O rei está morrendo!

[Vida e Obra] Eugène Ionesco – Portal dos Atores | Atores da Depressão
(Eugène Ionesco, 1909-1994)

Há um rei, consciente de seu papel como rei. Moribundo, tenta segurar tudo nas mãos.

Ele está no poder há séculos mas, não se apercebeu, o tempo passou e, inexoravelmente, terá que morrer.

Quando nota que sua hora chegou, junto com a agonia, começa a perder todos os seus poderes.

“Eu tentei acender a calefação, Majestade. Mas não funciona. Os radiadores não querem ouvir nada, o céu está coberto e parece que as nuvens não querem se dissipar.

O sol não quer sair. No entanto, eu ouvi o rei ordenando que ele aparecesse.

– Ora! O sol já não o escuta mais.”

Naturalmente, ele começa por negar a morte, depois a aceita e, ao final se entrega totalmente.

Esse é um resumo da peça “O rei está morrendo”, de Eugène Ionesco, um dos criadores do teatro do absurdo. Dizia que o que lhe interessava não era o absurdo, mas o insólito, que nasce do espanto.

Byung-Chul Han entende que “em vista da morte, chega-se a um engrandecimento doentio do eu. Tudo que existe deve, segundo a estratégia da sobrevivência, tornar-se eu”.

Diante da inusitada ameaça da morte, o rei reage com representações narcisistas delirantes. A morte lhe parece o inteiramente outro do eu, contra o qual ele engrandece o eu até o ponto da monstruosidade. “O eu cobre inteiramente a tudo”.

O medo da morte – o fim do eu – se converte em uma fúria contra tudo que não é o eu.

Uma das suas rainhas recomenda-lhe que ele possa amar, amar despropositadamente. O amor seria, acredita, tão forte quanto a morte.

Mas, o rei consegue amar?

Há um dado comum, segundo Hegel: habita no ser humano o desejo de se por como totalidade excludente na consciência do outro e ser reconhecido pelo outro como tal.

Queremos ser reconhecidos pelo outro em nosso direito exclusivo de satisfação. O outro, porém, tem o mesmo desejo. Chega-se a uma “luta entre duas totalidades”.

Há 25 séculos, Heráclito, fez um enunciado espantoso: “Viver da morte, morrer da vida; viver de morrer, morrer de viver”.

“Viver de morrer” pode ser entendido como o mecanismo de autorregeneração usado pelas células, pelo qual uma morre para que surja uma nova.

Voltando a Hegel. Ele via a morte como algo inatural. O ser humano tem de conseguir a morte, ou seja, poder morrer. Ele fala da necessidade de um certo “suicídio”, no sentido de que é preciso se expor voluntariamente a uma liberdade para a morte.

Lembro da morte de François Mitterrand, em 1996. Conta-se que teria recorrido à eutanásia para encerrar os sofrimentos de um câncer que durou mais de 14 anos. Poucos amavam tanto a vida – tanto que aboliu a pena de morte na França, assim que assumiu. Lembro que nos seus últimos anos, esteve se “consultando” com líderes espirituais (era ateu ou, pelo menos anticlericalista) e filósofos.

“As dificuldades, como as montanhas, aplainam-se quando avançamos por elas”. (Émile Zola)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

Um comentário em “O rei está morrendo!

  1. “O medo da morte – o fim do eu – se converte em uma fúria contra tudo que não é o eu.” Não vou discorrer o texto muito bem escrito e por si só já fala das vissisitudes da morte, ou melhor, o medo da morte. Não existe um ser na face da terra que não teme a morte. Ela é um fato . Mas é tenebroso para alguns por não saberem o que esperam no outro lado da morte. Outros por saberem demais como François Mitterrand, em 1996. Conta-se que teria recorrido à eutanásia para encerrar os sofrimentos de um câncer que durou mais de 14 anos. Poucos amavam tanto a vida – tanto que aboliu a pena de morte na França, assim que assumiu. Tanto é que tinha medo da morte que consultou sábios espirituais sobre a morte. A morte é fato . A própria Bíblia diz que aqueles que pela sua robustez passa de 80 anos o melhor deles é canseira e fadida. Diante disso. Aproveitemos a vida antes que a morte venha bater a nossa porta. Ninguém. …Ninguém mesmo, ricos e pobres escapará dela. O fato da eutanásia de François Mitterrand, trata-se de um certo pavor da morte para si e para os demais. Nesses dias passados eu vi um declaração da filha do presidente do Santander Talvez um dos homens mais ricos ela declara “meu pai morreu e nosso dinheiro não lhe salvou a vida”. Não é agradável pensar sobre a morte , mas nobres, Reis e plebeus morrem do mesmo jeito. Eu chamo isso ” A justiça mortal “. Repensamos sobre esse assunto. Encerrando: Hegel via a morte como algo inatural e não é , ela é mais natural que a vida. Outro Rei Moribundo, tenta segurar tudo nas mãos. o tempo passou e, inexoravelmente, terá que morrer . hora chegou, junto com a agonia pela perde todos os seus poderes. Vale a lição. Nada trouxemos nada e nada levaremos. Viva intensamente hoje como se fosse morrer amanhã. Porque o dia não sabemos. É um mistério de Deus pra vc. Talvez para alguns simbolismo, para mim verdade absoluta , a Bíblia nos diz que nossos dias estão “escritos na Mão de Deus”. Senhor Onipresente, Onisciente e Onipotente . Deixemos de lado as vãs filosofias e atentamos para os nossos dias.

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