Jô Soares, Pinzón e o Cabo de Santo Agostinho (por José Ambrósio dos Santos)

(José Ambrósio dos Santos)

A historiografia oficial não é neutra, nem necessariamente tem compromisso com a verdade factual; ela traduz o que convém aos mandantes e cria um repertório que se coaduna com os interesses de grupos que se beneficiam, no processo histórico.

A persistência em se celebrar o “descobrimento” do Brasil por Pedro Álvares Cabral é um desses embustes.

A crônica abaixo fala da defesa feita por Luiz Alves Lacerda (no programa do Jô Soares) do pioneirismo do espanhol Vicente Yáñez Pinzón, que aqui passou meses antes da chegada “acidental” de Cabral à nossa costa.

Jô Soares, Pinzón e o Cabo de Santo Agostinho (por José Ambrósio dos Santos)

“Admirado em todo o Brasil, há cerca de 23 anos Jô Soares certamente bateu recorde de audiência no Cabo de Santo Agostinho (PE), em uma noite de novembro de 1999 (não consigo precisar a data).

Já pertinho da virada do milênio, o programa Jô Soares Onze e Meia exibiu entrevista com o pesquisador Luiz Alves Lacerda, que apresentou ao país a tese de que o navegador espanhol Vicente Yáñez Pinzón havia desembarcado na praia de Suape, no dia 26 de janeiro de 1500.

Isso mesmo, três meses antes da descoberta oficial do Brasil pelo português Pedro Álvares Cabral, que chegou à Bahia somente no dia 22 de abril de 1500.

Estudioso que muito contribuiu para sacudir a poeira dos livros de história – até então esquecidos nas prateleiras das bibliotecas das universidades – e trazer o tema de volta à discussão em pleno V Centenário do Descobrimento, Luiz Alves Lacerda ancorava suas pesquisas em destacados historiadores, notadamente Pereira da Costa, Capistrano de Abreu e Flávio Guerra, entre outros. E era respaldado pelo historiador e então professor da Universidade de Huelva, (Espanha), Julio Ysquierdo Labrado, que abordou o tema em palestras no Cabo de Santo Agostinho, em janeiro de 2002.

Afora o nervosismo por estar diante de um dos maiores nomes da TV brasileira, abordando um tema desconhecido da maioria dos telespectadores e sabendo que toda a cidade estava ligada no programa, o professor Lacerda, como era mais conhecido, foi enfático na defesa da primazia.

Assegurou que Pinzón chegou primeiro e que inicialmente chamou o local de Cabo de Santa Maria de la Consolación. E explicou que Pinzón não tomou posse da terra em razão do Tratado de Tordesilhas. O acordo, celebrado entre o Papa Alexandre VI e os reis da Espanha, Fernando II, e de Portugal, João II, no dia 07 de junho de 1494, dava aos lusitanos o título de descobridores oficiais do Brasil.

O profissionalismo e a sensibilidade de Jô suavizaram o nervosismo de Luiz Alves Lacerda, que deixou o programa com a sensação de dever cumprido. Aliás, muito bem cumprido.

(Luiz Alves Lacerda no Programa do Jô)

É que a própria ida ao programa já foi uma vitória pessoal de Lacerda. Com a saúde debilitada, evitava viagens mais longas. Recentemente havia recusado viajar à Espanha, em novembro de 1999, oportunidade para conhecer a terra de onde partiu Pinzón, em Palos de la Frontera e certamente um dos seus sonhos.

Somente concordou em ir ao Estúdio do SBT, em São Paulo, com a garantia da minha companhia (eu era secretário executivo de Imprensa e Comunicação da Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho) e do secretário municipal de Turismo, Cultura e Esportes, José Antônio Alves, que havia articulado a entrevista com a produção de Jô Soares alguns dias antes, em viagem de trabalho a São Paulo.

À saída da gravação, ele estava exultante. Fomos jantar no apartamento do casal amigo Suzana e Dorgival Soares, na Consolação, pertinho do hotel onde estávamos hospedados. Momentos de descontração regados a um bom vinho e a prosa animada de um devotado pesquisador e um casal pernambucano saudoso da sua terra, Vitória de Santo Antão.

A partir de então, o prefeito Elias Gomes intensificou o trabalho de resgate do feito de Pinzón. Em 1999, ano do V Centenário da partida de Pinzón do Porto de Palos de la Frontera, no sudoeste da Espanha (19 de novembro de 1499), ele havia viajado àquela cidade a convite do alcalde (prefeito) da cidade, Dom Carmelo Romero Hernandez, para participar dos festejos relativos aos 500 anos da partida de Pinzón.

Um monumento que festeja o irmanamento entre as duas cidades foi inaugurado na principal avenida e se transformou em mais um dos muitos pontos de visitação da histórica cidade, de onde também partiu Cristóvão Colombo para descobrir a América, em 1492.

Em janeiro de 2002, por ocasião dos 502 anos da chegada de Pinzón, uma comitiva de espanhóis liderada por Dom Carmelo desembarcou em Pernambuco, dessa vez no Aeroporto Internacional dos Guararapes. Os festejos contaram com a participação do governador Jarbas Vasconcelos. Aliás, no Palácio de Campo das Princesas, sede do governo estadual, há vitrais que registram o feito de Pinzón. Elias organizou o Festival Pinzón, e a partir de então a cidade abraçou o tema.

De 2000 a 2004, o município viveu intensa movimentação de resgate da sua história e da sua cultura. A identificação da população com o trabalho era enorme.

Pinzón impulsionava a economia em praticamente todos os setores. Passou a dar nome a diversos empreendimentos, de hotéis a lojas, livrarias, restaurantes, padarias e até a um periódico, o Jornal Pinzón.

Nesse período Luiz Alves Lacerda lançou o livro Histórias do Cabo – Aqui nasceu o Brasil.

As universidades e editoras voltaram a abordar o tema. Concluintes dos cursos de História e Jornalismo dissertavam sobre Pinzón. Veículos de comunicação de todo o Brasil e de outros países passaram a noticiar o feito histórico. Repórteres que chegavam a Pernambuco invariavelmente visitavam o Cabo de Santo Agostinho, atraídos pela narrativa.

O Festival Pinzón atraia multidões à praia de Gaibu, anualmente.  A autoestima estava no auto e os cabenses cantavam a sua cidade (“…Cabo de Santo Agostinho, aqui nasceu o Brasil…”). Música do compositor e cantor Marrom Brasileiro dizia: “…Cabral descobriu o Brasil, mas Pinzón foi quem chegou aqui primeiro…”.

Com a alternância no poder no Cabo de Santo Agostinho e a posse de um prefeito de outro grupo político, em janeiro de 2005, uma pedra (ou uma âncora) foi colocada no caminho do resgate que mobilizava a cidade. Os livros foram novamente fechados. O feito de Pinzón foi outra vez jogado no esquecimento, ironicamente pelas mãos de um prefeito que tem Cabral como sobrenome.

Jô Soares saiu de cena na madrugada desta sexta-feira (5), aos 84 anos de idade, em São Paulo. Ele estava internado desde o dia 28 de julho no Hospital Sírio-Libanês, onde deu entrada para tratar uma pneumonia. Lacerda também não está mais conosco.

O Brasil inteiro lhe aplaude, Jô.

(José Ambrósio dos Santos é jornalista e membro da Academia Cabense de Letras)

Seguindo viagem, Pinzón chegou até o Rio Amazonas, que chamou de Santa María de la Mar Dulce.

Interessante: seu primo, Diego de Lepe, também empreendeu uma viagem, chegando ao Cabo de Santo Agostinho em fevereiro de 1500!

(Pormenor do extremo oriental da América do Sul – mostrando o Cabo de Santo Agostinho – no mapa de Juan de la Cosa, datado de 1500, a mais antiga carta náutica em que o Brasil está representado)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

2 comentários em “Jô Soares, Pinzón e o Cabo de Santo Agostinho (por José Ambrósio dos Santos)

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