Como o Brasil tornou-se reino

(Paulo de Oliveira Leite Setúbal, 1893-1937)

Dom João VI elevou o Brasil à condição de reino. Em 1815 deixamos de ser colônia. Isso foi chave para a nossa história. Mas, por que?

Num livro de 1926, Paulo Setúbal, traz alguns elementos. Paulo era advogado, jornalista e escritor. Sim, o grande Olavo Egydio Setúbal era seu filho.

Dom João estava gostando do Brasil: o clima, o sossego, a água da Quinta, as laranjas da Bahia …

E inspirado por seus ministros, começou a dar uma cara civilizada ao país, com a abertura dos portos ao mundo, o Desembargo do Paço, a criação do Banco do Brasil, as fundações da Escola de Medicina, da Academia de Belas-Artes e da tipografia régia. Construiu uma fábrica de pólvora e mandou explorar as minas de ferro do Ipanema. Fez o Jardim Botânico, abriu a Biblioteca Nacional …

Em 1815 acontecia o Congresso de Viena no qual as potências europeias redesenhavam o mapa político da Europa. Intencionava, também, restaurar os tronos das famílias derrotadas por Napoleão. Este havia abdicado do poder em março de 1814.

O Congresso foi encerrado poucos dias antes da derrota definitiva de Napoleão em Waterloo (18 de junho de 1815).

“Em Viena, reunia-se um congresso formidável. É em 1815.

Enquanto Napoleão Bonaparte, sob o olhar implacável de Hudson Lowe (seu carcereiro), escreve as suas memórias em Santa Helena, os embaixadores das grandes potências discutem a ‘paz’ da Europa.

Talleyrand, a mais alta cabeça diplomática da época, defende os interesses da França.

O estadista tremendo, para defendê-los, apoia-se habilmente nas pequenas nações que conseguiu seduzir e coligar em torno de sua política.

Talleyrand nesse momento, tem os olhos do mundo fixados nele.

O Conde da Barca (Antônio de Araújo e Azevedo), Ministro da Guerra, amigo particular do grande francês, escreve-lhe uma carta reservada, muito íntima, suplicando que intervenha no caso do Brasil.

Pede que Talleyrand, não só trabalhe pela elevação do Brasil a reino, como faça que esse ato seja reconhecido pelo Congresso de Viena.

Dentro da carta, muito agradavelmente com uma gentileza irresistível, ia, ao que dizem, uma ordem de cem mil cruzados.

Ia, naqueles belos tempos, a bagatela de quatrocentos contos fortes.

Talleyrand recebe a carta, o pedido, o dinheiro.

Uma súbita ideia irrompe naquele cérebro de gênio.

Portugal, no Congresso, é considerado como nação de terceira ordem. E as nações de terceira ordem não têm voto nas deliberações. Nem sequer tem assento no recinto do Congresso: são apenas consultadas na antecâmara.

O reino dos Braganças, por isso mesmo, não pode tutelar como deve os seus direitos.

D. João pleiteia ardentemente a entrada no Congresso.

Talleyrand, por seu turno, precisa nas deliberações do voto da pequena nação amiga. E bate-se então, de corpo e alma, pelo reconhecimento de Portugal como grande potência.

As nações opõem-se. Qual o meio de vencê-las?

Diante da missiva secreta do Conde da Barca, Talleyrand ilumina-se. Está descoberta a fórmula. É executar o pedido do seu amigo.

É elevar o Brasil a reino.

É dar a estes imensos domínios o privilégio de nação.

Portugal, dono de tão vasto reino, tornar-se-ia, forçosamente, potência de primeira ordem.

Entraria no Congresso e teria voto nele.

E o estadista põe-se a campo. Fala com os embaixadores portugueses, manda instruções ao Rio, dá ordens ao ministro francês, agita-se, insufla, escreve.

D. João não vacila mais: reúne o conselho e expõe a matéria.

Os ministros, sem discrepar, são todos pela grande medida.

Então, esfregando as pontas dos dedos, rindo aquele risinho amarelo, muito dele, D. João resolve:

– Diante do que ouvistes, senhores ministros, vou elevar o Brasil a reino. Precisamos ter assento e voto no Congresso de Viena. E é esse, como vedes, o único alvitre para chegarmos até lá.

E elevou o Brasil a reino.” (Paulo Setúbal)

 

Nestas negociações, Portugal teve que desocupar a Guiana e este território voltou à França, porém esse foi um passo formidável para a Independência.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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