É possível transplantar cultura?

Conheça a história da Fordlândia, o utópico sonho de Henry Ford no Brasil
(Fordlândia, ruínas)

Em meados dos anos 1920, Henry Ford tinha uma ideia fixa: precisava encontrar uma saída para o problema do suprimento de borracha para sua indústria. O látex era usado na fabricação de mangueiras, válvulas, gaxetas, fios elétricos e pneus, claro.

Em 1921, a Ford detinha mais de 50% do mercado americano de carros, produzindo mais de dois milhões do Modelo T por ano, a um custo 60% mais baixo do que dez anos antes, graças à obsessão do fundador pela “concentração nos detalhes”. “Esforço-me pela simplicidade”, dizia.

Essa massificação estava ameaçada pela possível formação de um cartel entre os imperialistas produtores de borracha na Indonésia, Sri Lanka, Malásia e Indochina (Holanda, Inglaterra e França), instigado por Winston Churchill, então secretário inglês de Estado para as Colônias. A borracha sairia do patamar de vinte centavos de dólar para mais de US$ 1,20, a libra!

Ford já pensara em plantar seringueiras na Flórida; Harvey Firestone tentara na Libéria; Thomas Edison tentou desenvolver alternativas sintéticas a partir de serralha ou arnica. Nada vingou.

A saída encontrada foi apostar na Amazônia, o lar da Hevea brasiliensis, a seringueira que provê o látex mais puro e elástico.

Decidiu-se pelo Brasil, em 1928.

“Onde Mr. Ford quer fazer suas plantações? Nas margens do Tapajós? Perfeito. E qual a quantidade de terras que deseja para a empresa? Dois milhões, quatrocentos e setenta mil acres? Isso equivale a quantos quilômetros quadrados?” O governo paraense, com aquiescência do governo federal, como de praxe, recebeu os americanos de braços abertos.

A área equivalia a quase 10 mil km2, aproximadamente metade da área de Sergipe.

“No coração mesmo da região onde arqueólogos inquisitivos e cientistas, mordidos pelo bicho da aventura, saem em busca das muralhas das cidades míticas e de povos descendentes dos nômades fenícios, ou outros povos antigos extraviados na selva, Henry Ford deita os fundamentos de uma civilização.” (Edward Tonlinson, 1936)

Quando a notícia saiu, a Inglaterra tremeu. Na Bolsa de Londres o preço da borracha começa vertiginosamente a cair. De quase um dólar e meio, a libra de borracha passa a um dólar, oitenta centavos, setenta … até a vinte e cinco centavos.

Também tremeram os coronéis de barranco da Amazônia, que escravizavam os seringueiros. Afinal, Ford pagaria de dois a cinco dólares por dia de trabalho, o que era de 8 a 20 vezes o que eles “pagavam” aos imigrantes nordestinos que caiam em suas mãos.

Um desses coronéis, intitulado “Rei do Xingu” aterrorizava seus peões mantendo-os num estado de dívida perpétua, prendendo aqueles que ousavam desafiar sua autoridade, espancando-os sem dó e deixando-os presos ao chão durante horas enquanto morcegos-vampiros se banqueteavam de seu sangue e hordas de formigas roíam a pele exposta.

Euclides da Cunha descreveu a situação desses seringueiros como “a organização de emprego mais criminosa já criada pelo egoísmo desenfreado.”

“A pirâmide exploratória tinha no ápice os estabelecimentos comerciais e financeiros estrangeiros; no meio estavam comerciantes e alguns exportadores brasileiros; e tudo isso sobre as costas de seringueiros endividados que recebiam a crédito bens que valiam dez, mas eram cobrados a cinquenta, em troca do látex que o comerciante local avaliava a dez, mas que valia cinquenta”, resume Greg Grandin.

Ford bagunçou esse mercado e os coronéis tiveram que aumentar a vigilância dos rios, lagos e igarapés para que seus escravos não fugissem para a empreitada americana.

Ford havia se convertido num “reformador social”. Ele estava frustrado com a política e a cultura de seu país: guerra, sindicatos, Wall Street, monopólios de energia, judeus, danças modernas, leite de vaca (sim, ele odiava vacas), cigarros, álcool, intervenção do governo …

Ele queria fazer na Fordlândia um experimento social, utópico, na sua visão.

As cidades (depois houve a Belterra, quando a primeira plantação foi devastada por uma praga), tinham casas com telhados de madeira fina, pisos de tábua, banheiros, refrigeradores elétricos; praça central, encanamento, gramados bem cuidados, cinemas, piscinas, hospitais completos – inclusive para cirurgias, cafeterias, ‘drugstores‘, campos de tênis, aparelhos sanitários, calçadas de concreto, luzes elétricas, hidrantes vermelhos, água filtrada e clorada, esgotos … Mas, não podia ter igreja católica.

Em troca, era exigido o imediato ‘aculturamento’, com lei seca, leite de soja, jardins de flores e hortas, comer pão de trigo integral e arroz integral etc. e, o maior incêndio já provocado na Amazônia para dar lugar às seringueiras.

Ford considerava esse projeto “um projeto civilizatório” (como, aliás, todos os impérios colonialistas). A Fordlândia refletia “nossa emocionante crença de que o mundo é como nós”. Ou seja, nós transfiguramos o mundo.

“O que as pessoas do interior do Brasil precisam é ter sua vida econômica estabilizada por meio de retornos justos para o seu trabalho, pagos em dinheiro, e que seu modo de vida seja trazido para padrões modernos em saneamento e na prevenção e cura de doenças.” (Henry Ford)

Certíssimo. Mas a forma e o ritmo contam.

De repente, os caboclos, aquela gente mansa e humilde – que deveriam estar agradecidos a esse patrono – viram bichos. Começam a quebrar tudo, arrasam tudo. Um motim. Os americanos, com suas famílias correm para os cargueiros no porto.

Eles não gritavam “abaixo Mr. Ford”. Gritavam: “abaixo o espinafre! Chega de espinafre!”.

No dia seguinte, com a chegada da polícia de Belém, acalmaram-se. Mas não comeriam mais espinafre, cornflakes e outras porcarias. Queriam carne de charque e, de vez em quando, uma feijoada. Ah, e uma cachacinha. Enough is enough.

Essa era a “psicologia” do caboclo. Será que é só do caboclo? A cultura local não deve ser entendida e respeitada – mesmo que se trabalhe sua transformação?

Outra aposta arrogante de Ford foi na domesticação da floresta.

As seringueiras plantadas no Sudeste asiático eram próximas – ao contrário do que ocorria na Amazônia. Deu certo, porque os insetos e fungos que se alimentavam delas não existiam naquelas bandas. Repetir a experiência na Amazônia foi um desastre.

Em 1946 corre pelo mundo a notícia melancólica: Ford se retira da Amazônia. No ano seguinte ele morreria, aos 84 anos.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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