Uma visão sobre o viver e morrer

(Elisabeth Kübler-Ross, 1926-2004)

Continuo o tema abordado num post anterior (https://balaiocaotico.com/2022/05/11/a-dor-educa/), com um depoimento de Elisabeth Kübler-Ross, que abre seu livro “A Roda da Vida”.

Ela encoraja o “seguir em frente” e perceber a relevância de cada minuto que a vida nos entrega. Pessoalmente, tenho pensamentos diferentes sobre “acaso” e “destino”, que não importam. O objetivo é trazer perspectivas várias para que pensemos a respeito.

NADA ACONTECE POR ACASO

Há anos tenho sido perseguida por uma certa má reputação. Na verdade, tenho sido perseguida por pessoas que me vêem como Aquela Senhora que Fala Sobre a Morte e o Morrer. Acreditam que o fato de ter passado mais de três décadas fazendo pesquisas sobre a morte e a vida depois da morte faz de mim uma especialista no assunto. Acho que não compreenderam bem.

O único fato incontestável em meu trabalho é a importância da vida.

Sempre digo que a morte pode ser uma das maiores experiências que se pode ter. Se você vive bem cada dia de sua vida, não tem o que temer.

Talvez este, que é certamente meu último livro, torne isso mais claro. Poderá também despertar algumas novas perguntas e talvez até mesmo fornecer respostas.

Hoje, aqui sentada nesta sala cheia de flores de minha casa em Scottsdale, Arizona, os últimos setenta anos de minha vida me parecem extraordinários.

Aquela menina criada na Suíça que eu fui jamais poderia prever, nem em seus sonhos mais extravagantes – e eles eram bastante extravagantes -, que acabaria sendo a autora mundialmente famosa de Sobre a Morte e o Morrer, um livro que, ao explorar o trecho final da vida, lançou-me no centro de uma controvérsia médica e teológica.

Nem muito menos poderia imaginar que em seguida passaria o resto de seus dias explicando que a morte não existe.

Com os pais que tive, eu deveria ter sido uma boa e piedosa dona de casa suíça. Em vez disso, acabei vindo para o Sudoeste norte-americano e sendo uma psiquiatra obstinada, escritora e conferencista, que se comunica com espíritos de um mundo onde acredita haver muito mais amor e glória do que no nosso.

Acho que a medicina moderna se tornou uma espécie de profeta que oferece uma vida sem dores. Isso é absurdo. A única coisa que conheço capaz de curar realmente as pessoas é o amor incondicional.

Alguns dos meus pontos de vista são pouco convencionais. Por exemplo, ao longo dos últimos anos, sofri uma meia dúzia de derrames.

Meus médicos primeiro me fizeram advertências e em seguida me imploraram que deixasse de fumar, tomar café e comer chocolate. Mas ainda me permito esses pequenos prazeres. Por que não? É a minha vida.

É como sempre tenho vivido. Se sou independente, aferrada às minhas opiniões e modos de ser, se estou um pouco fora dos padrões, e daí? É assim que sou.

Isoladas, as peças às vezes parecem não se encaixar bem umas nas outras.

Mas aprendi com a experiência que nada acontece por acaso na vida. Coisas que aconteceram comigo tinham de acontecer.

Era meu destino trabalhar com doentes terminais. Não tive escolha quando deparei com meu primeiro paciente de AIDS.

Achei que precisava viajar mais de quatrocentos mil quilômetros a cada ano para coordenar seminários que ajudavam as pessoas a lidar com os aspectos mais dolorosos da vida, da morte e da transição de uma para outra.

Mais tarde em minha vida, senti o impulso de comprar uma fazenda de trezentos acres numa região rural da Virgínia, onde criei meu próprio centro de tratamento, fazendo planos de adotar bebês contaminados pela AIDS.

E, embora seja difícil admitir, vejo que era meu destino ser obrigada a sair daquele lugar idílico.

Em 1985, depois de anunciar minha intenção de adotar bebês contaminados pela AIDS, tornei-me a pessoa mais desprezada de todo o vale de Shenandoah e, apesar de ter logo abandonado meus planos, havia um grupo de homens que fez de tudo, exceto me matar, para eu ir embora.

Disparavam tiros em minhas janelas e alvejavam meus animais. Enviavam uma espécie de mensagem que tornava perigosa e desagradável a vida naquele lugar deslumbrante. Mas ali era o meu lar e eu teimosamente me recusei a deixá-lo.

Havia me mudado dez anos antes para a fazenda, que ficava em Head Waters, na Virgínia. A fazenda concretizava todos os meus sonhos e enterrei ali todo o dinheiro que ganhara com livros e conferências para transformar esses sonhos em realidade.

Ergui ali minha casa, um chalé nas proximidades e uma casa de fazenda. Construí um centro de tratamento onde realizava seminários, o que me permitiu reduzir meu frenético programa de viagens. Estava planejando adotar bebês contaminados pela AIDS, que assim poderiam desfrutar dos dias que lhes restassem em meio ao esplendor da vida ao ar livre no campo.

A vida simples da fazenda era tudo para mim. Nada era mais relaxante depois de uma longa viagem de avião do que chegar ao caminho sinuoso que levava à minha casa.

O sossego da noite tinha um efeito mais calmante do que o de uma pílula para dormir. Acordava com uma sinfonia de vozes de vacas, cavalos, galinhas, porcos, burros, lhamas… toda a barulhenta bicharada dando-me boas-vindas.

Os campos desdobravam-se até onde minha vista podia alcançar, cintilando sob o orvalho fresco da manhã. Árvores antigas ofereciam sua sabedoria silenciosa.

Havia trabalho de verdade a fazer. Minhas mãos ficavam sujas. Tocavam a terra, a água, o sol. Trabalhavam com a matéria-prima da vida.

Minha vida. Minha alma estava ali.

Então, no dia 6 de outubro de 1994, puseram fogo na minha casa.

Queimou inteira e foi considerada perda total. Todos os meus papéis foram destruídos. Tudo o que eu tinha transformou-se em cinzas.

Eu estava correndo pelo aeroporto de Baltimore, tentando pegar um avião de volta para casa, quando recebi a notícia de que tudo estava em chamas.

A pessoa amiga que me contou isso insistiu que eu não fosse direto para lá, pelo menos por enquanto. Mas pela minha vida afora já me tinham dito para não seguir a carreira de médica, para não falar com pacientes terminais, para não começar um hospital especial para doentes de AIDS na prisão e, a cada vez, eu teimosamente fiz o que achava certo, em vez de fazer o que se esperava que eu fizesse. Dessa vez não foi diferente.

Todo mundo enfrenta momentos difíceis na vida. Quanto mais momentos difíceis enfrentamos, mais crescemos e aprendemos.

O avião seguiu zunindo. Em breve, eu estava no banco de trás do carro de um amigo, correndo pelas estradas escuras do campo. Era quase meia-noite.

A uma distância de alguns quilômetros, vislumbrei os primeiros sinais da fumaça e das chamas. Destacavam-se contra o céu inteiramente negro. Dava para ver que era um grande incêndio.

De perto, a casa, ou o que restava dela, mal se distinguia através das labaredas. Comparei a cena com estar no meio do inferno. Os bombeiros disseram que nunca tinham visto nada igual. O calor intenso manteve-os a distância a noite toda e pela manhã adentro.

Bem tarde, naquela primeira noite, procurei abrigo numa fazenda vizinha que costumava receber hóspedes. Preparei uma xícara de café, acendi um cigarro e refleti sobre aquela minha tremenda perda pessoal na fornalha enraivecida que um dia fora a minha casa.

Era devastadora, atordoante, acima de qualquer compreensão. A lista incluía os diários que meu pai escrevera sobre a minha infância, meus papéis e diários pessoais, umas vinte mil anotações relacionadas à minha pesquisa sobre a vida depois da morte, minha coleção de arte nativa norte-americana, fotografias, roupas… tudo.

Por vinte e quatro horas, fiquei em estado de choque. Não sabia como reagir, se chorava, gritava, sacudia os punhos para Deus ou apenas ficava pasma com a dureza da mão do destino.

As adversidades somente nos tornam mais fortes.

As pessoas sempre me perguntam como é a morte. Digo-lhes que é sublime. É a coisa mais fácil que terão de fazer.

A vida é dura. A vida é luta.

Viver é como ir para a escola. Dão a você muitas lições para estudar. Quanto mais você aprende, mais difíceis ficam as lições.

Aquela experiência foi uma dessas lições. Já que não adiantava negar a perda, eu a aceitei. O que mais poderia fazer? De qualquer forma, era só um monte de coisas e, mesmo sendo importantes ou tendo valor sentimental, nada que pudesse ser comparado ao valor da vida.

Eu estava ilesa. Meus dois filhos, crescidos, Kenneth e Barbara, estavam vivos. Um bando de idiotas tinha conseguido queimar minha casa com tudo o que estava dentro, mas não tinham conseguido me destruir.

Quando aprendemos as lições, a dor se vai.

Esta minha vida, que de certa maneira começou pelo mundo afora, foi muitas coisas – mas nunca foi fácil. Isto é um fato, não uma queixa.

Aprendi que não há alegria sem dificuldades. Não existe prazer sem dor. Saberíamos o que é o bem-estar da paz sem as angústias da guerra? Se não fossem as doenças, será que perceberíamos que nossa humanidade está ameaçada? Se não houvesse a morte, apreciaríamos a vida? Se não existisse o ódio, saberíamos que nosso objetivo supremo é o amor?

Como gosto de dizer: “Se protegêssemos os cânions dos vendavais, nunca veríamos a beleza de seus relevos.”

Confesso que aquela noite de outubro há três anos foi uma dessas ocasiões em que é difícil encontrar beleza. Mas no decorrer de minha vida já estivera em encruzilhadas semelhantes, buscando no horizonte algo quase impossível de se enxergar.

Nesses momentos, ou você cai no negativismo e procura atribuir a culpa a alguém ou opta pela recuperação e por continuar a amar.

Como acredito que o único propósito de nossa existência é crescer, não tive problemas para fazer uma escolha.

Assim, alguns dias depois do incêndio, dirigi-me à cidade, comprei uma muda de roupas e preparei-me para o que viria em seguida.

De certa forma, esta é a história de minha vida. 

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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