Iliberalismo

Já dizia Guimarães Rosa: “Obedecer é mais fácil do que entender”.

Esta é, certamente, uma das razões pelas quais muitas pessoas preferem se submeter (do ponto de vista social, psicológico e econômico) a um tirano do que exercitar sua liberdade democrática.

Os mais velhos lembram de Erich Fromm e sua preocupação com a liberdade.

Num livro, de 1941, em pleno avanço do nazifascismo, ele já alertava que os indivíduos, na incessante busca do sucesso financeiro, se isolavam cada vez mais uns dos outros. Essa almejada liberdade econômica, carregada de solidão, tornava-se motivo de medo e angústia, levando as pessoas a desejarem uma fuga psicológica de alienação, por meio de ilusões de “terem” algo ou de “pertencerem” a uma corporação ou grupo que lhes fariam sentir menos sós.

Se na antiguidade o perigo era os homens tornarem-se escravos, atualmente tornou-se o de serem alienados psíquicos, autômatos. Pudessem encontrar uma alternativa saudável ao conflito, haveriam de reconhecer a importância do outro nos vínculos de cooperação e solidariedade.

Mas, a solidão e a impotência encontraram na indústria moderna artifícios da felicidade de consumo e estímulos para o rápido alívio psicológico da condição humana – que em seu dinamismo tende a procurar soluções de alguma forma, com possibilidades de satisfação, ainda que ao preço da violência, da neurose e servidão voluntária.

Assim, Fromm explicava que a ânsia do poder pelo nazismo não tinha origem na força, mas na fraqueza humana.

Para ele, o problema fundamental não é se “Deus está morto”, mas se “o homem está morto”, embora respirando. Nossa época permite que o homem se liberte de todas as formas de servidão social, outrora sancionadas por “Deus” e pelas “leis sociais”. Apesar disso, cresce a “servidão voluntária”, já antecipada por Étienne de La Boétie, no século XVI.

Atualmente, é crescente o número de países com governos autoritários, ditos “iliberais”. Na invasão da Ucrânia pela Rússia, 39 países apoiaram a Rússia ou se abstiveram, em votação na ONU. Há outros com vocação autocrática que não puderam manifestar sua simpatia, como o Brasil e Hungria, por exemplo.

“Toda era tem o seu próprio fascismo”, resignava-se Primo Levi.

Madeleine Albright, que morreu ontem, precisou fugir do nazismo quando Hitler invadiu a Tchecoslováquia. Ela, de família judia, tinha dois anos de idade. Seus avós, tios, tias e primos não conseguiram fugir e foram mortos pelos nazistas.

Com a derrota alemã, voltaram ao país. Três anos depois, fugiram novamente – desta vez do comunismo.

Já adulta, especializou-se no Leste Europeu, “onde os países eram descartados como satélites na órbita de um sol totalitário, e onde havia a impressão geral de que nada de interessante jamais aconteceu e de que nada importante se modificaria. (…) o conformismo era o bem precioso”.

Com o fim da URSS, Václav Havel, o dramaturgo que virara presidente tcheco, sonhava “com uma Europa em que ninguém com mais poder será capaz de oprimir alguém com menos poder, onde não mais será possível a resolução de conflitos por meio da força”.

Hoje, entretanto, repito, a democracia recua. As pessoas estão cada vez mais alienadas, fragmentadas, enclausuradas em grupos de todo o tipo, dispostas a abrir mão da liberdade em troca de subsistência ou acesso ao consumo deletério. O mundo, aliás, aproxima-se da virtualidade. Há vários ganchos ideológicos e sociais à disposição de potenciais autocratas.

Políticos não se empenham na solução dos problemas reais para, em seguida, se apresentarem como portadores de soluções mágicas para os mesmos.

O liberalismo econômico, com seu enfoque nos vencedores, marginaliza crescentes contingentes que passam a “acreditar” em soluções “fortes”, populistas, à esquerda ou à direita. O liberalismo econômico naufraga puxando pelos cabelos o liberalismo democrático.

Nesse processo, o ódio é um instrumento poderoso – une sem questionamentos – e inimigos precisam ser criados (dentro ou fora do país) para polarizar as manadas. A liberdade é esquecida, a diversidade é anulada, a criatividade social torna-se perigosa, a harmonia social torna-se mimimi, a visão do todo é apagada, o progresso procura referenciais no passado, igualdade de oportunidades é rotulada ‘comunismo’, a educação é instrumentalizada para as ‘coisas práticas’, a cultura é desperdício, tecnologia ‘se compra’, a violência social é culpa da ‘maldade humana’, nega-se a realidade com fantasias e mentiras, tudo que é ruim é culpa do outro … vocês sabem.

As ideias de Carl Schmitt, ideólogo nazista, voltam a ser “estudadas”. Ele, que tinha por foco o enfrentamento entre as pessoas e entre os grupos políticos.

Sabia que as pessoas se habituam com a degradação do outro, principalmente quando ele apresenta algum tipo de estigma social, como no caso dos presos brasileiros, das crianças nas ruas e semáforos, dos desempregados (subliminarmente vistos como incompetentes, despreparados ou indolentes), dos menores infratores, dos viciados em crack, dos negros etc.

“O Estado é a guerra civil continuamente impedida.”

“Soberano é quem decide sobre o Estado de Exceção.”

(Carl Schmitt)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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