A realidade se antecipa à ficção?

(Conceição Evaristo, 1946)

Para Mark Twain, a diferença entre a verdade e ficção é que a ficção faz mais sentido.

Relendo “Becos da Memória”, de Conceição Evaristo, selecionei uma de suas “escrevivências”.

“As histórias são inventadas, mesmo as reais, quando são contadas.” (Conceição Evaristo)

Bondade era um personagem diferente, não tinha casa, “morava em lugar algum, a não ser no coração de todos. Vivia intensamente cada lugar em que chegava. Cada casa, cada pessoa, cada miséria e grandeza a seu tempo certo.”

Maria-Velha era uma mulher dura; quando encontrou seu homem já tinha uma larga e longa coleção de pedras, que carregava no coração; por isso, sorria só para dentro.

“Tempos houve em que ela ria, sorria, gargalhava até; tempo criança.”

Maria-Nova crescia ouvindo histórias de Maria-Velha e do Tio Totó. Queria saber o que era a vida. Essa curiosidade alimentava seus dias.

Bondade era uma fonte de histórias, alegres e tristes. Seu jeito e o fato de, nas suas andanças, viver um pouco a realidade de todos, tornaram-no depositário de muitas experiências.

Maria-Nova o encontrou na favela e pediu que lhe contasse uma história triste.

“Bondade, então começou a contar:

Maria-Nova, em um barraco desses há uma menina de sua idade. Quantos anos você tem? Treze. Isso mesmo, treze anos.

A menina sonha. Infantis desejos, guardar na palma das mãos estrelas e lua. Armazenar chocolates e maçãs. Ter patins para dar passos largos …

A mãe da menina sonha leite, pão, dinheiro. Sonha remédios para o filho doente, emprego para o marido revoltado e bêbado. Sonha um futuro menos pobre para a menina.

Outro dia, veio aqui o fornecedor da fábrica de cigarros, suprir os botequins da favela.

O homem, diferente de nós, fala grosso com a mão no bolso.

A mãe da menina fica a olhar a mão do moço sempre no bolso. Os dois se olham. Ela já sabe do vício do moço. O moço já sabe das necessidades da mãe da menina.

O moço é rápido, direto, franco e cruel.

‘Quanto você quer, mulher?’ A mãe da menina não responde.

O moço tira um pacote de notas.

A mãe chama a menina: ‘Nazinha, acompanhe o moço!’

O homem pega a menina pela mão e segue outros rumos. Não mais o rumo da fábrica, era preciso fugir, pegara o dinheiro do patrão.

A mãe da menina ajunta os trapos, o filho doente, o marido revoltado e bêbado. Procura outros caminhos, também era preciso fugir.”

Ouvi, dia desses, Maria Fernanda Cândido dizer que a vida é um sim, uma aceitação. Entendi o que quis dizer naquele contexto: é necessário que façamos a paz conosco para que a vida faça sentido.

Entretanto, às vezes, o que dá sentido à vida é um grande NÃO!

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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