O capitalismo pode ser consciente?

(Charge de Clóvis Lima)

“Sopram ventos malignos no planeta azul” (Manuel Castells)

Quando um hálito de pessimismo permeia o ambiente, procuro ler textos que me façam pensar e me reconectar com minhas apostas de futuro.

Os livros de Humberto Mariotti e Cristina Zauhy são parte desse refúgio de sanidade. Seu mais recente, “Sociedades Tóxicas – e a Complexidade do Futuro”, fala desse mundo que nos espanta.

Num ponto, lembram que somos nós mesmos que nos excluímos da equação de nossas próprias vidas, por meio da nossa agressividade, autodestrutividade, atenção deficiente e vontade de poder.

Sempre tive a humildade de me sentir parte, interdependente, no seio organizacional, social e ambiental.

Sempre vi as organizações como agentes corresponsáveis nas suas comunidades. No final dos anos 1980, introduzi o conceito de Valor Adicionado no grupo onde trabalhava, embrião (imaginava) de uma métrica de reciprocidade.

Na virada do milênio, entusiasmou-me a publicação do livro “Capitalismo Natural”, de Paul Hawken, Amory Lovins e L. Hunter Lovins. Sugeria que muita produtividade e zero desperdício seriam a receita ambiental para o século que viria. Crescimento econômico e preservação ambiental seriam conciliados.

Em 2009, Élisabeth Laville publicou “A Empresa Verde”, no qual propunha que seria “preciso criar uma empresa que esteja em harmonia com o mundo que a cerca, uma empresa para a qual o desenvolvimento sustentável seja uma segunda natureza …”

Anos depois, surgiu “Capital Natural”, de Mark Tercek e Jonathan Adams. O subtítulo era: Como as empresas e a sociedade podem prosperar ao investir no meio ambiente. Um ex-banqueiro defendendo que a natureza é um bom investimento e pode salvar o planeta (leia: salvar os humanos).

Em 2014, o assunto tornou-se mais explícito com “Capitalismo Consciente”, de John Mackey e Raj Sisodia.

Este livro foi motivado por um debate entre Mackey e Milton Friedman, no qual Friedman condenava (como rezava sua cartilha) os líderes corporativos que se preocupavam com os colaboradores, a comunidade e o meio ambiente: “Os executivos que levam a sério suas responsabilidades de gerar emprego, eliminar a discriminação e conter a poluição … estão defendendo o puro e simples socialismo”.

Mackey e Sisodia, ao contrário, têm uma visão mais ampla sobre o papel da empresa na sociedade, que, afinal, é quem outorga às empresas o direito de funcionar.

Recentemente, Sisodia e Michael Gelb lançaram “Empresas que Curam”, quase um manifesto provocando as empresas a assumirem o controle da cura da crise de nossa era.

Esta lista de livros não esgota a preocupação sobre o papel deletério da ação humana na nossa casa. Já abordei aqui os pioneiros.

Em 2018, outro livro (Conscious Capitalism Field Guide) destacava que os cinco fundamentos do capitalismo consciente geram resultado financeiro sete vezes superior à média de mercado, medido pelo S&P 500.

No ano seguinte, 183 CEOs das maiores empresas dos EUA, agrupados na Business Roundtable, assinaram manifesto propondo que as empresas foquem na geração de resultado para todos os stakeholders, em vez do lucro para os acionistas, exclusivamente.

A ideia é que toda empresa deve ter uma causa (ou propósito, a gosto), deve resolver um problema e o lucro é consequência do valor gerado para o ecossistema.

Já em 2020, nosso Banco Central introduziu “Sustentabilidade” como a quinta dimensão da sua Agenda. Escrevi: Nosso país tem uma oportunidade – única – de ser a grande potência neste século!

No ano passado, Larry Fink, CEO do BlackRock, que administra mais de US$ 6,5 trilhões de ativos, falou do novo direcionamento do fundo: foco em sustentabilidade.

Tudo indo bem. Aparentemente.

O BlackRock agora fala que há um grande desafio nos investimentos sustentáveis: precificar e incorporar os riscos ESG na análise de ativos financeiros.

Já a Business Roundtable e seus CEOs membros continuam a emitir declarações sérias sobre a crise climática. Mas a organização também está trabalhando diligentemente – e gastando liberalmente – para enfraquecer os esforços que permitiriam aos investidores responsabilizar as empresas por suas promessas climáticas, conforme a matéria do The Guardian:

(https://www.theguardian.com/environment/2022/aug/19/top-us-business-lobby-group-climate-action-business-roundtable)

Afinal, o dinheiro fala mas também impõe o silêncio, dizia Aldous Huxley.

“A natureza humana existe e opera em um ambiente. E não está ‘nesse’ ambiente como as moedas estão numa caixa, mas como uma planta está na luz do sol e no solo.” (John Dewey, 1859-1952)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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