Democracia agônica

(Câmara dos Deputados com presença atípica: dia de posse!)

Subjacente à atual falta de resiliência está o fracasso fundamental do neoliberalismo e a estrutura política que ele sustenta, tem afirmado Joseph E. Stiglitz.

A falta de resiliência a que se refere pode ser ilustrada como, por exemplo, a incapacidade de países ricos produzirem coisas essenciais durante a pandemia, porque o abastecimento delas estava a cargo da China; o estrangulamento energético de países europeus – principalmente a Alemanha – em decorrência de uma guerra inesperada (!?).

A estrutura política que o neoliberalismo diz defender é a vaporosa democracia. Frágil democracia. Falsa democracia. Mas, insuperável democracia!

Falsa, porque nossos representantes, na sua maioria, não nos representam. Estão, de fato, falando e atuando por interesses específicos, locais, empresariais, setoriais ou, até, pessoais.

O próprio Ludwig von Mises, considerado o mais importante expoente da Escola Austríaca de Economia, arauto do liberalismo, reconhecia que “não existem partidos políticos autênticos, no velho sentido clássico, mas tão somente ‘grupos de pressão‘.

Um grupo de pressão é um grupo de pessoas desejoso de obter privilégio à custa do restante da nação. Seu compromisso é com um setor econômico, um fragmento social, com a defesa de corporativismos, proteger práticas patrimonialistas etc.

Por trás, há uma indústria de lobbies, profissionais que verbalizam (não só, claro) o que importa para seus reais representados.

Aqui, neste Brasil, chamamos inocentemente esses grupos como “bancadas” (ou “frentes”). Há várias, assumidas: a ruralista (pop!), a da bala (defendem a vida, não é?), a evangélica (lutam pelo amor, obviamente), a educacional, a sindical, LGBTQIA+ etc.

“Só uma coisa não está representada no legislativo: a nação como um todo.

Apenas vozes isoladas se põem ao lado do conjunto da nação. E todos os problemas, mesmo os de política exterior, são encarados do ponto de vista dos interesses específicos dos grupos de pressão.” (Mises)

A Alemanha, por exemplo, que “acreditava” que o comércio domesticaria a Rússia, está encurralada com a redução do fornecimento de gás russo.

Surpreendentemente, existe um cheiro de corrupção, personificado por Gerhard Schröder, o chanceler alemão que presidiu os estágios críticos do envolvimento de seu país com a Rússia e depois foi trabalhar para a Gazprom, a gigante estatal russa do gás.

O Congresso, assim como o Executivo e as Agências (muitas dominadas pelas empresas que devem ser “reguladas”) são postos avançados dos agentes hegemônicos. Funcionam, via de regra, como incubadoras das ideias que buscam perpetuar o domínio dos mesmos seculares agentes sociais e econômicos.

Os recursos eleitorais, mesmo originários do Orçamento Público, são insuficientes para a gula dos políticos. A corrupção é o lastro da atividade política – há exceções.

Os órgãos controladores desses desvios (Judiciário, Ministério Público, Tribunais de Contas, CGU), às vezes não conseguem vê-los. Aliás, nem eleitos são; teoricamente devem obediência exclusivamente à lei.

A visão fragmentada da vida nacional faz com que os temas que dizem respeito à inteireza da nação, tais como inflação, desemprego, investimentos estruturais, saúde, educação, apoio à ciência, efeitos climáticos etc., são tratados com enfado e relativo desinteresse: eles não estão ali para isso!

Some-se a isso, o imediatismo das decisões: o horizonte é de curto prazo, de conveniência. Já estamos na 125ª emenda constitucional! Quase 4 “remendos” por ano; 11 apenas no primeiro semestre deste ano! Algumas emendas com fins evidentemente eleitorais!

Então, combine-se a visão setorial ou territorial (típicos vereadores federais, que se empenham pela pavimentação de uma rua no seu bairro) com as preocupações limitadas a um mandato e temos uma completa disfuncionalidade governamental.

Isso ocorre frequentemente nas empresas (microgerenciamento e miopia estratégica) que afundam. Um país disfuncional pode virar uma bomba social.

Insinua-se, lentamente, no seio social, a percepção de que tudo o que chamamos “democracia” é um grande “faz-de-conta”, uma ficção.

Daí, ser natural o surgimento de arroubos autoritários, pregando discursos de “retorno” à ordem institucional – que nunca existiu; o que existe, de fato, é uma dinâmica institucional.

“Quando as pessoas não têm mais eixos de futuros sociais acabam fazendo coisas indescritíveis.” (Eric J. Hobsbawn)

A dita “soberania popular” não representa o povo. Senão, como explicar que haja grupos que reviram caminhões de lixo à cata de comida, no país que é o “celeiro do mundo”?

Esse descaso com a população não é só aqui; até em países ricos vê-se o desespero de famintos, desabrigados, desempregados …

Lembro que, dez anos atrás, a prefeitura de Madri mandou colocar cadeados nas latas de lixo para evitar que pessoas procurassem comida! Uma solução técnica: a venda de cadeados aumentou.

Outra solução técnica: no Zimbábue, os “cidadãos” foram orientados a sincronizarem as descargas de seus vasos sanitários para poupar água. Além disso, os moradores deveriam esvaziar os vasos apenas a cada três dias e em horários determinados!

Aqui, entre os “cidadãos” com idade entre 18 e 24 anos, um em cada quatro está desocupado. Qual o futuro dessas pessoas? Algum político está preocupado?

Enquanto isso, temos uma campanha eleitoral em curso, com candidatos fazendo de conta que vivemos na terra da promissão, cujo futuro será – naturalmente – brilhante.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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