Danuza e o mundo sem juízo

(Danuza Leão, 1933-2022)

Ontem morreu Danuza Leão; tinha 89 anos; uma mulher que nunca foi diretamente protagonista da história, mas permaneceu sempre em primeiro plano. Desde seus 14 anos.

Ela se condenou a ser livre, após lições práticas da vida: “Ser livre é fazer só o que eu quero. Eu posso escolher ser escrava de um homem, mas é uma opção.”

“Quando se é jovem, a gente se apaixona fácil. Depois de uma certa idade, mais calejada, começa a fazer radiografias dos homens que conhece e já sabe mais ou menos o que pode acontecer.

Com mais idade ainda, você já faz tomografia: vê tudinho. Aí fica difícil, porque a paixão é não saber, é o mistério.”

Aos quinze anos, frequentava a casa do pintor Di Cavalcanti. Aos dezoito, foi a primeira modelo brasileira a desfilar no exterior. Aos vinte, casou-se com Samuel Wainer, um dono de jornal que tinha o dobro da sua idade.

Tempos depois, com três filhos pequenos, separou-se para viver um grande amor com Antonio Maria, um cronista e compositor pobre. Casaria, ainda, com o jornalista Renato Machado.

Aos quarenta, já avó, comandou as noitadas das boates famosas da época (Regine’s e Hippopotamus), o que lhe trouxe o título de “A grande dama da noite”.

Foi dona de butique, membro de júri de programa de auditório, relações-públicas, entrevistadora de TV, produtora de novela, cronista social e publicou 10 livros.

Recomendo sua autobiografia, “Quase Tudo”, de 2005, quando estava com 72 anos. O “quase tudo”, disse, ficava por conta do que ainda viria.

Perdeu seu filho, Samuca, jornalista como o pai, em um acidente de carro quando voltava de Macaé, onde fora cobrir a morte de 14 colegas por causa da queda de um avião que os levaria a uma plataforma de petróleo. Era 1984.

Samuel Wainer, seu amor duradouro, morrera em 1980; seu pai, em 1983, e, sua irmã, Nara Leão, em 1989. “Período das trevas”, dizia.

Selecionei um pequeno texto do seu livro “Danuza & sua visão de mundo sem juízo”:

O SEGREDO

“Dentro de cada coração há um segredo que jamais será dito à melhor amiga, nem ao padre nem ao analista. Não que seja uma coisa feia, mas é alguma coisa que não poderá, jamais, ser dividida com ninguém, uma coisa só sua.

Pode se tratar de um fato que aconteceu, uma linda história de amor ou apenas um delírio de imaginação, mas dele ninguém vai saber, nunca.

Virou uma mania contar tudo que nos acontece; por não conseguir guardar um segredo ou para pedir uma opinião, nem que seja para fazer exatamente o contrário. Mas as sérias de verdade, que vêm lá do fundo, essas não se conta.

A gente tem a mania de achar que certas coisas só acontecem com mulheres muito bonitas e homens muito interessantes: quanto engano.

Na vida da mais humilde doméstica da periferia podem ter acontecido coisas que fariam inveja à mais bela e cobiçada mulher, que talvez por cuidar tanto de sua beleza e de sua elegância nunca teve tempo de prestar atenção a seu próprio coração.

Quando estiver num lugar cheio de gente, comece a prestar atenção nas pessoas, uma atenção diferente, cuidadosa. Vai perceber que a mais escandalosamente linda das lindas – aquela cujo decote vai até o umbigo, e cuja fenda da saia vai até a cintura – não está vestida dessa maneira para verdadeiramente conquistar um homem, mas para conquistar todos eles; e todos, nesse caso, quer dizer nenhum.

Mas em algum canto dessa festa vai haver uma mulher normal, de uma idade normal, conversando com uma amiga; uma daquelas mulheres que se olha e não pensa nada, a não ser que ela namorou, noivou, casou, teve filhos, foi fiel e que sua vida foi de um tédio atroz.

Pois é aí que pode – e geralmente está – o engano.

Essas podem ter tido desejos intensos e inconfessáveis, e ter vivido grandes e trepidantes histórias de amor; e quanto mais castas, maior a quantidade.

Vamos deixar bem claro que desejar não é ter cometido nenhuma infidelidade, por isso nada mais natural que isso tenha acontecido com nossas mães, nossas tias, nossas avós.

Talvez, na época pré-Freud, elas não conseguissem identificar o que estava acontecendo: o medo que alguns homens lhes causavam, o pânico de ficar sozinha na sala com alguns deles e a aversão intensa que outros lhes provocavam, o que, visto sob uma ótica mais moderna e esclarecida, poderia ser medo não deles, mas do desejo delas próprias; medo de se atirar no pescoço de um cunhado ou do filho do farmacêutico, que pela idade poderia ser seu próprio filho.

Quando estiver numa daquelas reuniões de família com aquelas tias que nunca perderam uma missa em toda sua existência, ofereça uma bebidinha doce – um licor – e puxe pela língua. Ela não vai dizer tudo, até porque não sabe direito, mas não vai ser difícil para você desvendar os mistérios que se escondem naquele coração.

E se quiser ser bem pérfida, puxe pela vida das outras, procure, sutilmente, saber dos podres da família. Ou vai dizer que na sua nunca teve nenhum?

E quando olhar para sua avó, tão distinta, com os cabelos tão brancos, com um ar tão distante, imagine as loucuras que não devem ter passado pela cabeça dela – ou que talvez estejam passando ainda.

Eu tenho o meu segredo. Quem não tem?”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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