A humanidade sempre expulsou seus “loucos”

(Michel Serres, 1930-2019)

“O inimigo deve ser feio, pois o belo é identificado com o bom. Uma das características fundamentais da beleza sempre foi aquilo que a Idade Média chamava de “integritas“, isto é, ter tudo o que é exigido para ser um representante médio daquela espécie.

Os bárbaros, na Roma antiga, eram os que tinham, por exemplo, um defeito de linguagem, logo de pensamento.” (Umberto Eco)

Nesse contexto, Plínio, o Jovem, decide condenar à morte os cristãos que encontra na província da Bitínia, na atual Turquia, embora nada encontre de significativo nas suas atitudes. Ora, os cristãos não se dedicavam a delitos; ao contrário, buscavam praticar ações virtuosas. Porém, eles não se enquadravam no normal: negavam-se a realizar sacrifícios ao imperador; e esta obstinação em recusar uma coisa tão óbvia e natural estabelece sua diversidade.

A humanidade sempre expulsou seus “loucos”. O homem é tanto um deus quanto um lobo para o homem, dizia Michel Serres.

A proposta de Jesus, em Mateus 22, (“Ame o seu próximo como a si mesmo”) é pouco praticada, porque temos dificuldade em nos considerar semelhantes. Contrariamente, temos um amor “passional” por tudo que é separação, distinção, como classe, hierarquia, juízos.

Talvez explique sentimentos xenófobos, raciais, sociais, de gênero etc., embora não os justifiquem.

Isso nos remete à formação tribal original e aos cuidados com os nossos, prioritariamente.

O ser humano, com suas ações, insere-se no mundo. Todos queremos ser partícipes dele. Integramo-nos nas suas conexões.

Essas ações e decisões que assumimos no nosso cotidiano, felizmente, só no plano das aparências parecem restritas à repetição monótona de padrões, ritmos, códigos e comportamentos.

Daí surgem as novidades, as mudanças sociais, as tecnologias … Somos 8 bilhões de agentes rabiscando nosso amanhã, nublado de incertezas e perpetrado de imprevisibilidade.

Uma historinha:

“O encontro de Napoleão e Metternich em Dresden, em 1813, é uma encenação perfeita do momento sutil em que velhas estruturas dão lugar a novos modos de pensamento.

Tendo, no final da reunião, atirado o chapéu ao chão, após calculado gesto de fastio, o imperador francês esperava que o ministro austríaco o recolhesse, em deferência.

Este, entretanto, nem sequer se mexeu para dar o curso esperado à situação.

Napoleão não percebera, em sua perplexidade, que uma nova era já havia sepultado definitivamente a anterior, quando sua vontade imperial ditava os destinos do continente europeu.” (Joshua Cooper Ramo)

Os napoleões de hospício deveriam saber disso.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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