O mito de um mundo melhor

As Moscas estão Ganhando
(Fábio Adiron)

A linguagem é mutante. Palavras podem perder seu significado original, etimológico, e ser postitzada, num deturpado processo de Scrum social. Assim ocorre com a palavra Mito. Virou até reverência política, ao vazio, ao nada, à negação, ao retrocesso, ao ódio, à deterioração.

O social é o paroxismo da Complexidade, penso. Imaginem: bilhões de seres, cada qual uma usina de complexidade, tentando sobreviver (e “prosperar”) a partir de ambientes assimétricos (uns com tanto, tantos com nada), incógnitos.

O mito surgiu como uma liga social (depois veio a religião, já como um modelo de negócio); uma “potência subterrânea”, no dizer de Michel Maffesoli.

Parece banal, mas para Durkheim “Se a existência perdura, é que, em geral, os homens preferem-na à morte”. Os mitos ajudam a explicar e a suportar essa dura travessia.

Cada pessoa pensa e se “prepara” para o seu futuro. O povo, como conjunto, entretanto, é totalmente irresponsável pelo futuro. Delega-o. Confundimos conjunto unitário com conjunto vazio; esquecemos que somos subconjuntos de um Conjunto Universo.

“… é de bom-tom lamentar o fim do social, é preciso recordar que o fim de um certo aspecto do social, a saturação evidente do político, pode, sobretudo, ressaltar um instinto vital que está longe de se extinguir. (Maffesoli)

Claude Lévi-Strauss pergunta-se: como explicar que, de um extremo a outro da Terra, os mitos se pareçam tanto? Nos mitos, tudo pode acontecer. A sucessão dos eventos não parece estar submetida a nenhuma regra de lógica ou de continuidade; qualquer sujeito pode possuir qualquer predicado, qualquer relação concebível é possível. É a própria Complexidade, o aparentemente inexplicável.

O mito, resume J. F. Bierlein, “é um espelho eterno no qual vemos a nós mesmos”.

Todo esse introito para falar do livro de Fábio Adiron, “O mito de um mundo melhor”.

Esse caro amigo o escreveu com o intuito de nos alertar sobre alguns mitos modernos e seus riscos subjacentes a respeito da permanência da vida – ou seu depauperamento -, embora anunciados como possibilidades de um mundo melhor.

O progresso – dádiva garantida aos homens, supõe-se – seria um determinismo, garantido pela ciência e seus desdobramentos tecnológicos. De fato, os avanços nessas áreas são deslumbrantes, porém, ao mesmo tempo, obnubilantes.

Questões essenciais são relegadas, como o fardo mortífero imposto ao planeta pelo modelo adotado de crescimento exploratório. Não se olha o passado, com seus múltiplos registros de ruínas de civilizações que foram vítimas de seus próprios sucessos, como nos mostram Edward Gibbon, Jared Diamond, Ronald Wright, Niall Ferguson, entre outros.

Além do mito do progresso, ressalta – citando Humberto Mariotti – os da centralidade humana e o da separação do homem em relação à natureza.

Essas fortes crenças instrumentais tornam-se mitos, no entendimento de Roland Barthes: “O mito é uma fala. (…) é um sistema de comunicação, uma mensagem. (…) aquilo que nos permite consumir o mito inocentemente é o fato de não vermos no mito um sistema semiológico, mas sim um sistema indutivo. (…) Todo o sistema semiológico é um sistema de valores; ora, o consumidor do mito considera a significação como um sistema de fatos.”

Para não me alongar, digo que o livro de Fábio é extremamente atual e esclarecedor sobre o conceito, transversalidade e evolução dos mitos. Escrito com leveza mas sem cair na tentação da superficialidade.

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Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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