Existir

(Ilustração de Yifan Wu)

Contardo Calligaris morreu em março deste ano. Um dia antes da sua morte, numa conversa com Maria Homem, sua companheira, a pergunta séria: “O que vai ser de mim sem você?”

Ele, consciente, olhou nos seus olhos e disse: “Vai ser o que você quiser”.

Esse era seu princípio: crie sua vida!

Quantos estão, neste momento – exaustos pela monotonia que escolheram (ou aceitaram), com um sólido sentimento de vazio no peito, insones, sem aparente motivo para viver – questionando sua existência?

São pessoas que olham para as chances e amores perdidos, apalpam e cultivam o fracasso, visto como um futuro opaco e sem atrativos. Isso é uma crise existencial, tão comum quanto a humanidade.

Nosso amigo Søren Kierkegaard (1813-55), dizia que viver sem paixão equivale a não existir. E isso é ruim para todos nós porque, sem paixão, ondas galopantes de negatividade envenenam o mundo. 

Já naquela época, percebia que uma das raízes deste problema (um mundo sem paixão) é que as pessoas estão alienadas, pois perseguem excessivamente a tal objetividade e resultados (sucesso, lucros) e esquecem as experiências humanas, simples, pessoais, passionais e subjetivas.

Esquecem de ser gente. Terminam por cultuar a tristeza, a autocomplacência, o langor decorrente de algo perdido – que não se sabe o quê.

Desconhecem o ensinamento do filósofo Neném Prancha: “o importante é o principal; o resto é secundário”. Quero dizer: pouca coisa merece ser levada tão a sério.

O acúmulo de decepções (às vezes, supostas) leva ao limiar de extrema sensibilidade – que pode tornar algo fútil ou uma pequena mágoa a um transbordamento.

Nosso outro amigo, Montaigne (1533-1592), conta a história de um príncipe que soube da morte de seu irmão mais velho e, logo em seguida, de seu irmão mais novo. Às duas notícias resistiu com uma resignação que causou estranheza. Entretanto, com a morte de um dos seus servidores, desabou.

Questionado, o príncipe explicou: “É, porque só a última dor pôde exprimir-se em lágrimas; as duas primeiras ultrapassaram em muito qualquer meio de expressão.”

Sofrimento não é para se guardar. Ele é corrosivo.

O futuro é só surpresas – muitas, dolorosas como nunca vivemos. Mas ele não pode ser visto como intimidante, só desafiador.

“Os deuses deixam, por prudência, na obscuridade mais tenebrosa os acontecimentos vindouros, e riem-se do mortal que leva as suas inquietações mais longe do que deve …

Só quem é dono de si mesmo, é feliz; só é ditoso quem pode dizer em cada dia: vivi, que amanhã Júpiter encha a atmosfera com tristes nuvens ou nos conceda um dia sereno.

Um espírito satisfeito com o presente evitará inquietar-se com o futuro.” (Horácio, Odes)

Para o budismo, o sofrimento deriva do apego – embora sejamos transitórios, desenvolvemos apego ao que gostamos e, àquilo que nos fazem pensar que é importante.

“Agora, monges, esta é a Nobre Verdade do sofrimento: nascimento é sofrimento, envelhecimento é sofrimento, enfermidade é sofrimento, morte é sofrimento, tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimento; a união com aquilo que é desprazeroso é sofrimento; a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento; não obter o que se deseja é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento.”

(Sermão que a tradição atribui ao Buda, com a definição de dukkha)

Num post anterior, ressaltamos que “sofrimento” (dukkha) poderia ser entendida como “insatisfação”.

Não quero encobrir a realidade em que vivemos, muito dura. Inflação, perda de renda, desemprego e fome não são desafios triviais, para ninguém.

Porém, a desesperança não é uma saída.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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