A heresia dos cátaros

Aventuras na História · Cátaros: A heresia dos séculos

“Neste mundo, criado pelo Diabo, só podes esperar o inesperado.” (Raymond VI, 1156-1222), Conde de Toulouse, defensor dos cátaros)

“A religião da Occitânia e Languedoc sempre foi um cristianismo simples e puro, um cristianismo na linha de João: não a espada, não o dogma, mas o Amor.

“Em pequenos grupos ou círculos, eles viviam sua ligação direta com o cristianismo original baseado nos três princípios: devotamento, consagração, iniciação.

A transmissão era feita de pessoa a pessoa, do Ancião ao Jovem (ou discípulo).
Assim, na metade do século 12, o espírito occitano cristão estava presente no ar: sem organização hierárquica, nem ritos especiais ou culto oficial.

Não pretendia ser um desvio, nem alimentar controvérsias, mas encarnava um sentimento religioso aberto, no qual Deus, o Pai, é tudo e tudo carrega; no qual o Filho é a Luz – a consciência – que explica o Pai em sua criação, e em que o Espírito Santo é um grande mistério, que somente pode ser compreendido pelo homem-espirito, o homem espiritual.

Jamais os fiéis dos pireneus colocaram uma igreja, um sacerdote ou um papa entre a alma humana e o mundo divino; e certamente jamais colocaram um ávido representante da dinastia dos Capeto, dos reis da França. (Petra Augrandjean e Peter Huijs, da Escola Rosacruz Áurea)

Nicetas Coniates – um cristão dissidente vindo de Constantinopla foi, supostamente, quem organizou as bases do catarismo, a partir de um convite feito em 1167.

A palavra cátaro vem do grego katharos e significa “puro”.

A população dessa região, principalmente no Languedoc (onde estão as cidades de Toulouse, Albi e Béziers) desenvolveram um conjunto de crenças inteiramente baseado nos ensinamentos do Cristo.

Sua principal obra de estudo era o Novo Testamento, com destaque para o evangelho de João e as cartas de Paulo, de onde extraíram ideias como a crença na reencarnação e a prática da comunicação com os espíritos.

Intitulavam-se apenas bons cristãos ou bons homens e, destituídos de posses, corriam o país pregando a mensagem do Cristo e curando corpos e almas, como aliás fizeram os primitivos cristãos

A cidade de Albi, no sul da França, foi um dos maiores redutos do catarismo na Baixa Idade Média
(Albi, no sul da França)

Há quem defenda que o catarismo foi influenciado pelo bogomilismo, uma seita gnóstica cristã fundada pelo padre Bogomil, no século X.

Há semelhanças, também com os seguidores de Pedro Valdo, em Lyon, os “valdenses“, que na mesma época da visita de Nicetas, faziam votos de pobreza e de desapego às coisas materiais. Aliás, havia muitas “igrejas” (como se designavam) heréticas nesse período.

São Francisco de Assis iniciou sua pregação por uma vida missionária despojada por volta de 1208. Foi deixado em paz pela Igreja porque o papa Inocêncio III teve um sonho que o intimidou – antes havia mandado Francisco ir pregar aos porcos (ele foi).

Os cátaros, entretanto, iam mais longe, pois acreditavam:

  • que todas as almas seriam salvas no fim dos tempos (o que contribuía para a adesão de fiéis);
  • que o mundo material era mau desde a criação;
  • que a restauração do homem acontecia por meio do ascetismo (penitência) e comunhão com Deus;
  • no celibato (permanecer solteiro);
  • condenavam o casamento e a procriação;
  • não comiam carne (a exceção era peixe), gorduras, ovos, leite e queijo;
  • o mundo não foi criado por um deus bom; foi uma criação de uma força das trevas, imanentes a todas as coisas;
  • a matéria era corrupta e irrelevante para a salvação;
  • nenhuma atenção deveria ser dada aos sistemas elaborados para intimidar as pessoas e fazê-las obedecer a quem possuísse a espada mais afiada ou a carteira mais recheada de dinheiro – ou, a mais longa ‘vareta de incenso’;
  • a autoridade terrena era uma fraude e, aquela baseada em alguma sanção divina, como defendia a Igreja Católica, era total hipocrisia.

A Igreja não aguentava isso!

“O deus que fazia jus ao culto cátaro era um deus de luz, que governava o invisível, o etéreo, o domínio espiritual.

Esse deus, sem ligação com o mundo material, simplesmente não se importava se você ia para a cama com alguém antes de se casar, se tinha amigos judeus ou mulçumanos, se tratava homens e mulheres da mesma forma ou se fazia alguma coisa a mais que fosse contrária aos ensinamentos da Igreja.

Dependia do indivíduo (homem ou mulher) decidir se ele ou ela estava pronto a renunciar à dimensão material em prol de uma vida de austeridade autoimposta.

Se não estivesse, continuaria retornando a este mundo (reencarnando), até tornar-se apto a abraçar uma vida suficientemente pura que, depois da morte, permitisse a ascensão ao mesmo estado beatífico que uma alma experimentara como anjo antes de ser tentada a descer dos céus, no início dos tempos.

Ser salvo, portanto, significava tornar-se um santo.

Ser condenado significava viver, repetidamente, nesta Terra corrompida.

O inferno era aqui, não em alguma horrível vida após a morte, inventada por Roma para aterrorizar as pessoas até tirar-lhes o juízo.” (Stephen O’Shea)

A paciência da Igreja acabou, e o papa Inocêncio III (lembram?) iniciou a Cruzada Albigense para destruir os cátaros.

O ódio imperou. No cerco a Béziers, o monge Arnold Amaury, que liderava as forças da Igreja, ao ser questionado como se poderia distinguir os fiéis ao catolicismo dos cátaros heréticos, teria dito: “Matem todos; Deus saberá quem são os seus“.

A inquisição foi estabelecida em 1234 para acabar com os cátaros remanescentes.

Mas, não duvido: há cátaros ainda!

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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