Com que contundência estende o tempo o arco do seu incansável curso, convertendo todo o ir em prenúncio do perder-se, e todo o ido em anúncio do perdido?” (Sérgio Martagão Gesteira)

Numa entrevista, em 2008, foi-lhe perguntado se ainda haveria espaço para a poesia. Sua resposta:

“A poesia continua. Agora, como em toda época tem gente que não tem necessidade, ou melhor dizendo, não tem… não merece… tem gente que se consola com coisas inferiores e para elas são suficientes. E tem gente que não. Tem gente que tem uma necessidade lírica maior. (…) a poesia continua sendo necessária para aqueles que chegam até ela, que precisam dela. Eu acho que todos nós precisamos.”

TEMPO PERDIDO

No tempo perdido

deslizo à sombra

da árvore, sobre a

música do rio.

No tempo perdido

tudo é cintilância:

no luar, nos copos,

nos teus lábios úmidos.

No tempo perdido

cantam as alviaves

e me amas na areia

de uma praia anônima.

Ó tempo perdido,

como em ti sou rico,

maduro de viagens

e multilustrado!

Só teu universo

feito do não feito

nos dá o melhor

que há no factível.

Tomando o teu barro

nossos dedos moldam

como angelizados

um mundo ideal.

(Na tua verdade

uma outra história:

nós temos as mãos

repletas mas puras.)

Assim, pairo à sombra

da árvore, sobre a

música do rio,

computando nuvens;

conversando flores,

seixos, reflexos;

logo esporeando

um galope mágico.

No tempo perdido

recupero, enfim,

tudo o que perdi

no meu tempo ganho.”

OS BENS MAIORES

“O que ficou

além do enlace

é o que mais foi

preso pelo gesto.

O que não foi

tocado é o que

deixou sua marca

mais nítida na mão.

A gaiola vazia

é onde habita

o que há de mais belo

em gorjeio e pássaro.”

REVELAÇÃO

“Só o passado que

aguarda no futuro

revelará a limpidez

maior desta tarde.

Ai que somos felizes

agora

mas não tanto

como amanhã, no passado.”

O AVÔ

“O avô descansa

de quase um século.

O rosto é sereno

(não sei como pode

mostrar essa calma

após tanto tempo)

e as mãos despediram

todos os gestos.

O avô entre rosas

com seu terno escuro.

Pela primeira vez

indiferente.

Pela primeira vez

desatencioso

com mulher, filhos, netos,

conhecidos, o mundo.

Nem que implorássemos

nos recontaria

as tantas lembranças

entre farrapos de ópera.

Descansa tão fundo e

alto que é impossível

despertá-lo, saber

mesmo onde repousa.

No entanto está em nós

e nos impõe seus traços,

cor de olhos, jeito

de andar, sorrir, falar.

E o mais difícil de

cumprir:

a insuavizável

dignidade.

Avô, já nos retiramos.

Em silêncio vamos descendo

a ladeira. Pó do teu pó,

flutuaremos até

que o vento contenha o sopro.

E então te herdaremos

também essa paz final.

Absoluta. Tão perfeita

que nem a saberemos.”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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