“Acho que o grande mundo dos homens não deve ser como este.” (LI P’O, China, século VIII)

(Leonardo Fróes, 81 anos)

Leonardo Fróes costuma brincar com a vida levada a sério. Para ele, o dramático está perto do patético: “Só as aves entendem/ o que estou olhando ao longe/ sem pensar mas sentindo/ minha insignificância perfeita.”

Sua poesia, diz Fabrício Carpinejar, “celebra até a queda; não reclama da fila, encontra algo da fila para pensar”.

OLHAR DE VACA (Leonardo Fróes)

O império das formigas. A vaca

olha de longe o efêmero passante.

Os passarinhos atravessam

a estrada estreita, quieta e sinuosa

que segue o rio pelo vale.

O silêncio aglutina as criaturas

e os menores ruídos.

Vê-se a proliferação das espécies

nos menores meandros.

Mundos inimagináveis se criam.

Mundos desaparecem

nas bocadas da vaca no capim generoso.

O OBSERVADOR OBSERVADO (Leonardo Fróes)

Quando eu me largo, porque achei

no animal que observo atentamente

um objeto mais interessante de estudo

do que eu e minhas mazelas ou

imoderadas alegrias;

e largando de lado, no processo,

todo e qualquer vestígio de quem sou,

lembranças, compromissos ou datas

ou dores que ainda ficam doendo;

quando, hirto, parado, concentrado,

para não assustá-lo, com o animal me confundo,

já sem saber a qual dos dois

pertence a consciência de mim –

– qualquer coisa maior se estabelece

nesta ausência de distinção entre nós:

a glória, a beleza, o alívio,

coesão impessoal da matéria, a eternidade.

CHINÊS COM SONO (Leonardo Fróes)

Enquanto os bois e os pássaros retardatários

procuram seu lugar de dormir

e um lavrador quase omisso na paisagem

procura a rês desgarrada,

nessa hora crepuscular avançada

que injeta um misto de langor sensual e misticismo e cansaço,

captados porém por um pintor hipotético, antigo, que,

apertando bem os olhos, como um chinês com sono,

vê que a noite chegando sobre os morros

são apenas rajadas, pinceladas de luz.

SOBRE UM TEMA DE CONFÚCIO (Leonardo Fróes)

Que fique pelo menos um homem

sozinho num bar deserto pensando

em nada de especial e curtindo

pessoas atarefadas que passam.

Que a ele pelo menos aquilo

tudo – a pressa das tarefas e os carros –

pareça uma paisagem vazia

e até certo ponto sem cabimento.

Que este homem sentado, soterrado

talvez em decepções amargas, se oriente

para ouvir a canção além dos passos

e além de sua própria pessoa

que assim no delírio urbano ressoa

sem função social senão deixar

que a boca filosofe assobiando

e o ouvido obediente perceba.

DERIVAÇÃO DE MA CHIH-YUAN (China, século XIII)

Uma parreira desabada

uma árvore podre

um pássaro preto

uma ponte

um rio

fazenda

estrada antiga

um vento

cavalo exausto.

O sol deita daquele lado.

O homem de coração partido chega ao fim do mundo.

DERIVAÇÃO DE WANG-WEI (China, 701-761)

Gosto de andar assim sozinho ao relento.

É muito bom ter consciência de si.

Quando o rio corta o meu caminho,

paro e contemplo calmamente a neblina que sobe.

De vez em quando encontro uma criatura da mata.

Rimos e conversamos um pouco,

nem dá vontade de voltar para casa.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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