A fome como arma

Garantimos a segurança alimentar de um sexto da população mundial.” (discurso do presidente na Cúpula das Américas, em 10 de junho 2022).

Enquanto isso, cerca de 33 milhões de brasileiros vivem em situação de fome, 14 milhões a mais que em 2020.

“O suprimento de alimentos de milhões de ucranianos e milhões de outras pessoas em todo o mundo agora é literalmente refém dos militares russos para conseguir o que sua invasão não foi capaz de fazer: quebrar o espírito dos ucranianos.” (Antony Blinken)

Essas notícias me lembraram os extermínios no século passado, nos quais a fome foi uma arma silenciosa e devastadora. Uma das armas.

“Despeço-me de você antes de morrer. Esta morte me assusta tanto, porque eles atiram as criancinhas ainda vivas dentro de valas comuns.” (carta de uma menina judia de 12 anos a seu pai, na Bielorrússia)

Sabemos que as diferenças entre o nazismo e o stalinismo são apenas de forma e discurso. Enquanto o primeiro pregava uma transformação radical da sociedade, apocalíptica, a ser realizada por homens que acreditavam que a determinação e a raça garantiriam o futuro, os líderes stalinistas se diziam “cientistas da história” que poderiam moldá-la conforme os interesses do povo.

“Os pássaros da morte estão no zênite.

Quem virá libertar Leningrado?

Ela ainda vive, ela tudo ouve:

Como no fundo úmido do Báltico

Seus filhos gemem durante o sono;

Como seu grito: ‘Queremos pão’ vem do abismo,

E vai até o sétimo céu.

Mas o firmamento é impiedoso;

A morte é que espia da janela.” (Anna Akhmatova, setembro de 1941)

Como o povo se autodestrói, escolhendo ou permitindo que loucos o guiem!

“Hitler é o verdadeiro filho de Deus. Ele foi enviado por Deus para nos salvar.” (citação no documentário Minha Vida na Alemanha de Hitler)

“Tudo flui, tudo muda.

Não é possível embarcar no mesmo

trem de prisioneiros duas vezes.” (Vassili Grosman)

Lembremos do Holodomor, quando Stálin matou de fome no mínimo 3 milhões de ucranianos. (https://balaiocaotico.com/2021/03/20/holodomor/)

Entre 1933 e 1945, os regimes nazista e soviético assassinaram cerca de 14 milhões de civis e prisioneiros de guerra – mais da metade morreu porque não tinha o que comer. Neste número não se incluem soldados na ativa.

Essas pessoas foram vítimas de uma política assassina, não de contingências de guerra.

Só no período chamado de Grande Terror de Stálin (1937 e 1938), cerca de 700 mil soviéticos foram assassinados, para o delírio do ditador.

Em 1939, quando Stálin consentiu que Hitler iniciasse a Segunda Guerra Mundial, invadindo conjuntamente a Polônia, morreram cerca de 200 mil cidadãos poloneses. Estranho é que o Ocidente declarou guerra à Alemanha, mas ignorou a agressão simultânea dos soviéticos, que viraram “aliados”.

O holocausto – extermínio sistemático dos judeus – se deu basicamente sobre os judeus dos países ocupados – na Alemanha eles representavam apenas 0,25% da população alemã, no início da Guerra. Dos seis milhões de judeus assassinados, 165 mil eram alemães.

No processo de estigmatização dos judeus, preparatório para o planejado extermínio, os nazistas foram influenciados pela política da supremacia branca e pelo sistema legal norte-americana.

As leis de imigração e antimiscigenação dos EUA deram ao establishment legal nazista a sensação de permanecer dentro do limites da jurisprudência respeitável.

O livro de James Q. Whitman, “Hitler’s American Model”, indicação do amigo André Nardy, detalha esse aspecto.

“Hitler não queria apenas erradicar os judeus; ele pretendia também destruir a Polônia e a União Soviética enquanto nações, exterminar suas classes dominantes e matar 10 milhões de eslavos. Se a guerra da Alemanha contra a União Soviética tivesse transcorrido como o planejado, 30 milhões de civis teriam morrido de fome no primeiro inverno, e mais 10 milhões seriam expulsos, assassinados ou escravizados.” (Timothy Snyder)

Hitler aprendeu muito com as políticas de extermínio em massa dos soviéticos, ocorridas antes da Guerra.

Na Ucrânia, Bielorrússia e em Leningrado, o regime stalinista fuzilara ou matara de fome cerca de 4 milhões de pessoas nos 8 anos antes da Guerra. Hitler, aplicado (determinado!), conseguiu matar de fome e fuzilar ainda mais na metade do tempo!

“O assassinato em massa de pessoas e nações, que caracterizou o avanço da União Soviética na Europa, não é característica nova de sua política de expansionismo.

Em vez disso, ele foi, por longo tempo, aspecto peculiar da própria política interna do Kremlin – política da qual os atuais mandantes têm amplos antecedentes nas operações da Rússia tsarista.

Na realidade, trata-se de passo indispensável no processo de ‘união’ com a qual os líderes soviéticos ansiosamente esperam produzir o ‘Homem Soviético’, a ‘Nação Soviética’ e, para a consecução de tal objetivo da nação unificada, os líderes do Kremlin, com satisfação, destruirão as nações e as culturas que por muito tempo habitaram a Europa Oriental.” (Raphael Lemkin, 1953)

Os delírios dos “líderes” continuam, tanto no aspecto expansionista quanto no da dominação das mentes fracas.

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la.” (Edmund Burke)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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