Poderemos escolher como será nosso fim?

(imagem: Pedro Mascaro)

Inebriados, o capitalismo selvagem nos leva à destruição. Antes do fim da nossa espécie, porém, teremos o prazer de devastar o ambiente, como a um inimigo; revirar todas as reservas até deixar as entranhas da Terra à mostra; cavucar o solo marinho à busca de minérios; deixar nossa marca geológica (lixo) em todos os espaços; poluir águas, terras e ar …

“Deus perdoa sempre, o homem perdoa às vezes e a natureza, nunca! A natureza cobra fatura quando ela é maltratada porque ela não se deixa morrer sem levar junto aqueles que a mutilaram”, disse ontem a ministra Carmen Lúcia.

O crescimento econômico (e tudo que ele implica: sucesso, conforto material, desigualdade social, esbanjamento etc.) é uma proliferação cancerígena e sem rumo, diz Byung-Chul Han.

“Vivemos atualmente um delírio de produção e de crescimento que se parece com um delírio de morte. Ele simula uma vitalidade que oculta a proximidade de uma catástrofe mortal.

A produção se assemelha cada vez mais a uma destruição.

É possível que a autoalienação da humanidade tenha atingido um grau tal que ela experimentará seu próprio aniquilamento como um gozo estético.” (Byung-Chul Han)

O conservador Eric Voegelin (1901-1985), na sua busca etiológica (Etiologia: estudo das causas) da história da humanidade, achava que ela seria movida por um princípio de Ordem.

Ordem, para ele, significava a “ordem do ser transcendental com que a vida pessoal e social deve entrar em sintonia a fim de realizar-se plenamente”.

Via um movimento geral da vida humana numa direção dotada de sentido, à luz da qual se entenderiam os conflitos e eventos políticos. A história seria a luta pela sintonia com os parceiros do ser, uma luta pela verdade em relação a Deus, aos seres humanos, à sociedade e ao mundo.

É um pensamento assemelhado ao de Teilhard de Chardin, que tentava harmonizar “criação com evolução”, com a noção de que o processo evolutivo possui um sentido. Esse sentido culminará no ponto “Ômega”, momento em que toda a natureza retornará a Deus e todos os homens promoverão a união por meio da energia do amor.

Já acreditei nessa “espiral” de crescimento com depuração. Atualmente admito ver a maligna ação humana num desesperado impulso de morte. A crença num processo de “linhas tortas” nos anestesia, assim como a “fé” no iluminista potencial científico.

Os psicanalistas me perdoem pela analogia, mas vejo a história humana como a prevalência da “pulsão de morte”, definida por Freud.

Ele associou Eros e Thânatos (prazer e morte, simplificadamente), ao buscar na origem da vida o primeiro evento produtor de tensões, de modo que haveria uma aspiração de retorno ao inorgânico:

“Uma pulsão seria uma tendência, própria do organismo vivo, de reconstituição de um estado anterior, o qual, sob a pressão de forças externas perturbadoras, o ser animado teve de abandonar (…) (Freud)

A finalidade da pulsão, que empiricamente se apresenta como satisfação, isto é, descarga de energia, busca reproduzir o estado anterior ao surgimento dessa elevação da tensão. A satisfação é um retorno ao status quo ante, explica Renato Mezan.

Para Arthur Schnitzler, a humanidade atua como um bacilo, numa luta eterna contra o divino.

Dizia que crescimento e autodestruição são uma coisa só.

“Não seria impensável que a humanidade signifique uma doença para algum organismo maior, na condição de um todo inconcebível por nós, no interior do qual ela encontra as condições, necessidades e o sentido de sua existência.

Também não seria impensável que ela procure aniquilar tal organismo e, finalmente, quanto mais se desenvolve, que ela deva aniquilá-lo – justamente como os bacilos aspiram aniquilar o indivíduo humano ‘doente’.” (Schnitzler)

Com a pandemia, houve uma expectativa de um “novo” normal. Mas, estamos retornando ao normal habitual, “normalidade que foi conquistada ao elevado custo de uma grande vulnerabilidade e da possibilidade de um colapso nas mãos de uma gama cada vez mais ampla de eventos”, segundo John Casti.

Até a ameaça nuclear voltou à normalidade.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

Um comentário em “Poderemos escolher como será nosso fim?

  1. Deus perdoa sempre, o homem perdoa às vezes e a natureza, nunca! A natureza cobra fatura quando ela é maltratada porque ela não se deixa morrer sem levar junto aqueles que a mutilaram”, disse ontem a ministra Carmen Lúcia.. com certeza . Somos o maior predador do nosso habitat. Nenhum outro ser de qualquer espécie destrói sue ambiente natural. Quando se falava no buraco na camada de ozônio era motivo de críticas. Temos sentido literalmente na pele os efeitos desse desastre ecológico ainda contestado por alguns incrédulos. A natureza tem reagido bravamente com tempestades, calor excessivo ,pandemias ,vulcões, tempestades que tem varrido cidades inteiras entre outros . Estamos sem dúvida pagando a conta de nossa negligência ecogica. E não para por aí. A extração do ouro em nossas florestas , o desmatamento morte do rios. Esse é o legado que estamos deixando para nossos filhos e netos.

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