O que o mito de Dioniso nos diz hoje?

(O Triunfo de Baco, Velázquez)

A população mundial cresce sem freios, com a xenofobia entre seus efeitos. O estrangeiro é rejeitado, alegadamente por sua alteridade, além dos aspectos econômicos.

O diferente é visto como um perigo ou, pelo menos, requer um esforço para adaptabilidade e convivência.

As sociedades têm seus regramentos – reflexo e condicionamento dos costumes – que são mantidos pelos que as representam. O esforço dos conservadores é pela manutenção da tradição; o novo, em termos sociais, é desagregador, podendo ser desestabilizador.

Bom, o mito de Dioniso tem a ver com isso, com a bagunça que pode acontecer com o que é definido como padrão, do ponto de vista moral e comportamental, que respalda o Poder (estatal e religioso).

Dioniso era filho de uma mortal, Sêmele (filha de Cadmo, rei de Tebas), com quem Zeus teve uma longa relação. Zeus se apresentava a Sêmele sob forma humana, todas as noites. Ela sabia que aquele era Zeus; insistia para que ele aparecesse na sua forma de deus. Mulher sempre consegue: Zeus apareceu-lhe, finalmente, em todo seu esplendor, fulminante. Sêmele morreu: há quem diga que foi de susto; outros, que foi queimada; não importa, morreu.

Ela estava grávida de Dioniso. Zeus não hesita: retira-o do corpo de Sêmele e o costura na própria coxa. Quando nasce, é perseguido por Hera.

Pulando alguns episódios de sua vida, eis que ele volta a Tebas, que era então governada por Penteu, filho de uma irmã de sua mãe, Ágave. Penteu não sabe quem é Dioniso, que surge como um estrangeiro, um vagabundo.

Penteu era todo certinho: tinha uma forma “aristocrática” de comportamento, autocontrole, capacidade de raciocinar antes de agir, dominava seus desejos e paixões (atitude que implicava um certo desprezo pelas mulheres, vistas como seres que se abandonam com facilidade às emoções) etc.

Como monarca, Penteu nutria a ideia de que seu papel era manter uma ordem hierárquica em que os homens estão no lugar que lhes cabe, as mulheres ficam em casa com seus sabidos “afazeres”.

Como disse, Dioniso vem revirar tudo, principalmente o papel das mulheres e os costumes sociais vigentes.

Ele introduz um fermento que abre uma dimensão nova no dia-a-dia de cada um: “enlouquece’ as mulheres de Tebas e rompe-se o estatuto de esposas e mães das matronas, que tinham um comportamento oposto ao das mulheres da Lídia que o acompanhavam.

De repente, aquelas mulheres exemplares largam os filhos, deixam inacabado o trabalho doméstico, abandonam o marido e vão para os bosques. Lá, entregam-se a loucuras de todo o tipo …

Penteu soube e ficou irado. Tenta prendê-lo e às suas seguidoras. O deus rompe as amarras e correntes.

Finalmente, Dioniso o convence a conhecer – a ver – o que as mulheres estão fazendo. Veste-se com roupas femininas e, no bosque, sobe num pinheiro.

Em certo momento, é descoberto. As mulheres, lideradas por sua mãe, Ágave, o derrubam – o horror se projeta na face daquele que não soube reconhecer o lugar do outro – e o despedaçam, esquartejam-no.

A rigor, Dioniso e Penteu, primos, são semelhantes, com trajetórias diferentes. A história individual se transformou em “cultura”, que os distingue.

Dioniso fazia o que lhe parecia certo, que era o oposto do “certo” de Penteu. E aí, como se resolve? Aceitam-se ou se matam?

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

2 comentários em “O que o mito de Dioniso nos diz hoje?

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