Que mundo queremos?

“A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los, diagnosticá-los erroneamente e depois aplicar os remédios errados”, brincava (?) Groucho Marx.

Sei que há assuntos que não despertam interesse da maioria, são desagradáveis. Poderia fugir deles. Mas, alguém precisa ser chato.

São tantas as pragas no nosso jardim: crescimento econômico engasgando e potencial risco de estouro de nova bolha, inflação voltando, desigualdade de renda aumentando em todo o mundo, processos imigratórios crescentes, impasses políticos e polarizações ameaçando a democracia, crise climática, e … guerra. A “solução” imposta pelo liberalismo econômico e social tem suas responsabilidades em muitos desses pontos.

Um desses assuntos incômodos, por exemplo, é a questão alimentar e seu subproduto, a fome.

“… o futuro não é um destino único e predestinado … é um espectro de possibilidades. Onde eventualmente chegaremos é um reflexo de nossas escolhas individuais e coletivas. Embora alguns futuros sejam mais desejáveis ​​do que outros, há valor em explorar todo o espectro. Isso inclui distopias.

As distopias nos transportam para realidades alternativas ou futuros que retratam um colapso no nível dos sistemas. Elas nos mostram injustiças e sofrimentos. Isso inclui tudo, desde desastres ambientais até colapso econômico, opressão política e muito mais.

O bilhão mais pobre do mundo já vive em uma distopia.” (Leah Zaidi, futurista)

A ONU divulgou um relatório, em 2020, no qual apontava a existência de 811 milhões de pessoas com fome no mundo (cerca de 10% da população); esse número era maior em cerca de 161 milhões em relação a 2019.

Além da fome, estimava que mais de 2,3 bilhões de pessoas, ou 30% da população mundial, não tiveram acesso à alimentação adequada em 2020, um aumento de 320 milhões em relação a 2019.

Esse fenômeno, conhecido como insegurança alimentar moderada ou severa, também pode trazer consequências graves para o desenvolvimento infantil e para a saúde da população em geral. Interessante: as mulheres têm um índice de insegurança alimentar 10% maior do que homens!

Em 2016, o historiador Martín Caparrós publicou um calhamaço (712 páginas) intitulado “A Fome”. Um trabalho que dá um nó no estômago.

“Conhecemos a fome, estamos habituados à fome: sentimos fome duas, três vezes por dia. Não há nada mais frequente, mais constante, mais presente em nossas vidas do que a fome – e, ao mesmo tempo, para muitos de nós, nada mais distante do que a fome verdadeira.” (Martín Caparrós)

A fome é só um descuido social, um produto inevitável de nossa ordem mundial, uma carência de méritos, fruto da preguiça e do atraso, um negócio, ou o fracasso de nossa civilização?

Os realistas dirão que sempre houve fome. Sim, mas temos hoje a capacidade de alimentar o mundo. Ou seja, a fome contemporânea é a mais canalha da história. Como sempre, é o sistema político, caudatário dos poderes econômicos, que a “alimenta”.

“A fome tem sido, desde sempre, a razão de mudanças sociais, progressos técnicos, revoluções. Nada teve mais influência na história da humanidade. Nenhuma doença, nenhuma guerra matou mais gente. No entanto, nenhuma praga é tão letal e, ao mesmo tempo, tão evitável como a fome”, conclui Caparrós.

Mas, essa possibilidade, ignorada por questões políticas, poderá não existir a médio e longo prazo. Nós, humanos, estamos fazendo nosso dever de casa: depauperar o ambiente em nome da lógica da prosperidade.

Em 1972, um grupo de cientistas do MIT publicou um estudo sobre os limites do crescimento. Um resumo:

“Se as atuais tendências de crescimento da população mundial, industrialização, poluição, produção de alimentos e esgotamento de recursos continuarem inalteradas, os limites do crescimento neste planeta serão alcançados em algum momento nos próximos 100 anos. O resultado mais provável será um declínio bastante súbito e descontrolado da população e da capacidade industrial.”

Os defensores do status quo logo se manifestaram contra o “pessimismo” acima. Herman Kahn disse: “Com a tecnologia atual podemos sustentar 15 bilhões de pessoas no mundo, a vinte mil dólares per capita, por um milênio – e isso parece ser uma afirmação muito conservadora.”

Esse sujeito é o que queria construir um lago de 700 km2, que inundaria Manaus, ligando os oceanos Atlântico e Pacífico através de canais, cortando a Floresta Amazônica!

O economista Julian Simon, que deve ter inspirado o iluminista Steven Pinker, condenou esse cenário “improdutivo”:

“As condições materiais de vida continuarão a melhorar para a maioria das pessoas, na maioria dos países, na maioria das vezes, indefinidamente. Dentro de um século ou dois, todas as nações e a maior parte da humanidade estarão no mesmo nível ou acima dos padrões de vida ocidentais de hoje”.

Em 2002, 30 anos depois, 1.600 cientistas (incluindo 102 ganhadores do Nobel) rediscutiram o assunto e concluíram:

“Os seres humanos e o mundo natural estão em rota de colisão. As atividades humanas infligem danos severos e muitas vezes irreversíveis ao meio ambiente e a recursos críticos.

Se não forem corrigidas, muitas de nossas práticas atuais colocam em sério risco o futuro que desejamos para a sociedade humana e os reinos vegetal e animal, e podem alterar tanto o mundo vivo que ele será incapaz de sustentar a vida da maneira que conhecemos.

Mudanças fundamentais são urgentes se quisermos evitar a colisão que nosso curso atual trará.”

Agora, 50 anos depois do primeiro estudo, Gaya Herrington, da KPMG, fez nova avaliação, que reforça os argumentos anteriores:

“Os cenários que mais se aproximaram dos dados observados anteriormente confirmaram uma interrupção no estado de bem-estar, alimentação e produção nas próximas décadas, colocando em xeque a adequação do crescimento econômico contínuo como grande meta da humanidade para o século XXI.”

Embora o estudo confirme a inutilidade do crescimento contínuo, também conclui que o progresso tecnológico e o aumento de investimentos em serviços públicos podem evitar o risco de um colapso total, além de resultar em uma nova civilização estável e próspera, operando de forma sustentável em níveis planetários. A má notícia é que temos menos de dez anos para promover essa transição. 

Claro que a porta do “progresso tecnológico” sempre fica aberta, mas a janela de “serviços públicos” normalmente está fechada.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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