Não há garantias

Famosos Que Partiram: Nicolau Sevcenko
(Nicolau Sevcenko, 1952-2014)

A “digitalização”, usemos este termo, se imiscui em tudo, convidada ou não. Ela, através de suas manifestações (AI, robótica, automação em geral, conectividades via redes sociais, VR, AR, XR, IoT etc.) dominará nossos ambientes no trabalho, na sociedade, no governo – na vida.

Além de sua influência direta, ela permite a alavancagem de tecnologias nas demais áreas, como no caso da biologia, da saúde, da pesquisa física e química, com materiais …

Somem-se a esta revolução digital as demandas surgidas com a emergência climática – principalmente com relação às fontes energéticas -, a pandemia, o esgotamento de antibióticos, as polarizações políticas, a ascensão das correntes identitárias, o crescimento da exclusão socioeconômica (concentração extrema de renda), as ondas migratórias e, temos um caldo explosivo.

Percebemos, acentuadamente, como somos vulneráveis, manipuláveis e descartáveis.

O resultado dessa aceleração tecnológica, exponencial, é assustador. Haverá, à nossa frente, um período perturbador, talvez desestabilizador, na sociedade – tanto nas economias que lideram essa transformação como nas que tentam atingir a linha de chegada, com a língua de fora.

Sociedade é um conceito nascido no século XIX, a partir da organização industrial da economia e que foi, no entendimento de Pierre Charbonnier, buscar sua norma na reflexividade técnica, mas que foi, também, oprimida pelo poder dos mercados e sua cumplicidade com os impulsos autodestrutivos modernos.

Esses impulsos autodestrutivos podem chegar rapidamente a seu paroxismo numa geração. Nunca o estudo da ética se fez tão necessário.

Leio com atenção o livro “Armas e Ferramentas”, uma alerta sobre o futuro e o perigo da era digital – escrito por Brad Smith e Carol Ann Browne, da Microsoft. Eles reconhecem que a autorregulação é uma ficção útil que estimula a ruptura como um fim em si mesma. Recomendam que é do interesse de todos que o governo intervenha com regulamentações.

Max Tegmark repete que a ascensão da AI tem o potencial de transformar nosso futuro mais do que qualquer outra tecnologia – tanto com relação aos crimes, as guerras, a justiça, a liberdade, assim como nossa própria noção como ser humano.

Aquela ideia ocidental de sociedade baseada no contrato entre cidadãos e limitada ao convívio e à ação dos sujeitos humanos – como senhores do universo – começa a ser questionada. Massimo di Felice aponta o início de uma nova cultura de governança em redes complexas, caracterizadas por interações em arquiteturas não mais compostas apenas por sujeito e objeto.

Tudo isso representa um enorme risco e, claro, um campo enorme de possibilidades, que muitos transformarão em oportunidades.

Em 2001 surgiu um livro muito antenado: “A Corrida para o Século XXI”, escrito por Nicolau Sevcenko. Vale a pena revisitá-lo.

Dizia: “A aceleração das inovações tecnológicas se dá agora numa escala multiplicativa, uma autêntica reação em cadeia, de modo que em curtos intervalos de tempo o conjunto do aparato tecnológico vigente passa por saltos qualitativos em que a ampliação, a condensação e a miniaturização de seus potenciais reconfiguram completamente o universo de possibilidades e expectativas, tornando-o cada vez mais imprevisível, irresistível e incompreensível.”

Uma consequência desse ritmo alucinante de mudanças é que, normalmente, não temos tempo para parar e refletir; somos arrastados e, de repente, podemos nos sentir perdidos, num processo de anuência passiva.

Ele recomendava que fôssemos críticos, para continuarmos agentes “autônomos”, e não “autômatos”.

A palavra “crítica” deriva do verbo grego Krinein, que significa “decidir”. Dela vem krités, “juiz”, e kritérion, que são os fundamentos relativos aos valores mais elevados de uma sociedade, em nome e em função dos quais os juízos e as críticas são feitos.

Também deriva a palavra krisis, significando o vácuo desorientador que se estabelece quando os critérios que orientam os juízos, por alguma calamidade histórica, política, natural ou tecnológica, se vêem suspensos, abolidos ou anulados.

A solução está em investir nas funções judiciosas, corretivas e orientadoras da crítica.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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