A obsessão pelo homogêneo, a “pureza”

(Carl Schmitt, 1888-1985)

Falei, noutro texto (https://balaiocaotico.com/2022/03/24/iliberalismo/), sobre o papel de Carl Schmitt na “fundação” teórica do Estado que depois reconheceríamos como nazista.

Ele acreditava num “Estado total, aquele para o qual tudo é político, pelo menos potencialmente. (…) os pontos extremos da grande política são aqueles momentos nos quais o inimigo é percebido com uma clareza concreta como inimigo. O político – o agrupamento da humanidade em amigos e inimigos – deriva sua legitimação da seriedade da questão do que é o certo. (…) toda teoria política legítima pressupõe que o homem é mau – um ser perigoso e dinâmico.”

Percebem o perigo desses conceitos? Tudo é político (amigos x inimigos), “portanto”, o Estado pode tudo, desde que seja o “certo”. Quem define o “certo”?

Enquanto em Hobbes o Estado pode exigir apenas uma obediência parcial (limitada pelo direito à vida), em Schmitt a unidade política pode exigir que seus membros estejam prontos para a morte.

Em Schmitt, trata-se da afirmação do político; em Hobbes, da afirmação da civilização.

Schmitt não estruturava sozinho o pensamento totalitário; havia também Leo Strauss (judeu!), Alfred Baeumler, Martin Heidegger e outros.

Schmitt afirma, em 1926, que “à democracia pertence, em primeiro lugar, necessariamente, a homogeneidade, e em segundo lugar – se preciso – a eliminação ou o aniquilamento do heterogêneo”.

A “democracia política”, como ele a concebe, acomoda-se perfeitamente à ditadura. E o heterogêneo era, principalmente, o judeu.

Em 1933, ele reforça seus argumentos: “O Direito alemão e o Estado alemão não repousam mais sobre uma vazia e formal ‘igualdade de todos diante da lei’ ou sobre a enganadora fala da ‘igualdade de tudo o que tem rosto humano’, mas sobre a natureza homogênea real e substancial de todo o povo alemão unitário em si e homogêneo.”

“O conflito é essencial à natureza e à compreensão de nós mesmos, pois sem o confronto – a possibilidade muito real de confronto mortal – nós não somos nada (somos niilistas)”, acreditava.

Insinuava que o liberalismo (democracia, no caso) seria hipócrita, pois “ele retrata a paz universal, afirma ser racional, procura não ferir, mas na realidade o liberalismo precisa erradicar toda oposição para alcançar seu objetivo.”

“Schmitt era um observador perspicaz e analista das fraquezas do constitucionalismo liberal e do cosmopolitismo liberal.

Mas pode haver pouca dúvida de que sua cura preferida acabou sendo infinitamente pior do que a doença” (The Stanford Encyclopedia of Philosophy)

A vida em sociedade seria uma luta eterna, uma arena, uma guerra eterna até o extermínio de todos os opositores. Estamos a caminho.

Noutro momento falarei sobre o papel de Heidegger na “filosofia” nazista.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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