O tempo, por um poeta

(Thomas Stearn Eliot, T. S. Eliot, 1888-1965)

Em 1922 começava a modernidade. Aqui, com a Semana de Arte Moderna. Na Europa, com o lançamento de Ulisses, de James Joyce e, com o poema Terra Devastada, de T. S. Eliot.

Foi quando a linguagem se rebelou contra a tirania do tema e do personagem, e se tornou protagonista por mérito próprio, diz Kevin Jackson.

Sobre Joyce não falarei, não consigo absorvê-lo, tragá-lo. Deixarei o desafio para meu colega Fábio Adiron.

Eliot disse antecipadamente, em 1929: “Precisamos de saber, não de informação”. Como veria a atual sede de “conteúdo”, essa praga que nos desvia de nós mesmos, ao confundirmos “cultura” com acumulação?

Os que o elegeram epítome da modernidade ficavam escandalizados com sua paixão por Dante, Virgílio, São João da Cruz e outros atemporais! O tempo, para ele, era o “pantempo“, como definido por Stephen Hawking: fusão do passado, presente e futuro.

Joyce e Eliot foram impulsionados, salvos do anonimato, por Ezra Pound.

Nada a ver com modernidade, mas em 1922 os fascistas de Benito Mussolini tomaram o controle da Itália. Detalhe: Pound era um entusiasmado admirador de Mussolini.

O poema de Eliot, “Burnt Norton” (um castelo consumido pelo fogo no século 17), reflete suas leituras de, entre outros, Eclesiastes, Kierkegaard e Santo Agostinho.

Burnt Norton (trechos)

“O tempo presente e o tempo passado

Estão ambos talvez presentes no tempo futuro

E o tempo futuro contido no tempo passado.

Se todo tempo é eternamente presente

Todo tempo é irredimível.

O que poderia ter sido é uma abstração

Que permanece, perpétua possibilidade,

Num mundo apenas de especulação.

O que poderia ter sido e o que foi

Convergem para um só fim, que é sempre presente.

Ecoam passos na memória

Ao longo das galerias que não percorremos

Em direção à porta que jamais abrimos

Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras

Em tua lembrança.

Mas com que fim

Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas

Não sei. (…)” (T. S. Eliot, tradução de Ivan Junqueira)

Eliot estudou Filosofia em Harvard e foi influenciado por George Santayana, para quem “O mundo é uma caricatura perpétua de si mesmo; e a cada momento ele é a derrisão e a contradição do que pretende ser.”

Os Homens Ocos

“Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados

Uns nos outros amparados

O elmo cheio de nada. Ai de nós!

Nossas vozes dessecadas,

Quando juntos sussurramos,

São quietas e inexpressas

Como o vento na relva seca

Ou pés de ratos sobre cacos

Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor,

Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram

De olhos retos, para o outro reino da morte

Nos recordam – se o fazem – não como violentas

Almas danadas, mas apenas

Como os homens ocos

Os homens empalhados (…)

(T. S. Eliot, tradução de Ivan Junqueira)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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