Nativismo internacionalista

OS BASTIDORES DA SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922 - SINDIFISCO -

O termo “modernus” entra em cena quando termina o que conhecemos como Antiguidade, por volta do século V d.C.: justamente nos séculos de “trevas”, nos quais se enfraquece a lembrança das grandezas passadas e instaura-se a inovação, mesmo sem que os inovadores percebam. Isso nos é contado por Umberto Eco.

Há um paralelismo entre aquele período e a anunciação da modernidade no Brasil, principalmente com os eventos da Semana de Arte Moderna, entre 13 e 17 de fevereiro de 1922.

Embora promovida por e para uma elite – cultural e social – esse esforço trouxe à tona a inquietação transformadora nos campos da pintura, literatura, poesia, música e escultura.

Assim, os artistas que antes “trabalhavam na calma dos ateliês e dos quartos isolados, conscientes de seu valor mas certos de serem esmagados pelo número de seus adversários no dia em ousassem aparecer”, tiveram essa oportunidade – de mostrar que a arte (além da política e da economia) também estava mudando, registrou Sérgio Milliet.

Todos lembravam do linchamento público de Anita Malfatti em 1917, que inaugurou de fato o movimento modernista no país. Seus trabalhos não agradaram aos críticos de então, principalmente a Monteiro Lobato.

O modernismo era uma transgressão dos padrões acadêmicos. Tinha dois principais eixos, aparentemente contraditórios: o universalismo e o nativismo (nacionalismo).

O universalismo (ou internacionalismo) decorria da ansiedade pela renovação formal, já presente noutros países, principalmente em Paris. Desde sempre, lembremos, nosso país é culturalmente periférico e economicamente dependente.

Era inevitável o rompimento com o academismo passadista: as novidades nas artes plásticas já haviam migrado do romantismo para o realismo, impressionismo, cubismo, expressionismo, futurismo, dadaísmo, construtivismo, purismo, surrealismo etc.

O nativismo já era demandado – em 1912 – por Oswald de Andrade, num artigo em que reivindicava uma forma de expressão autóctone, não uma mera reprodução do que se fazia na Europa.

Um dos líderes do movimento modernista por aqui foi o Mário de Andrade, um de nossos maiores intelectuais.

Ele tinha clareza de que o ‘moderno’ não era abraçar as vanguardas nas artes, manifestações sem fôlego, mas seria uma espécie de retorno à ordem (modificada), como representado pelo Novecento, na Itália, e pelo realismo naturalista (carregado em parte pelo expressionismo). Explicando:

“(…) No primeiro pós-guerra, após o aparente rompimento das regras estéticas estabelecidas e a ênfase à individualidade absoluta dos artistas, certos grupos tendiam, naquele período, a reintroduzir no discurso da modernidade algum grau de estrutura ordenadora, para fazer a arte contemporânea voltar a dialogar com a tradição, ampliando seu sentido, sem nunca mais ignorá-la.” (Tadeu Chiarelli)

Apesar de divergir em muitos pontos com Monteiro Lobato, Mário também estava convicto de que era necessária a constituição de uma arte nacional, que expressasse nossa ambiência, gente e cultura.

Mário vira esse sentimento nativista já no Aleijadinho (Antônio Francisco Lisboa) e, só após o amadurecimento do modernismo, em José Ferraz de Almeida Jr. e Portinari.

Para Mário de Andrade, Portinari faria o que ele próprio tentava realizar com sua obra literária: constituir uma arte conectada com a cena internacional contemporânea, mas detentora de valores nacionais e tradicionais puros.

É a tradição, que, conforme Terry Eagleton, “nunca é pega de surpresa: de alguma forma, ela previu misteriosamente as grandes obras ainda não escritas, e embora tais obras, uma vez produzidas, provoquem uma reavaliação da própria Tradição, serão absorvidas sem esforço por ela (…)”, referindo-se à produção de T. S. Eliot.

Na opinião de Aracy A. Amaral, “a exposição de artes plásticas da Semana de 22 apresentou antes intenções de modernidade que modernidade propriamente dita (fora as participações excepcionais de Anita Malfatti e John Graz) e seria no decorrer da década que os diversos artistas encontrariam seu caminho dentro das tendências contemporâneas pós-cubistas.”

Uma das grandes influências no nosso modernismo foi a art déco, que irritava Mário de Andrade: “Nós brasileiros temos um dilúvio de motivos para as nossas decorações, café, milho, borboletas, cobras etc. No entanto, empregamos acanto, louro, óvulos, cabeças de carneiro e outras macaquices que só têm de nacional serem macaqueações”.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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