Colette Catta, uma homenagem

(Colette Catta, 1921-2016)

Muitos de nós tendem, às vezes, a perder a esperança na humanidade.

A falta de empatia, solidariedade, compaixão, ou caridade cristã, diariamente divulgada sem rubor nas redes sociais e outros meios, principalmente por pessoas com supostas responsabilidades políticas, leva-nos a esquecer que esses não nos representam; são apenas desvios.

Há exemplos de pessoas anônimas que, silenciosamente, dedicam suas vidas aos necessitados, espelhando o divino em nós.

Meu amigo Ambrósio, com sensibilidade, está evidenciando uma dessas, a missionária Colette.

Colette Catta, 101 anos (por José Ambrósio dos Santos)

“Durante quatro décadas, entre 1974 e 2016, o 2 de setembro foi motivo de comemoração no distrito de Juçaral, pequeno e pobre povoado encravado entre usinas e engenhos de cana de açúcar do município de Cabo de Santo Agostinho (PE).

Nesse dia, crianças, adolescentes, jovens e seus pais (canavieiras e canavieiros) e mais uma porção de pessoas que lutavam contra as injustiças sociais se juntavam para festejar o aniversário da missionária e enfermeira francesa Colette Catta.

A comemoração foi encerrada a partir do dia 04 de novembro de 2016, quando Colette encerrou a sua extensa jornada de luta em defesa do povo pobre, aos 95 anos de idade.

Por sua incansável e dedicada doação, salvou a vida de muitas crianças da morte iminente, por desnutrição, e mudou o destino de centenas de jovens que não tinham outras opções que não fossem a dureza dos canaviais e os biscates, trabalhos que não exigem qualificação profissional.

A fome e a desnutrição consumiam a vitalidade de famílias inteiras e a morte, principalmente de crianças, era uma ocorrência constante. Os pequenos caixões azuis conduzidos por pessoas esquálidas e aparência resignada com a morte dos seus filhos já faziam parte da paisagem bucólica, mas perversamente desigual.

Colette Catta chegou a Juçaral em 1974. Foi recebida e abrigada pelo padre Carlos de Beco, um belga que chegara a Juçaral em 1965 e iniciara trabalho de ação social.

Apesar do nobre propósito, Colette foi recebida com preconceito e desconfiança por muitos da comunidade, especialmente aqueles que representavam o regime militar instaurado em 1964.

A animosidade não a assustou. Nascida em Nantes, uma cidade às margens do rio Loire, na região da Alta Bretanha, oeste da França, no dia 02 de setembro de 1921, Colette Catta viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial (1939/1945).

A realidade encontrada em Juçaral a deixou chocada. Isso, apesar de ela já conhecer a miséria do nordeste brasileiro através de reportagens e da peça adaptada do livro Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

Também conhecia nordestinos que chegavam a São Paulo fugindo da seca. Colette passou 21 anos cuidando dos pobres favelados do Tatuapé, em São Paulo, aonde chegou em dezembro de 1953, de navio.

Freira da Congregação das Irmãzinhas da Assunção, entidade religiosa com atuação em praticamente todo o mundo, em áreas industriais, ela era uma das religiosas do Convento Irmãzinhas da Assunção. Além de conselheira, Colette atuou como mestra das noviças do Segundo Ano de 1959 até a sua saída da Congregação, em 1973, quando passou a se definir como freira de coração.

“Assistia mães trancarem portas e janelas e sair na madrugada para ir aos canaviais, deixando crianças de nove anos cuidando de outras mais novas. Também vi mulheres prepararem comida para seus maridos bêbados, enquanto seus filhos, com fome, desmaiavam. A cada 15 dias morria uma criança.”

(Declaração emocionada de Colette Catta ao extinto jornal Tribuna Popular, em agosto de 2007)

Mesmo depois de mais de 30 anos desde a chegada a Juçaral, lágrimas corriam dos seus olhos miúdos, como testemunharam o jornalista José Ambrósio dos Santos e o fotojornalista Marcelo Ferreira.

Para enfrentar as adversidades, Colette criou a Escolinha e a Creche Irmãozinhos de Esperança. Mais tarde, fundou a Comunidade Arca de Noé, que recebia jovens (moças e rapazes). Colette não fazia qualquer distinção. Quem buscava a Comunidade Arca de Noé era acolhida(o), pois ela sabia que batiam à sua porta na esperança de mudar de vida estudando, refletindo, orando, vivendo em comunidade, trabalhando e se preparando para o futuro.

“Dos primeiros, muitos estão formados, casados, com saúde. São hoje homens e mulheres que pensam.”

(Colette Catta, em agosto de 2007)

A luta, a dedicação e a doação de Colette Catta a credenciaram a receber um dos principais reconhecimentos do governo francês 36 anos depois da sua jornada em solo brasileiro, iniciada em 1953, na favela do Tatuapé, em São Paulo.

Em 1989 ela foi agraciada com a insígnia de Cavaleira da Ordem Nacional do Mérito, outorgada pelo presidente Francois Miterrand, Grande Mestre da Ordem Nacional do Mérito.

O belo legado de Colette Catta será abordado em breve no livro A mãe de Juçaral, que estou finalizando (fase de edição) e tem lançamento previsto para o início de novembro.

O título do livro, A mãe de Juçaral, traduz com fidelidade o significado do trabalho de Colette Catta e foi extraído de uma frase do Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, na missa de despedida de Colette, no dia 5 de novembro de 2016.

Disse Dom Saburido:

“Estamos nos despedindo da mãe de Juçaral.”

Dom Fernando Saburido, que é de Juçaral e conviveu com Colette, está escrevendo o prefácio do livro.

Ontem, Colette Catta completaria 101 anos de idade. Não houve festa, mas a data certamente foi lembrada por muita gente em Juçaral, na França e em muitos lugares pelo Brasil e do mundo por onde estão espalhada(o)s muitas e muitos filhas e filhos da mãe de Juçaral.

Parabéns a você, Colette. Joyeux anniversaire, Colette. Seu legado será sempre lembrado e reverenciado.”

(José Ambrósio dos Santos é jornalista e membro da Academia Cabense de Letras)

Texto original no blog “falouedisse“:

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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