“Como descobrir lugar aonde me agradasse descer para principiar minha vida”

(George Agostinho Baptista da Silva, 1906-1994)

Não podemos esquecer Agostinho da Silva, o filósofo português que dedicou 22 anos de sua vida ao Brasil e optou por perder a nacionalidade portuguesa ao escolher a brasileira.

Além de filósofo, era professor, filólogo, tradutor, poeta, ensaísta e pedagogo.

Ensinou no Rio, Paraíba, Pernambuco e Bahia. Estudou entomologia no Instituto Oswaldo Cruz.

Foi um dos fundadores da UF de Santa Catarina e da Universidade de Brasília. E, era um dos poucos interlocutores do nosso filósofo Vicente Ferreira da Silva, o primeiro a publicar um livro sobre lógica no Brasil!

Prometo divulgar uma pouco do seu pensamento filosófico. Por ora, transcreverei um trecho de sua autobiografia, póstuma. Esta começa em 1905, uma ano antes dele nascer:

CADERNO DE LEMBRANÇAS

“Lá por 1905, mas nada há mais difícil do que relacionar tempo e eternidade, ou fixar-se simultâneo nos dois planos – os grandes pintores o fazem no olhar de suas figuras -, mas, enfim, por essa altura, comecei a tomar atenção no belo globo que rolava diante de nós, e a tentar descobrir lugar aonde me agradasse descer para principiar minha vida.

A meu lado, outros faziam o mesmo, e até discutíamos os méritos de um e outro ponto, mas sem voz, quanto me lembro, porque o nascer tira muito a memória, como, depois o vim a reconhecer, concluiu Platão.

Ou deu por concluído, quando talvez lhe fosse seu inicial pensamento: artifícios de escritor – e passemos adiante.

Quando, voluntária ou involuntariamente, quem o sabe, gostei de, a cada volta do globo, ver surgir de novo nossa península ibérica, deu-se – fenômeno curioso, o mesmo que, maquinado pelos homens, se veio a chamar zoom.

À outra volta, a península estava maior, só havia uma nesga de mar, de um lado e outro, e uma cadeia de montanhas, bem em relevo, a limitando para o norte; ou eu a estou a ver agora assim, porque, donde eu a contemplava, não havia nada que fosse acima ou abaixo: simplesmente era.

Na outra volta, a metade que posso dizer agora de meu lado direito desaparecera, como desaparecera toda a faixa do sul.

Fixava-me, de facto, no que aprendi mais tarde a chamar Portugal.

Curiosamente, a metade sul dele reapareceu na volta seguinte, como se quisessem que eu, mais esclarecido, pudesse escolher entre a tal de cima e esta aqui de baixo.

O mar era uma maravilha de verde, azul e oiro – e era o do Algarve, claro está.

Nunca mais o vi, nem na Piedade, nem na Rocha, e houve uma vez uma entremostra dele no Cabo Branco da Paraíba.

Onde o tinha, sempre que o queria, era nas páginas do Manuel Teixeira Gomes: o poeta, ali, se lembrava do que vira do céu e decerto a Ferragudo escolheu para iniciar sua existência na terra.

Não foi o meu caso: o norte tornou a aparecer, ainda mais próximo. E, para não cansar o meu leitor, se o houver – mas o que estou escrevendo o escrevo para mim e para quem amo -, o que, depois, surgiu, num máximo de proximidade, foi um encontro de rios, um que corria para oeste, outro que vinha, mais modesto, do sul e do lado e tinha por nome o de Águeda, de que talvez eu tivesse tomado a resolução de ter, como um de meus padroeiros, Santa Águeda.

Sou muito ecumênico, deve dizer-se, já que outro é Omolu, de origem nigeriana e também orixá do terreiro de Olga de Alaketu, minha Mãe de Santo em Salvador da Bahia.

Ao largo do rio, na beira de baixo, se alongava uma rua de casas baixas, havia um largo de altas faias, para um canto mais em altitude um cemitério (estou dando a tudo os nomes que mais tarde aprendi), que logo vi, de dentro, como lugar de volta ao céu em que pairava eu – e o foi para minha irmã Estefaninha Estrela, vejam só que nome, Estrela, como se lhe adivinhassem o destino.

Mas, embora estivesse muito interessado por tudo, o que me prendeu mesmo foi que, primeiro ao lado do Águeda, depois dele se afastando, corria uma larga estrada com, de um lado a outro, mimoseiras em flor.

Curiosamente, o aroma que delas vem, e todos os anos a Primavera o renova, esteja eu onde esteja em clima nosso (mas, na realidade, qual é o meu?), é sempre o de quando o senti pela primeira vez, sinal, ao que penso, de que morrer é só ida e que sempre o terei comigo por mais que o mundo acabe.

Para me regalar a vista, terei as papoulas, que logo noutra volta se mostraram em mato de giestas, com que depois se espantava, nas maias, o diabo, como se, coitado, no caso de existir, não o atraísse tal alegria de cor, como comigo aconteceria e ainda acontece.

Decidi, pelas faias e pelos rios, pelo amarelo e pelo rubro, pelo perfume cemitério de Santo Cristo, que era ali mesmo que eu queria nascer. (…)”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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