Capitalismo do desperdício

(David Graeber, 1961-2020)

Há uma potencial crise à vista, além do marasmo atual. O capitalismo, muito brioso, tem sobrevivido a crises cíclicas e a algumas extemporâneas. Quase todas previsíveis e motivadas pela ganância e indiferença com os que não estão no jogo.

Esse rio caudaloso tem deixado muitos à margem; essas margens são cada vez mais erodidas e vão assoreando este rio, até torná-lo inavegável.

Os participantes do sistema precisariam olhar ao redor, além do próprio ego. Abandonar o Desejo como motor da vida econômica e pessoal e construir uma nova economia, de partilha e de inclusão, nos termos de Eduardo Moreira.

É necessário que abramos os olhos para a realidade e enxerguemos as coisas como estão, sem aquele otimismo infundado de Pangloss, para quem “… infortúnios particulares fazem o bem geral”.

Essa visão integral não é algo novo, embora agora reforçada com os compromissos da bandeira ESG.

Peter Drucker já anunciava que as pessoas deveriam buscar formas de serem úteis para a sociedade, além das próprias empresas, ao invés de se focarem unicamente no próprio sucesso.

Sobre as empresas, aposto dizer que há uma crise de gestão na sua maioria. Não vejam essa afirmação como arrogância, por favor.

Há um desvio do que realmente importa na condução de um negócio; um afastamento do básico, que continua indispensável: preparar-se para o futuro, prevendo-se (na medida do possível) problemas concorrenciais, estruturais, conjunturais e de irrupções tecnológicas, sempre atento às reais necessidades dos clientes.

E, atuar intensamente no presente visando a melhoria dos indicadores operacionais e financeiros e evitar-se todo tipo de desperdício. O consumidor nem sempre está disposto a pagar por esse desperdício, dizia W. Edwards Deming.

“O desempenho administrativo deve ser medido pela potencialidade de manter a empresa no mercado, de proteger os investimentos feitos, de assegurar dividendos e empregos futuros mediante a melhora dos produtos e serviços previstos, e não pelos dividendos distribuídos trimestralmente.

Não é mais socialmente aceitável jogar os empregados no rol dos desempregados. A perda de mercado e o desemprego resultante não são predeterminados. Não são inevitáveis. São obra do homem.

A causa para o mau desempenho de uma empresa … é, pura e simplesmente, a administração inadequada.” (Deming)

Para ilustrar o tema do desperdício, cito um livro de David Graeber, antropólogo anarquista, morto recentemente: “Bullshit jobs“.

Graeber distingue “shit jobs“, trabalhos socialmente necessários porém mal pagos e exercidos em condições ruins, de “bullshit jobs“, aqueles que não produzem nada de útil para o mundo. Neste, o valor agregado social é zero ou negativo.

O curioso é que o capitalismo deixa que esse tipo de trabalho exista!

Ele classifica os “bullshit jobs” em cinco categorias:

“a) Flunkies, cuja função é fazer os outros sentirem-se importantes; b) goons, que machucam ou enganam terceiros a mando de seus empregadores; c) duct tapers, que procuram soluções a problemas desnecessários que de fato não resolvem o problema; d) box tickers, cuja função é criar a aparência de que algo útil está sendo feito quando não está; e) taskmasters, que criam trabalho inútil para os demais.” (Graeber)

Outro desperdício tolerado é o da ostentação por parte de executivos; tudo pago pela sociedade.

Retomando o tema do último post, John Stuart Mill repetia Jean-Baptiste Say: “O que produzimos, ou desejamos produzir, é sempre uma utilidade.

É o que deveria ser, nas empresas. Imaginem o desperdício nos governos!

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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