A teia da natureza

(Dersu Uzala, 1849-1908)

Dersu Uzala era um caçador indígena que vivia nos confins da Sibéria. Dersu conhecia, compreendia e amava todas as formas e manifestações da vida. Ele falava aos animais, à floresta, às nuvens e ao sol, ao fogo e à noite.

Sua existência nos foi trazida pelo livro do explorador russo Vladimir Arseniev, que o conheceu em 1902. Akira Kurosawa o imortalizou num premiado filme, em 1975.

Yoda, o Grão Mestre da Ordem Jedi da saga Star Wars, foi inspirado nele, segundo George Lucas.

Dersu vivia isolado na floresta. Pagou caro para aprender a sobreviver, daí veio o respeito pelos elementos da natureza e, o amor pela vida – de todos e tudo.

A natureza dá seu jeito. A adaptabilidade é a regra, em ritmos diferentes. Alguns seres são previdentes, outros descuidados; há os predadores, os que parasitam e os que atuam comutativamente ou em mutualismo.

Dersu citava que o esquilo siberiano guarda provisões abundantes, às vezes para um período de dois anos. Para impedir a deterioração, tira-as da toca de vez em quando e as faz secar sobre os ramos, deixando para guardá-las de novo à noite.

As formigas-cortadeiras constroem enormes ninhos subterrâneos formados por diversas câmaras que abrigam toda a colônia e um jardim de fungos. As folhas que cortam são depositadas nas câmaras onde o fungo é cultivado. É o alimento para o fungo – a formiga é incapaz de digerir celulose. A colônia fúngica cresce e servirá de alimento para as formigas.

Ao fazermos uma refeição não nos damos conta do papel dos agentes que possibilitaram que ela chegasse até nós. Desde a cadeia logística, ao produtor rural e aos microrganismos que participaram de sua geração. Entre esses, os fungos. Devíamos ser gratos, mas parece que nada para trás aconteceu. Afinal, pagamos.

Os fungos: um universo. Sem eles sequer teríamos vinho. Acredita-se que haja mais de um milhão de espécies, embora apenas cerca de 70 mil sejam conhecidas.

O maior ser vivo do mundo é um fungo, que vive sob o solo da floresta nacional de Malheur, nos EUA: ele abrange uma área de 890 ha e, está lá há pelo menos 2.400 anos, explorando o ambiente.

Os líquens (uma associação entre uma espécie de fungo e uma alga, ou a uma cianobactéria) são conhecidos por possuírem grande longevidade. Há registros de líquens com 4.500 anos de idade!

Os fungos têm importante papel para as plantas, através de uma simbiose mutualista; chama-se Micorriza.

90% das espécies de plantas apresentam micorrizas e dependem delas para garantir seu bom crescimento e desenvolvimento. A planta disponibiliza para o fungo pelo menos 10% do que ela produz. O fungo, por sua vez, além de facilitar-lhe a absorção de nutrientes do solo, produz hormônios de crescimento para as raízes das plantas.

É necessário conhecermos mais os fungos, pois muitos são patogênicos, tanto para animais, quanto plantas, e humanos.

Um caso histórico foi o ataque causado por um fungo fitopatogênico que causou a “grande fome da batata”, na Irlanda, entre 1845 e 1849. Quase um milhão de irlandeses morreram de fome e forçou muitos a emigrarem.

Bem estudados, os fungos podem servir para o controle biológico de pragas.

Indiferentes à arrogância humana, os fungos criam vastas redes subterrâneas – um tipo de “sistema circulatório do planeta”. Um grupo de cientistas começará a mapear essas redes, com ajuda da AI.

Essas redes – de fungos que se conectam às raízes das plantas – atuam com “estradas” de nutrientes, trocando o carbono das raízes por nutrientes. Alguns fungos são conhecidos por fornecer 80% do fósforo às plantas hospedeiras.

Para o arauto do reino Fungi, Paul Stamets, o micélio (conjunto de fungos multicelulares) é uma espécie de rede neurológica:

“Acredito que o micélio seja a rede neurológica da natureza. Mosaicos entrelaçados de micélio infundem habitats com membranas de compartilhamento de informações. Essas membranas estão cientes, reagem às mudanças e, coletivamente, têm em mente a saúde de longo prazo do ambiente hospedeiro. O micélio permanece em comunicação molecular constante com seu ambiente, concebendo diversas respostas enzimáticas e químicas para desafios complexos.”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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