Poesias, quase preces

(Adriana Zarri, 1919-2010)

Adriana Zarri foi teóloga e poetisa. Morreu em 2010, aos 91 anos. Tinha uma forma quase mística de se expressar.

“Por que você não vem/ nessas noites solitárias, / quando o vidro brilha/ o último vermelho do pôr do sol?

Por que você não vem, nestas noites silenciosas/ quando não vem mais barulho; / e, na calma ainda, / apenas respira a respiração?

Por que não se senta à minha mesa/ quando, à noite, as cantinas/ estão postas para o jantar?/ Colocarei a toalha de mesa mais bonita/ com as flores colhidas no jardim;/ e o gato virá ronronando/ de joelhos”

Para Felice Cimatti, “há outra maneira, muito mais simples e cotidiana, de entender essa oração; essas são palavras que saem da boca quase sem pensar, que acompanham nossos gestos diários, um murmúrio que não diz nada em particular, como o das crianças quando brincam sozinhas. Uma oração que não tem nada a pedir, como se o mundo estivesse bem como está. Como se as palavras tivessem perdido toda a presunção e se limitassem a acompanhar o mundo, sem querer defini-lo e muito menos julgar.”

Esse “você”, é um “você” que só pode nos tirar de nós mesmos, em direção ao mundo. E uma vez no mundo, é o próprio mundo que fala em nossas palavras.

Estou bem com isso

“Teólogos, não se preocupem
em imaginar um paraíso tão etéreo
que eu não queira
mais ir para lá.
E vocês, pintores,
não pintem as asas dos anjos
em redemoinhos de azul sem sangue,
mas pintem esta terra
com suas brumas e suas nuvens,
suas estações e suas estradas
cimentadas com lama.

O sol se pondo no nevoeiro
está bem para mim;
a lua que desaparece atrás da montanha
está bem para mim.
Primavera, verão, inverno, neve:
a terra verde, a terra amarela, a terra branca,
estão bem para mim.” 

“Não me dê nada, Senhor,
eu não preciso.

Não te pedirei pão,
nem roupas,
nem boa saúde;
nem a alegria de você.

Não te pedirei sol,
nem neblina,
nem fogo aceso,
nem toalha sobre a mesa;
mas apenas uma mesa
para se sentar
nas noites de inverno.

Peço-te apenas mãos vazias,
mãos vazias,
mãos quentes:
como um ninho de pássaro
onde podes descansar.”

Quando a morte estava próxima, escreveu: “Sobre o túmulo, não coloquem o frio mármore/ coberto com as mentiras de sempre/ para consolo dos vivos./ Deixem apenas a terra/ que escreva na primavera uma epígrafe de erva.”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

Um comentário em “Poesias, quase preces

  1. Adriana Zarri,que dizer de tão belas poesias, lirismo puro. A poetisa fala com a alma. Esse é o tipo de poesia que ❤ amo. Lírica. Ela vai ao fundo de nosso âmago cortante como punhal. Fácil compreensão. Não sou adepta de poesias que não conseguem alcançar todo tipo de público. A poesia é tão Sagrada que soa aos nossos ouvidos como música suave que corta nosso peito como punhal sagrado. Como poetisa que sou não merece um só retoque e repetição dos poemas de Adriana Zarri. Fala tudo em todos os versos. O lirismo não é pra todo poeta e poetisa. É preciso alma sensível e coração aberto para ser lírico. Parabéns Dorgival Soares por escolher essa estrela de primeira grandeza que é Adriana Zarri para nos relembrar seus poemas.

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